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Mais de 65 anos e sente-se menos motivado? A psicologia diz que isto não é preguiça.

Pessoa a escrever numa folha, com chá e caderno na mesa, perto de uma janela.

O café tinha arrefecido em cima da mesa. Henri, 71 anos, fixou os olhos nas ferramentas de jardinagem junto à porta e sentiu aquela conhecida sensação de peso no peito. Há alguns anos, já estaria lá fora, mãos na terra, o rádio a murmurar ao fundo. Agora, as ferramentas pareciam pesar uma tonelada só de as olhar. A vontade existia na cabeça, como uma memória distante. O impulso de se levantar… esse, nem por isso.

No domingo, a filha tinha brincado: “Pai, estás a ficar preguiçoso.”
A palavra doeu mais do que ele esperava.

Algo dentro dele sussurrava que aquilo não era preguiça.
Ele só não conseguia explicar o que tinha mudado.

Porque é que a motivação muda mesmo depois dos 65

Quando as pessoas passam a marca dos 65, algo subtil se altera. O corpo abranda, claro, mas a mente também começa a reorganizar o que “vale” o esforço. Tarefas que antes traziam entusiasmo imediato passam a parecer a subida de uma pequena colina. Tu sabes que consegues - já fizeste coisas mais difíceis - mas a linha de partida parece estranhamente distante.

Os psicólogos veem isto todos os dias nos seus consultórios. Reformados que tiveram carreiras cheias de actividade de repente ficam com calendários vazios e uma sensação estranha de “E agora?”. A energia que antes era puxada para a frente por prazos, filhos ou ambições encontra menos “ganchos” onde se agarrar. Então o cérebro adapta-se.
E, por vezes, essa adaptação parece, de fora, preguiça.

Veja-se o caso da Maria, 68 anos, enfermeira reformada que passou décadas a conciliar turnos nocturnos e jantares em família. O primeiro ano de reforma soube a férias. Dormiu mais, leu, viu filmes que tinha perdido. Depois, devagarinho, reparou que já não lhe apetecia muito ir aos ensaios do coro. As idas às compras passaram de segunda-feira para “Talvez amanhã”.

O médico pediu análises. O sangue estava bem, o coração também, nada de alarmante. Os amigos brincavam com carinho sobre ela “estar a ficar preguiçosa”. No entanto, quando uma vizinha precisou de ajuda após uma cirurgia, a Maria estava à porta dela todas as manhãs às 8h30, bem-disposta e eficiente.
Portanto, não era preguiça.
A motivação dela tinha apenas mudado de rumo e aparecia onde sentia algo profundamente significativo.

A psicologia tem um nome para esta mudança: reorientação motivacional. À medida que as pessoas envelhecem, o cérebro tende a dar prioridade ao conforto emocional, às relações próximas e ao bem-estar imediato, em vez de objectivos longínquos ou pressão social. As ambições de longo prazo perdem algum “brilho”, enquanto pequenos momentos emocionalmente ricos ganham valor.

Isto não significa que deixes de te importar. Significa que o teu “contabilista interno de energia” está a recalcular. Projectos grandes que antes pareciam entusiasmantes agora parecem drenar demais para devolver de menos. Esse instinto silencioso de proteger a energia que resta não é preguiça. É a tua psique a tentar manter-te seguro, estável e calmo. O problema é que ninguém te explica isto quando apagas 65 velas.

De “preguiça” a “energia selectiva”: como trabalhar com o teu cérebro

Um método útil é passar de te obrigares a “encontrar motivação” para observares onde a tua energia surge naturalmente. Em vez de perguntares “Porque é que não me apetece fazer nada?”, experimenta “Quando é que, na verdade, me sinto um pouco mais desperto ou curioso?”. Repara na hora do dia, no tipo de actividade, nas pessoas à tua volta.

Depois, começa com passos ridiculamente pequenos. Não “Vou caminhar 30 minutos todas as manhãs”, mas “Vou calçar os sapatos e caminhar até à caixa do correio”. Só isso. Se te apetecer ir mais longe, óptimo. Se não, amanhã tentas outra vez. O objectivo é mostrar ao teu cérebro que a colina é pequena, não o Evereste.
Pequenas vitórias reacendem o motor de forma muito mais fiável do que grandes promessas.

Muitas pessoas com mais de 65 entram num ciclo silencioso de auto-crítica. “Eu fazia tanto… o que se passa comigo?” Comparam-se com a versão de 45 anos que trabalhava o dia inteiro e ainda cozinhava para uma família de cinco. Essa comparação é brutal e injusta.

O erro é interpretar um ritmo mais lento como uma falha moral. Não és preguiçoso por precisares de mais descanso antes de ligares a um amigo ou ires às compras. Estás a viver num corpo diferente, com um sistema nervoso diferente e um cérebro que já viu stress que chegue. Ser gentil contigo não é uma desculpa. É uma estratégia.
Sejamos honestos: ninguém reconstrói a motivação a gritar consigo próprio.

“À medida que envelhecemos, a motivação não desaparece; torna-se mais selectiva”, explica um psicólogo que trabalha sobretudo com pessoas acima dos 60. “O impulso continua lá, mas foca-se no que é emocionalmente seguro, familiar ou verdadeiramente significativo. Quando os adultos mais velhos compreendem isto, a culpa diminui e a vida torna-se mais leve.”

  • Renomeia “preguiça” como “proteção de energia”
    Quando te sentires bloqueado, pergunta: “Do que é que me estou a tentar proteger agora?” Esta mudança simples pode reduzir a vergonha e abrir espaço para a curiosidade.
  • Usa “experiências de cinco minutos”
    Em vez de planeares mudanças enormes no estilo de vida, compromete-te apenas com cinco minutos: cinco minutos a arrumar, alongar, telefonar a um amigo ou sair à rua. Pequenas doses parecem menos ameaçadoras para um cérebro cansado.
  • Ancorar tarefas a recompensas emocionais
    Junta acções menos agradáveis a algo que realmente importa: caminhar enquanto ligas a um neto, alongar enquanto ouves o teu cantor favorito, cozinhar enquanto partilhas uma história com alguém.
  • Atenção aos assassinos silenciosos da motivação
    Luto não verbalizado, dor não tratada, sono fraco ou certos medicamentos podem esmagar a tua vontade sem fazer barulho. Se a falta de motivação parecer pesada, cinzenta ou constante, isso é um sinal para falar com um profissional.
  • Mantém “uma coisa” por dia
    Em vez de uma lista enorme, escolhe uma acção pequena e clara que dê forma ao teu dia. Concluir essa única coisa pode reconstruir, aos poucos, a sensação de controlo.

Repensar como é uma vida “motivada” depois dos 65

Quanto mais envelhecemos, mais a palavra “motivação” precisa de ser limpa dos seus significados antigos. Durante décadas, soava a acordar às 6h, correr de um lado para o outro, preencher cada hora com produtividade mensurável. Depois dos 65, esse modelo simplesmente colapsa. A vida coloca perguntas diferentes.

Talvez a tua motivação mais profunda agora seja estares presente para os teus netos. Ou sentir menos dor quando acordas. Ou preservar a tua dignidade e autonomia o máximo de tempo possível. Estes não são objectivos pequenos. Só não ficam “glamorosos” nas redes sociais.
Ainda assim, são profundamente humanos e merecem o mesmo respeito que qualquer promoção ou medalha.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A motivação torna-se selectiva, não mais fraca Depois dos 65, o cérebro favorece segurança emocional, relações e bem-estar imediato em vez de objectivos distantes. Reduz a culpa e a auto-culpabilização; ajuda a compreender porque é que algumas coisas custam mais a começar.
Passos pequenos funcionam melhor do que grandes planos Acções de cinco minutos e compromissos minúsculos contornam a resistência do cérebro ao esforço. Faz com que a mudança pareça possível, mesmo em dias de pouca energia.
Falta de vontade pode sinalizar questões ocultas Depressão, dor, solidão ou efeitos de medicação muitas vezes aparecem como “sem motivação”. Incentiva a procurar ajuda em vez de culpar o carácter.

FAQ:

  • É normal sentir-me menos motivado depois dos 65?
    Sim. Muitas pessoas sentem uma mudança no que atrai a sua energia. Pode importar-te menos fazer grandes projectos para o futuro e mais o conforto diário, as relações e prazeres simples. Isso não significa que sejas preguiçoso; significa que as tuas prioridades mudaram.
  • Como sei se é apenas baixa motivação ou depressão?
    A falta de motivação ligada ao envelhecimento normal costuma ir e vir, dependendo da tarefa ou do teu nível de energia. A depressão tende a ser mais pesada e constante, com tristeza, perda de interesse em quase tudo, alterações do sono ou do apetite e, muitas vezes, um sentimento de inutilidade. Se isto te soar familiar, é crucial falares com um médico ou terapeuta.
  • Posso “treinar” a minha motivação na minha idade?
    Sim, mas não com disciplina dura. Rotinas suaves, objectivos muito pequenos e actividades com significado emocional são muito mais eficazes. Pensa na motivação como um músculo que prefere movimentos lentos e regulares, em vez de treinos intensos.
  • E se a minha família disser que eu estou apenas a ser preguiçoso?
    Podes explicar com calma que a tua energia mudou e que estás a aprender a respeitar os teus limites. Partilha o que ainda é importante para ti e onde estás disposto a investir esforço. Por vezes, dar aos familiares palavras como “proteção de energia” ou “motivação selectiva” ajuda-os a perceber o que realmente estás a viver.
  • É tarde demais para começar algo novo depois dos 65?
    De forma nenhuma. Muitas pessoas começam voluntariado, aprendem línguas, juntam-se a grupos de caminhada ou até iniciam pequenos negócios nesta idade. A chave é começares a partir do que verdadeiramente te chama agora, não a partir de quem eras há 20 ou 30 anos. Os teus novos projectos podem crescer a partir da pessoa em que te tornaste, não da pessoa que costumavas ser.

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