A primeira coisa que se nota é o silêncio.
Sem o chilrear entrecortado ao amanhecer, sem um lampejo vermelho a saltitar pela relva gelada. Apenas um jardim imóvel, cinzento, e o estalido dos teus próprios passos. No poste da vedação onde um pintarroxo costuma pousar, há apenas uma fina camada de gelo.
Depois, de repente, ele aparece. Minúsculo, eriçado ao ponto de parecer ter o dobro do tamanho, bico ligeiramente aberto como se estivesse a avaliar se o teu jardim ainda compensa o risco. Pousa, olha em volta, e quase consegues sentir a pergunta no seu corpinho: “Há aqui alguma coisa para mim?”
Neste momento, por todo o Reino Unido, milhões de pessoas estão a viver esse mesmo instante silencioso e invernal com um pintarroxo.
A RSPCA diz que uma pequena coisa na prateleira da tua cozinha pode mudar esse momento por completo.
Porque é que a RSPCA nos está a pedir desesperadamente para ajudarmos os pintarroxos agora
Quando o tempo muda, os pintarroxos estão entre os primeiros a mostrar-nos o quão duro o inverno pode ser.
Podem parecer confiantes e vivos, mas por baixo daquele peito vermelho está uma ave a gastar energia apenas para sobreviver a uma noite longa e fria. A comida - sobretudo a comida de alta energia - passa a ser uma questão de horas, não de dias.
É por isso que a RSPCA tem vindo a apelar a qualquer pessoa que veja pintarroxos no jardim para ajudar com algo incrivelmente simples. Nada de comida sofisticada para aves, nada de comedouros especiais. Apenas um básico de cozinha que quase toda a gente tem, esquecido lá no fundo de um armário.
Por todo o país, equipas de bem-estar animal e voluntários estão a ver o mesmo padrão.
Chamadas sobre aves “fracas” ou “mansas” que não levantam voo. Pintarroxos pousados em zonas baixas, eriçados em mesas de jardim, a observar as pessoas através da janela em vez de fugirem como costumam.
Um inspetor da RSPCA descreveu a visita a uma pequena casa em banda onde um homem idoso tinha começado a colocar restos cá fora. O pintarroxo voltava a cada 20 minutos, apanhava bocadinhos minúsculos, desesperado por calorias. O homem achava que estava apenas a “ser simpático”. Na realidade, aquela ave estava por um fio.
A lógica por detrás do conselho da RSPCA é brutalmente simples.
Quando as fontes naturais de alimento congelam ou desaparecem - minhocas mais fundo no solo, insetos ausentes, bagas já comidas - os pintarroxos têm de encontrar alternativas densas e energéticas depressa. Cada voo, cada tremor, cada noite num ramo baixo consome reservas preciosas de gordura.
Por isso, a instituição pede-nos que intervenhamos com o que já temos. Não misturas gourmet para aves. Não receitas complicadas. Apenas um alimento barato e do dia a dia, que fornece a gordura, a proteína e o “calor” de que estes corpos minúsculos precisam para ver mais uma manhã.
O básico humilde da cozinha que os teus pintarroxos estão discretamente a pedir
O grande “segredo”? Gordura de cozinha comum sem sal e alimentos moles do teu armário.
A RSPCA dá especial ênfase a restos simples e sem sal como queijo suave ralado, flocos de aveia de papas demolhados e pequenas quantidades de sebo (suet) ou banha misturados com sementes. Só isto. Coisas que muitos de nós já temos em casa e quase nem pensamos nelas.
Esfarelas numa mesa para pássaros, num muro baixo, ou até num pratinho de vaso. Em menos de uma hora, aquele pintarroxo nervoso muitas vezes volta, inclina a cabeça, e apanha um bocadinho de cada vez. Para ele, esse pedaço de gordura é a diferença entre “apagar-se” e aguentar mais uma noite gelada.
Todos já passámos por isso: abres o frigorífico e ficas a olhar para um pedaço de queijo a meio ou para um bocado de banha que compraste para as batatas assadas do Natal. Sabes que não vais usar. Fechas a porta e voltas a esquecer.
Uma mulher em Kent contou a voluntários locais que começou a ralar a ponta final de cada queijo para um pires para “o pintarroxo dela”. Em poucos dias, não só o pintarroxo, mas também um par de melros e uma carriça-dos-sebes desconfiada entraram na fila. Aquele resto de queijo, solitário e esquecido, transformou-se discretamente numa mini estação de suporte de vida à beira do pátio.
A ciência por detrás disto é bastante simples.
Os pintarroxos têm metabolismos incrivelmente rápidos. Queimam calorias constantemente só para manter o “motor” a funcionar. Alimentos ricos em gordura e calorias, como sebo, banha e queijo, dão-lhes combustível concentrado numa forma que o corpo consegue usar depressa.
Cereais como flocos de aveia (primeiro demolhados para ficarem macios) ajudam a complementar, oferecendo energia de libertação mais lenta. Quando juntas os dois - gordura para aquecer, aveia para aguentar - estás, no fundo, a criar uma “barra energética” para aves com aquilo que normalmente iria para o lixo. Sejamos honestos: quase ninguém faz isto todos os dias.
E, no entanto, essas migalhas que deitas fora podem ser a pequena diferença que uma ave selvagem nunca esquece.
Como alimentar o teu pintarroxo em segurança sem piorar a situação
O método básico é surpreendentemente fácil.
Pega num pequeno punhado de flocos de aveia simples e salpica com um pouco de água morna para amolecerem e incharem. Depois esfarela uma ou duas colheres de chá de sebo (suet) sem sal, banha ou queijo suave ralado, misturando suavemente para formar pedaços soltos e esfarelados.
Espalha esta mistura numa superfície plana - uma mesa para pássaros, um peitoril largo, um pratinho de vaso num muro. Mantém perto de arbustos ou de uma sebe para o pintarroxo ter uma rota de fuga rápida. Coloca pouco de cada vez e repõe quando acabar. O objetivo é “mini reabastecimentos” regulares, não um buffet livre.
Aqui é onde as coisas muitas vezes correm mal, e é totalmente compreensível.
As pessoas gostam de aves, por isso exageram com pão, sobras salgadas ou grandes montes de gordura que rapidamente ficam rançosos. A RSPCA pede-nos, com cuidado, para evitarmos pão bolorento, sobras de assados, gordura salgada de bacon e tudo o que tenha temperos ou picante. Estas coisas podem fazer mal às aves ou atrair ratos.
Começa com pouco. Uma colher é suficiente. Renova diariamente, sobretudo em tempo húmido ou de geada. Se estiveres cansado ou ocupado, é melhor falhar um dia do que deixar um monte enorme que fica viscoso e perigoso. O teu pintarroxo precisa de snacks fiáveis e limpos, não de uma montanha em decomposição de “bondade”.
“As pessoas imaginam que é preciso comedouros especiais e misturas caras”, disse-nos um técnico de vida selvagem da RSPCA. “Mas nos dias mais frios, essa colher de sopa de queijo ralado ou um pouco de sebo da tua própria cozinha pode ser o que permite a um pintarroxo aguentar a noite.”
- Usa isto: sebo (suet) ou banha sem sal, queijo suave ralado, flocos de aveia demolhados, corações de girassol, amendoins sem sal picados.
- Evita isto: gorduras salgadas ou aromatizadas, aveia seca, crostas de pão, sobras de assados, gordura de assados de tabuleiros, qualquer coisa com bolor.
- Melhor local para alimentar: superfície plana perto de abrigo, longe de zonas onde gatos se possam esconder; idealmente visível de uma janela para poderes apreciar as visitas.
- Com que frequência: uma ou duas vezes por dia durante vagas de frio, com pequenas porções que possas renovar facilmente.
- Bónus extra: prato pouco fundo com água fresca para beber e banhos muito rápidos, mesmo em dias gelados.
A alegria silenciosa de saber que o teu pintarroxo passou a noite
Há algo estranhamente pessoal num pintarroxo.
São das poucas aves selvagens que te olham diretamente, como se te estivessem a avaliar. Quando começas a pôr cá fora essa mistura simples de cozinha, começas a notar padrões: a mesma ave a aparecer à mesma hora; o salto rápido e nervoso a tornar-se numa chegada mais ousada e confiante.
Não podes abraçar uma ave selvagem nem consertar o tempo. Não consegues descongelar o solo nem fazer aparecer insetos do nada. Mas podes abrir o armário e decidir que um pequeno pedaço esquecido de gordura ou queijo vai para a rua, e não para o lixo. Às vezes, isso parece o tipo de cuidado mais “pé no chão” que existe.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Básico simples de cozinha | Sebo (suet) ou banha sem sal, queijo ralado e aveia demolhada do teu próprio armário | Forma fácil e barata de apoiar pintarroxos locais e outras aves de jardim |
| Método seguro de alimentação | Pequenas porções frescas numa superfície plana perto de abrigo, renovadas diariamente | Protege as aves de doenças, predadores e comida estragada |
| Impacto real em vagas de frio | Comida de alta energia ajuda as aves a sobreviver a noites longas e geladas quando o alimento natural é escasso | Dá a sensação de fazer algo concreto e com significado pela vida selvagem |
FAQ:
- Pergunta 1: Posso dar flocos de aveia secos diretamente do pacote aos pintarroxos?
É melhor demolhá-los primeiro para amolecerem. A aveia seca pode inchar no estômago da ave e causar problemas, enquanto a aveia demolhada é mais fácil de digerir e mais segura.- Pergunta 2: Todo o queijo é seguro para pintarroxos?
Fica por queijo suave, ralado, em pequenas quantidades, e evita queijos fortes, muito salgados ou processados. O queijo é um suplemento, não uma dieta completa, por isso usa-o como parte de uma mistura variada.- Pergunta 3: E a gordura do meu assado - posso pô-la cá fora?
O conselho da RSPCA é claro: a gordura de tabuleiros de assados pode colar-se às penas e fica rançosa rapidamente. Usa antes sebo (suet) ou banha limpos e sem sal, em pequenos pedaços esfarelados.- Pergunta 4: Dar comida não vai tornar as aves “demasiado mansas” ou dependentes?
As aves selvagens continuam a procurar alimento natural. O que colocas no jardim funciona como um reforço crucial, especialmente em tempo duro, em vez de substituir por completo a alimentação normal.- Pergunta 5: Durante quanto tempo devo alimentar os pintarroxos desta forma?
Podes oferecer estes restos energéticos durante os meses mais frios e em períodos de mau tempo. Quando a primavera chegar a sério e os insetos regressarem, podes reduzir gradualmente a alimentação extra.
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