O vento é o primeiro a bater. Uma lufada quente e granulosa varre o norte da China, entra por baixo das portas, pica os olhos, deixando uma película fina de areia em tudo - desde os ecrãs dos telemóveis até ao interior das chávenas de chá. Na orla do Deserto de Gobi, filas de choupos jovens erguem-se em linhas rígidas, como soldados de uniforme verde-pálido, os troncos embrulhados em plástico para os manter vivos só mais um pouco. Os habitantes locais chamam a isto a “muralha verde”. O governo chama-lhe um dos maiores projetos ambientais do mundo. Vista do espaço, parece um triunfo: uma linha de árvores feita pelo homem a empurrar para trás a maré amarela da areia. No terreno, a sensação é mais complicada. Algumas árvores estão mortas, outras a morrer. Os poços ficam mais fundos todos os anos. O deserto não parece derrotado. Parece paciente.
O sonho de mil milhões de árvores que mudou o horizonte da China
Se sair de carro de Pequim numa manhã poeirenta de primavera, vê-a a aparecer lentamente para lá do nevoeiro: faixas de árvores cosidas através da estepe, transformando planícies nuas num mosaico verde. Esta é a Grande Muralha Verde da China, um programa colossal lançado no final da década de 1970 e acelerado desde os anos 1990. O objetivo soa quase heroico - plantar milhares de milhões de árvores, travar o deserto, salvar as cidades de tempestades de areia sufocantes. Nos vídeos oficiais, drones deslizam sobre florestas vastas e agricultores sorridentes. À distância, parece um milagre de força de vontade e planeamento. De perto, algumas partes parecem mais uma miragem.
Nos anos 2000, Pequim viveu os famosos “dias de céu amarelo”, quando as tempestades de areia vindas do Gobi tingiam o ar de laranja e faziam disparar os índices de poluição. O pânico era real. O Estado investiu então dinheiro numa escala de plantação que o mundo raramente vê: dados de satélite sugerem que, desde os anos 1990, mais de mil milhões de árvores foram plantadas no norte da China. Condados inteiros foram pagos para converter terras agrícolas em floresta. Crianças em idade escolar cavavam para plantar rebentos todas as primaveras. Canais locais de televisão faziam competições para a “aldeia mais verde”. No papel, os resultados acumularam-se depressa. Relatórios oficiais vangloriavam-se de coberturas florestais em algumas regiões a saltarem de valores de um dígito para mais de 20% em poucas décadas.
Ecólogos que percorreram estas novas florestas começaram a notar uma história mais silenciosa. Em muitas áreas, espécies de crescimento rápido - como choupos e salgueiros - foram plantadas em grelhas apertadas e certinhas, independentemente do solo local, da pluviosidade ou do uso tradicional da terra. As taxas de sobrevivência podiam ser dolorosamente baixas. Alguns especialistas estimam que, nas faixas mais secas, apenas uma fração das árvores vive mais do que alguns anos. O projeto continua a contá-las como “floresta”, porque foram plantadas e cartografadas. É uma das razões pelas quais críticos chamam a partes deste vasto cinturão verde uma ilusão ecológica. De cima, são píxeis verdes. No chão, pode ser quebradiço, sedento e frágil.
O custo escondido: água, monoculturas e verdades inconvenientes
Fale com agricultores em Ningxia ou na Mongólia Interior e ouve-se o outro lado da história. Árvores que crescem depressa precisam de água, e a água no norte da China já é escassa. Em aldeias onde faixas de choupos agora cruzam campos antigos, poços que antes apanhavam água subterrânea a 10 ou 15 metros agora chegam aos 30 ou mais. Alguns agricultores queixam-se discretamente de que as colheitas de milho-miúdo (painço) ou milho diminuíram à medida que o solo secou e as raízes competiram pela humidade. Plantar árvores numa zona semiárida não é apenas um gesto simpático: é uma aposta na hidratação. Cada rebento é uma palhinha espetada num aquífero que já está a encolher.
Uma cena clássica repete-se por toda a região. Na primavera, chegam funcionários com camiões cheios de rebentos idênticos. A espécie é escolhida não pela resiliência local, mas porque cresce depressa, fica verde nas imagens de satélite e cumpre orientações nacionais. Trabalhadores e aldeões passam dias a plantar em linhas direitas, a espaçar árvores a distâncias de manual, a posar para fotografias com pás. Depois voltam para casa. Chega o verão, as chuvas não vêm, e as árvores lutam. As que sobrevivem podem formar faixas monótonas do mesmo tipo de árvore. Monoculturas assim são vulneráveis a pragas, doenças e extremos climáticos. Um surto, um ano de seca severa, e riscas inteiras da “floresta” ficam castanhas de uma vez.
Cientistas defendem que este modelo falhou em atacar os motores mais profundos da degradação do solo no norte da China. O sobrepastoreio, a rega voraz em água e a agricultura mal gerida fizeram muito mais para empurrar a terra em direção ao deserto do que a simples falta de árvores. Não se resolve um uso sistémico e abusivo do solo e da água apenas a plantar. Quando o foco é contar troncos, corre-se o risco de ignorar as correções mais difíceis: mudar regras de pastoreio, reduzir a extração de água subterrânea, repensar que culturas fazem sentido em zonas áridas. Críticos dizem que a muralha verde por vezes funciona como uma cortina de folhas, escondendo o facto desconfortável de que pessoas, políticas e economia são os verdadeiros motores por trás do avanço da areia.
De plantar árvores a reconstruir ecossistemas
Uma lição que emerge da experiência chinesa de décadas é enganadoramente simples: plantar menos árvores, mas plantar as certas, no sítio certo, pela razão certa. Em algumas províncias, governos locais afastaram-se discretamente de faixas rígidas de monocultura e começaram a misturar arbustos, gramíneas nativas e árvores tolerantes à seca. Arbustos como o espinheiro-marítimo e espécies nativas da estepe podem fixar o solo e captar humidade sem secar um rio. Não ficam tão dramáticos nas imagens de satélite como os choupos altos, mas muitas vezes funcionam melhor como armadura viva contra a erosão. Os projetos mais promissores começam agora por mapear solos, padrões de vento e vegetação histórica, em vez de apenas encomendar mais rebentos.
Há também um impulso crescente na China para passar de “campanhas de plantação de árvores” para uma gestão de longo prazo da terra. Isso soa nobre no papel, mas esbarra em hábitos e pressões muito humanas. Os habitantes locais ainda recebem incentivos de curto prazo para plantar, nem sempre para cuidar. Os jovens deixam as aldeias para trabalhar nas cidades. Não é fácil impedir o gado de entrar em plântulas tenras quando a terra de pasto já é limitada. Todos conhecemos esse momento em que uma vitória rápida parece mais atraente do que uma reparação lenta que exige vigiar, esperar e, por vezes, dizer não a rotinas antigas. Sejamos honestos: quase ninguém patrulha todos os quebra-ventos, todos os dias, quando as câmaras de televisão vão embora.
Especialistas de nova geração, dentro e fora da China, insistem numa abordagem mais humilde, centrada primeiro no solo. Um ecólogo com base em Pequim disse-o de forma crua:
“As árvores não são um papel de parede que se desenrola sobre o deserto. Se o solo está doente, a floresta estará doente. Se a água acabar, a floresta vai-se embora também.”
Defendem que a “muralha verde” só se torna real quando se comporta como um ecossistema, não como uma plantação. Isso significa proteger crostas de líquenes e musgos resistentes, restaurar zonas húmidas quando possível e devolver espaço às gramíneas nativas que, muito antes das campanhas massivas de plantação, já fixavam a estepe. Também significa enfrentar escolhas difíceis:
- Escolher espécies nativas, mais lentas, em vez de importações rápidas e sedentas
- Permitir pastoreio controlado em vez de proibir pastores de um dia para o outro
- Aceitar paisagens irregulares e “desalinhadas” em vez de faixas verdes perfeitas para fotografia
- Investir em agricultura poupadora de água em vez de poços cada vez mais fundos
- Medir saúde do solo e biodiversidade, não apenas a contagem de árvores
O que a “muralha verde” da China realmente diz sobre nós
Pare numa aldeia poeirenta onde o deserto começa e sente a contradição nos pulmões. As árvores mudam, de facto, alguma coisa. Dão sombra, cortam o vento, oferecem uma sensação de esforço contra uma força quase cósmica. Para quem se lembra das tempestades de areia estrondosas dos anos 1980 e 1990, qualquer verde é melhor do que dunas nuas a marcharem em direção às portas. Ao mesmo tempo, vêem-se as fendas: troncos mortos inclinados como ossos brancos, valas de rega secas, crianças a caminhar mais para chegar a um poço que funcione. O projeto não é uma história simples de sucesso nem um fracasso arrumado. É uma experiência viva e imperfeita escrita ao longo de meio continente.
O que acontece na China ecoa muito para lá das suas fronteiras. Da iniciativa africana da Grande Muralha Verde a campanhas massivas de plantação promovidas por bilionários da tecnologia, o mundo adora a ideia de combater as alterações climáticas e a desertificação com florestas. É visual, mensurável, inspirador. Mas a experiência chinesa deixa um aviso discreto: se o “verde” se tornar um número numa folha de cálculo, se as raízes não combinarem com a chuva, se as pessoas locais não forem tratadas como guardiãs de confiança mas como estatísticas, a ilusão acabará por rachar. A verdadeira resiliência é confusa, local e mais lenta do que os nossos ciclos de relações públicas. As árvores podem ser heroínas - mas apenas dentro de uma história que respeite solo, água, cultura e tempo. O deserto não é só areia. É também cada atalho que escolhemos no caminho até lá.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Plantar milhares de milhões de árvores pode esconder problemas mais profundos | A Grande Muralha Verde da China aumentou a cobertura arbórea, mas muitas vezes ignorou sobrepastoreio, rega e mau uso do solo | Ajuda-o a olhar para além de grandes números “verdes” e a perguntar o que está realmente a mudar no terreno |
| Florestas de monocultura são frágeis e sedentas | Choupos de crescimento rápido e espécies semelhantes drenam lençóis freáticos e falham facilmente em seca ou doença | Mostra porque a diversidade, as espécies nativas e a realidade hídrica importam mais do que ganhos visuais rápidos |
| Restaurar ecossistemas supera a simples plantação de árvores | Misturar arbustos, gramíneas, árvores nativas e novas práticas de uso da terra cria proteção duradoura contra a desertificação | Oferece um plano mais realista para qualquer comunidade ou país que planeie a sua própria “muralha verde” |
FAQ:
- Pergunta 1 A Grande Muralha Verde da China é considerada um sucesso ou um fracasso?
- Pergunta 2 Quantas árvores a China plantou realmente contra a desertificação?
- Pergunta 3 Porque é que alguns cientistas chamam ao projeto uma “ilusão ecológica”?
- Pergunta 4 Quais são os principais riscos ambientais da plantação de árvores em grande escala em áreas secas?
- Pergunta 5 Que lições da experiência chinesa podem outros países usar nas suas próprias muralhas verdes?
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