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A psicologia diz que quem cresceu nas décadas de 60 e 70 desenvolveu sete forças mentais que hoje são cada vez mais raras.

Homem idoso ensina rapaz a consertar um rádio antigo numa mesa com caderno e mapas.

Picture isto: uma criança em 1974 é “posta na rua” depois do pequeno-almoço com uma frase - “Volta antes de escurecer.” Sem telefone. Sem GPS. Só uma bicicleta com travões a chiar e umas moedas no bolso. Horas de tédio para preencher, problemas para resolver sozinho, amigos para encontrar tocando às campainhas em vez de enviar mensagens.

Essas crianças cresceram e são os atuais adultos de 50, 60 e 70 anos. Criaram-se a si próprias entre os desenhos animados de sábado de manhã e os candeeiros da rua à noite.

Psicólogos dizem que essa infância - áspera nas bordas e em grande parte offline - forjou sete forças mentais que estão, discretamente, a desaparecer.

E começamos a sentir a falta delas.

O músculo perdido da resiliência no mundo real

Pergunte a alguém que foi criado nos anos 60 ou 70 sobre a sua infância e vai ouvir muitas das mesmas frases. “Bebíamos água da mangueira.” “Íamos a pé para a escola sozinhos.” “Magávamo-nos, chorávamos e voltávamos a montar a bicicleta.”

A resiliência não era uma palavra da moda. Era a única forma de atravessar um dia que ninguém tinha “almofadado” antecipadamente. Os pais não estavam a seguir cada movimento nem a negociar cada conflito com professores ou vizinhos. A vida dava pequenos murros cedo e muitas vezes, e as crianças aprendiam a aguentá-los.

Isso não tornou esses anos magicamente melhores. Tornou, sim, as pessoas mais duras de formas silenciosas e comuns.

Os psicólogos falam em “tolerância à frustração” - a capacidade de permanecer no desconforto sem se desmoronar. Quem foi criado nos anos 60 e 70 praticava isso diariamente. Esperava-se uma semana inteira pelo programa de TV favorito. Juntavam-se moedas durante meses para comprar um disco. Faziam-se filas, suportava-se o tédio, voltava-se para casa à chuva porque ninguém vinha resgatar.

Uma mulher que entrevistei, nascida em 1965, contou-me como perdeu o autocarro no inverno. Os pais trabalhavam ambos. Não havia ninguém a quem ligar, nem onde se esconder. Caminhou quarenta minutos na neve, zangada e a congelar. Anos depois, quando a empresa reduziu pessoal, disse que essa caminhada lhe voltou à memória. “Pensei: bem, já estive aqui antes. É horrível. Vou continuar a andar.”

Hoje, muitos psicólogos veem a tendência oposta: crianças e jovens adultos protegidos de pequenos desconfortos e depois esmagados por contratempos banais. O entretenimento instantâneo elimina o tédio. Os pais intervêm em conflitos que antes se resolviam no recreio. A vida digital dá-nos uma fuga rápida a qualquer sensação desagradável.

Quem cresceu nos anos 60 e 70 não tinha essa escotilha de escape. O sistema nervoso aprendeu: o stress vem, o stress vai, eu continuo aqui. Isso é resiliência no seu nível mais básico - não heroísmo, mas uma confiança silenciosa de que se sobrevive à frustração, se adapta, e a vida continua.

Construíram essa confiança cedo. Agora, estamos a tentar reconstruí-la em adultos.

Sete forças mentais forjadas antes do Wi‑Fi

Se falar com psicólogos que estudam mudanças geracionais, vai ouvir as mesmas sete forças aparecerem, vezes sem conta. Não são superpoderes. São hábitos mentais, praticados tantas vezes que se tornaram invisíveis.

Primeiro, paciência emocional: não se tinha o que se queria imediatamente, por isso as emoções aprendiam a esperar. Segundo, tolerância ao tédio: viagens longas de carro, domingos lentos, nada a acontecer - e, mesmo assim, o cérebro aguentava.

Terceiro, resolução de problemas “em tempo real”. Perder-se, falhar chamadas, não encontrar um amigo no parque - improvisava-se. Tentava-se outra vez. Perguntava-se ao vizinho do lado. Essas pequenas improvisações treinavam uma mente que não entra em pânico ao primeiro obstáculo.

Quarto, coragem social. Queria brincar? Batia-se à porta. Queria falar? Usava-se a voz, não um ecrã. A rejeição doía, mas era cara a cara, e isso mudava a forma como se lia as pessoas.

Quinto, privacidade mental. Ninguém estava a documentar cada erro. Os momentos embaraçosos ficavam quase sempre num círculo pequeno, não nas redes sociais. Isso cria um tipo diferente de liberdade interior.

Sexto, resistência da atenção. Ler livros longos, ouvir álbuns inteiros, acompanhar as notícias na TV a uma hora fixa - a mente habituava-se a ficar com uma coisa de cada vez. E sétimo, um sentido de identidade ancorado: comparava-se menos com milhões de desconhecidos online e mais com o punhado de pessoas que realmente se conhecia.

Por vezes, os psicólogos chamam a esta mistura de traços “robustez”. Isso não significa que as pessoas dessa época sejam automaticamente mais felizes ou mais saudáveis. Existia trauma. As desigualdades eram reais. Mas a textura do quotidiano treinava certos “músculos” psicológicos que hoje estão subutilizados.

Quando tudo está disponível a pedido, não temos de esperar. Quando cada silêncio pode ser preenchido com scroll, não temos de ficar com os nossos pensamentos. Quando GPS, pais ou chats de grupo resolvem a logística instantaneamente, não temos essas milhares de micro-oportunidades de improvisar.

O resultado? Um sistema nervoso muito estimulado, mas mais frágil. Quem cresceu nos anos 60 e 70 sente muitas vezes o contrário: menos estimulado então, mas, de alguma forma, mais estável agora.

Como recuperar hoje essas forças “à moda antiga”

A boa notícia: estas sete forças não estão presas a uma geração. O cérebro mantém-se plástico durante muito mais tempo do que pensamos. É possível treinar paciência emocional aos 16, 36 ou 66 - mas tem de ser de propósito, porque o ambiente já não a impõe.

Comece muito pequeno. Escolha um ponto do seu dia em que costuma procurar alívio instantâneo: o telemóvel enquanto espera, streaming para preencher o silêncio, compras online para uma dose rápida de dopamina. Substitua dez desses minutos por nada. Só você, os seus pensamentos e essa ligeira comichão do tédio.

Essa comichão é exatamente o que quem cresceu nos anos 60 e 70 encontrava o tempo todo. Voltar a encontrá-la é uma forma de musculação mental.

Outro gesto: reintroduza inconveniências de baixo risco. Vá a pé a um sítio onde normalmente iria de carro. Deixe o telemóvel em casa numa pequena deslocação. Diga aos seus filhos, honestamente: “Volto às seis. Se correr mal e precisares mesmo de mim, pede primeiro ajuda a um vizinho.”

Isto não é romantizar o perigo nem a negligência. É dar ao sistema nervoso uma exposição suave e controlada à incerteza. Os psicólogos usam esse método para tratar ansiedade. A vida nos anos 60 e 70 fazia-o naturalmente; hoje temos de o fazer com intenção.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Está tudo bem. O que importa é notar o reflexo de evitar o desconforto e, ocasionalmente, com gentileza, recusar obedecer-lhe.

Um terapeuta disse-me: “As pessoas que cresceram com mais tempo sem supervisão tendem a confiar na própria capacidade de desenrascar. Não são necessariamente mais corajosas - simplesmente têm mais história a resolver coisas sozinhas.”

  • Experimente “horas analógicas” uma vez por semana
    Sem ecrãs, sem streaming, sem multitarefa. Leia, cozinhe, arranje alguma coisa, vá lá fora. Deixe o tédio bater à porta e veja o que responde.

  • Reaprenda conversas diretas
    Em vez de enviar mensagens a alguém com quem está chateado, peça para falar presencialmente ou ao telefone. Isto treina, de forma suave, a velha coragem social e ajuda a voltar a ler tom, silêncio e linguagem corporal.

  • Proteja uma bolha de privacidade
    Não publique tudo. Guarde algumas lutas e conquistas só para si ou para um círculo pequeno. É nesse espaço silencioso que cresce um sentido de identidade mais estável.

  • Pratique parentalidade “suficientemente boa” (ou auto‑parentalidade)
    Não tem de resolver cada frustração dos seus filhos - nem a sua. Sente-se ao lado do desconforto sem correr a apagá-lo.

  • Repare nos seus gatilhos de comparação
    Nos anos 60 e 70 não se comparava com milhões. Quando começa a espiral das redes sociais, afaste-se e reconecte-se com a sua vida real e física: a sua rua, o seu trabalho, o seu corpo.

A calma rara de quem cresceu em modo analógico

Fale com alguém que atingiu a maioridade antes da internet e vai sentir, muitas vezes, uma certa calma ancorada. Nem sempre. Nem em todas as áreas. Mas está lá - como uma espécie de calo interior formado ao longo de anos de pequenos arranhões e pequenas liberdades.

Todos conhecemos aquele momento em que olhamos para o relatório de tempo de ecrã e sentimos um horror silencioso ao perceber quanto do dia desapareceu no telemóvel. Quem cresceu nos anos 60 e 70 não travou essa batalha. A atenção era puxada em menos direções, o que deu uma base mais sólida à identidade.

Essa base pode ser reconstruída. Não fingindo que vivemos em 1973, mas pegando nos princípios de treino dessa época: mais lentidão, mais esforço, mais contacto direto com pessoas e problemas.

Alguns dos traços psicológicos mais fortes dessa geração vieram de coisas que, na altura, ninguém chamaria “saúde mental”. Estar aborrecido. Andar sozinho. Desenrascar-se com o que havia em casa. Perder-se e depois voltar a orientar-se.

Essas experiências ainda são possíveis. Só já não acontecem automaticamente. Agora temos de as escolher em vez de caminhos mais fáceis - e essa escolha parece estranha, quase rebelde. Mas, para muitos, é a camada em falta que torna a vida moderna menos frágil.

Talvez essa seja a verdadeira lição dos anos 60 e 70: a força mental não é um traço de personalidade que se tem ou não se tem. É o resultado lento de fricções diárias, de não sermos resgatados depressa demais, de confiar que a nossa mente aguenta mais do que pensamos.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A resiliência do quotidiano pode ser treinada Pequenas doses controladas de tédio, atraso e inconveniência imitam o que as crianças dos anos 60/70 viviam naturalmente Dá formas práticas de se sentir menos frágil e mais ancorado no dia a dia
Sete forças “à moda antiga” continuam acessíveis Paciência emocional, tolerância ao tédio, improvisação, coragem social, privacidade, resistência da atenção, autoimagem estável Ajuda os leitores a nomear e a reconstruir conscientemente traços de que podem sentir falta
O ambiente molda a mentalidade mais do que a força de vontade A vida digital remove muitas fricções que antes construíam robustez; por isso temos de as reintroduzir de propósito Reduz a culpa e oferece uma forma mais gentil e estrutural de abordar a força mental

FAQ:

  • Pergunta 1 O que dizem realmente os psicólogos sobre as pessoas criadas nos anos 60 e 70?
    Resposta 1
    Muitas vezes, notam maior tolerância à frustração, mais conforto com o tédio e competências sociais offline mais fortes, sobretudo em quem teve muito tempo sem supervisão e menos estimulação digital enquanto crescia.

  • Pergunta 2 Isso significa que as gerações mais novas são mais fracas?
    Resposta 2
    De modo nenhum. Os mais jovens tendem a ser mais conscientes emocionalmente, mais inclusivos e melhores a navegar identidades complexas. Simplesmente cresceram num ambiente que treinou “músculos” mentais diferentes.

  • Pergunta 3 Quem cresceu com smartphones ainda consegue desenvolver estas forças “à moda antiga”?
    Resposta 3
    Sim. O cérebro adapta-se ao longo de toda a vida. Ao adicionar intencionalmente pequenas doses de tédio, tempo offline e resolução de problemas no mundo real, é possível fortalecer os mesmos traços psicológicos.

  • Pergunta 4 Qual é um hábito simples para começar?
    Resposta 4
    Escolha um momento por dia em que normalmente faria scroll - na cama, no autocarro, numa sala de espera - e passe dez minutos sem ecrã. Só reparar nos seus pensamentos já está a treinar paciência e atenção.

  • Pergunta 5 Como podem os pais usar isto sem serem duros?
    Resposta 5
    Ofereça segurança e amor, mas não se apresse a apagar cada desconforto. Deixe as crianças esperar às vezes, resolver pequenos problemas, bater à porta de vizinhos e aborrecer-se. Esteja emocionalmente por perto, não a intervir constantemente na prática.

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