Estás sentada/o num café, a contar a uma amiga que tiveste uma semana difícil. Antes mesmo de acabares a frase, apressas-te a acrescentar: «Mas não é assim tão mau, há pessoas pior, estou só a ser dramática/o.»
A tua amiga não te acusou de nada. Ninguém revirou os olhos. Mesmo assim, o teu cérebro carregou no botão do modo de defesa, como se a tua tristeza precisasse de uma autorização.
Algumas pessoas fazem isto todos os dias, quase automaticamente.
Choram e depois pedem desculpa.
Dizem que estão zangadas e, de seguida, explicam logo porque é que essa zanga é «racional» e «não é uma loucura».
Porque é que certos cérebros sentem esta pressão constante para justificar emoções que já são reais?
Porque é que algumas pessoas sentem que têm de “defender” os seus sentimentos
Os psicólogos vêem frequentemente o mesmo padrão: as pessoas tratam o seu mundo interior como um caso em tribunal.
Cada emoção precisa de uma testemunha, provas, contexto.
Se não conseguem explicar exactamente «porquê» se sentem com ciúmes, ansiosas ou desiludidas, começam a duvidar de si próprias em vez de questionarem a situação.
É como se qualquer sentimento sem nota de rodapé se tornasse suspeito: excessivo, demasiado sensível, não válido.
Por detrás desse reflexo, há muitas vezes uma lição aprendida cedo: as tuas emoções só são toleradas se forem úteis, lógicas ou convenientes para os outros.
Quando essa ideia cria raízes, segue-te para todo o lado.
Imagina uma criança que rebenta em lágrimas porque um brinquedo se partiu.
Em vez de conforto, ouve: «Para de chorar, é só um brinquedo», ou «Estás bem, não há razão para ficares assim.»
A mensagem é subtil, mas cortante: o teu sentimento está errado a menos que um adulto concorde com ele.
Avança vinte anos e essa mesma criança, agora adulta, sente um nó no estômago antes de falar no trabalho.
Com o coração aos saltos, ensaia uma história inteira na cabeça para justificar um limite simples: «Estou sobrecarregada/o, não consigo assumir mais esta tarefa.»
Os psicólogos chamam a isto invalidação emocional.
Nem sempre tem o aspecto de gritos ou gozo.
Às vezes é silenciosa, até parece dita com carinho, mas mesmo assim ensina-te a não confiar no teu próprio radar emocional.
Com o tempo, o teu cérebro constrói uma regra de sobrevivência: «Se eu não conseguir explicá-lo na perfeição, não devia senti-lo.»
Essa regra pode manter a paz, mas tem um custo.
A investigação sobre auto-compaixão e vinculação (apego) mostra que, quando as emoções são constantemente explicadas e “desmontadas”, as pessoas começam a desligar-se das próprias necessidades.
Vivem do pescoço para cima, em modo de análise, enquanto o corpo continua a gritar por baixo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem pagar um preço em exaustão, ressentimento ou uma solidão silenciosa.
Por isso é que os terapeutas dizem muitas vezes que o verdadeiro trabalho não é aprender a justificar os teus sentimentos.
O verdadeiro trabalho é aprender a deixá-los existir sem uma apresentação em PowerPoint.
Como deixar de explicar demasiado as tuas emoções
Uma prática simples, vinda das salas de terapia: responde à pergunta «O que é que estou a sentir?» sem acrescentar o «porquê» durante 60 segundos.
Apenas nomeia a emoção como nomearias o tempo.
«Sinto-me triste.»
«Sinto-me irritada/o.»
«Sinto-me com medo.»
Sem história, sem cambalhotas, sem defesa em tribunal.
Ao início, pode parecer quase uma nudez, como andar sem casaco.
O teu cérebro quer entrar com contexto, mas o exercício consiste em dar ao sentimento um espaço pequeno e silencioso para existir.
Uma armadilha comum é pedir desculpa pelas tuas emoções antes de alguém reagir.
«Se calhar estou a exagerar, mas…»
«Isto é parvo, mas sinto…»
Desvalorizas-te antes de a conversa sequer começar.
Experimenta uma pequena mudança.
Troca «Eu sei que não devia sentir-me assim» por «Uma parte de mim sente-se assim.»
Não estás a negar a emoção confusa, mas também não a estás a transformar na tua identidade inteira.
Sê gentil com o tempo que isto demora.
Estás a desfazer anos de reflexos, não um mau hábito da semana passada.
Às vezes, a frase mais corajosa que consegues dizer em voz alta é simplesmente: «É assim que me sinto, e ainda não tenho uma explicação arrumadinha.»
- Repara nas tuas palavras-reflexo
Expressões como «estou a ser dramática/o» ou «sou demasiado sensível» são sinais de alerta de que estás a justificar em vez de sentir. - Abranda a tua resposta
Antes de explicares, faz uma pausa e nomeia em silêncio a emoção em bruto: triste, zangada/o, confusa/o, envergonhada/o. - Pratica primeiro com pessoas seguras
Escolhe uma amiga, parceira/o ou terapeuta com quem possas partilhar emoções sem uma grande história de fundo. - Usa os sinais do corpo como dados
Peito apertado, maxilar contraído, olhos cansados: o teu sistema nervoso muitas vezes sabe que estás perturbada/o antes da tua mente. - Permite momentos “irracionais”
Uma emoção não precisa de passar num teste de lógica para ser real. O teu corpo raramente mente sobre o que dói.
Deixar os sentimentos existir sem um discurso de defesa
Há uma revolução silenciosa em aprender a dizer: «Eu sinto isto», e ficar por aí.
Não para manipular, não para ganhar uma discussão, mas para viver um pouco mais perto da tua experiência real.
Quando deixas de ver as emoções como algo que precisa de ser constantemente justificado, as relações também mudam muitas vezes.
As pessoas à tua volta passam a receber uma versão mais honesta de ti, não um comunicado de imprensa polido.
Às vezes aproximam-se e encontram-te aí; outras vezes não - e só essa informação já é poderosa.
Podes reparar na frequência com que o mundo tenta apressar-te para lá do desconforto: «Anima-te, está tudo bem, há quem esteja pior.»
E podes também ouvir uma voz nova, mais baixa, que diz: «Eu tenho direito a sentir isto, mesmo que ninguém perceba porquê.»
A psicologia não promete uma vida sem emoções confusas.
O que oferece é um contrato diferente: não tens de fazer um contra-interrogatório ao teu próprio coração antes de te ser permitido ouvi-lo.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para a/o leitora/leitor |
|---|---|---|
| Invalidação emocional | Mensagens precoces de que certos sentimentos são «demais» ou «não são reais» moldam reflexos na idade adulta | Ajuda-te a ver a tua auto-dúvida como algo aprendido, não como uma falha pessoal |
| Parar de explicar em excesso | Praticar nomear emoções sem acrescentar uma história de justificação | Desenvolve auto-confiança e reduz a ansiedade de «precisar de uma razão» |
| Pequenas mudanças de linguagem | Substituir a auto-crítica por frases mais suaves e observar os sinais do corpo | Oferece ferramentas concretas para expressar sentimentos com mais honestidade e segurança |
FAQ:
- Porque é que me sinto culpada/o por ter emoções?
A culpa costuma vir de crescer em ambientes onde os teus sentimentos foram minimizados, ridicularizados ou ignorados. O teu cérebro associou a expressão emocional a problemas, e por isso agora até uma tristeza ou zanga normais activam um sinal de «perigo».- É normal precisar de uma razão para cada sentimento?
É comum, especialmente em pessoas analíticas ou ansiosas, mas não necessariamente saudável. As emoções são muitas vezes mais rápidas do que os pensamentos, por isso aparecem antes de a história completa estar clara.- Como posso perceber se estou a justificar demasiado as minhas emoções?
Podes notar explicações longas, pedidos de desculpa constantes, ou medo de «fazer as pessoas perderem tempo» com os teus sentimentos. Depois das conversas, sentes-te drenada/o, como se tivesses de defender o teu direito a estares perturbada/o.- E se os outros disserem que sou demasiado sensível?
Sensibilidade significa simplesmente que o teu sistema nervoso capta mais sinais. Isso pode ser cansativo, mas também é uma força para a empatia e a criatividade. O objectivo não é seres menos sensível, mas seres melhor acompanhada/o e apoiada/o.- Então não devo explicar os meus sentimentos?
O contexto pode ajudar nas relações, mas não vem em primeiro lugar. Começa por reconhecer o sentimento para ti, e depois partilha tanto do «porquê» quanto te pareça respeitoso e honesto - não como um pedido de autorização.
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