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Segundo observadores de aves, há um fruto de inverno que faz os pisco-de-peito-ruivo voltarem sempre ao seu jardim.

Mãos seguram cerejas frescas com gotículas, cesta desfocada ao fundo num campo ao ar livre.

A primeira vez que vi isso acontecer foi numa manhã gelada de janeiro. O relvado estava rijo com geada, o bebedouro dos pássaros era um prato raso de gelo e, honestamente, o jardim inteiro parecia ter desistido. Depois, um lampejo de castanho-avermelhado e cinzento atravessou o ar e pousou num ramo vergado por bagas vermelhas profundas. Um pisco-de-peito-ruivo. Peito empolado, olhos brilhantes, completamente indiferente ao frio.

Fiquei à janela com a caneca a arrefecer, a vê-lo saltitar de cacho em cacho, escolhendo com cuidado o fruto mais maduro. Dez minutos, depois quinze. O pássaro foi-se embora. Umas horas mais tarde, voltou. Mesmo ramo. Mesmas bagas.

É aí que jardineiros e observadores de aves começam a sussurrar a mesma coisa: plante a árvore com essas bagas e os seus piscos raramente deixam de visitar.

O fruto de inverno por que os piscos atravessam um jardim gelado

Pergunte a observadores de aves britânicos que planta mantém os piscos a voltar durante o inverno e há um nome que surge uma e outra vez: macieira-brava (crabapple). Não as maçãs grandes e lustrosas do supermercado, mas aqueles frutos pequenos, como joias, que se agarram aos ramos nus muito depois de as folhas caírem.

Num dia cinzento de dezembro, uma macieira-brava pode parecer que alguém pendurou pequenas lanternas no jardim. Para um pisco, essas lanternas são comida, água e sobrevivência num só bocado. Os frutos amolecem após as primeiras geadas, passando de enfeites duros e decorativos para algo que um pássaro faminto consegue perfurar com o bico.

Quando quase tudo o resto murchou ou foi comido, as maçãs-bravas ainda lá estão. À espera.

Passe uma hora com binóculos perto de uma macieira-brava carregada no fim do inverno e verá o padrão. Um rebuliço de melros e tordos, uma visita tímida de um tordo-das-árvores (fieldfare) se tiver sorte, e depois aquela silhueta familiar e atrevida: o pisco. Muitas vezes espera primeiro num poste ou numa treliça próxima, a avaliar a cena, antes de entrar num ápice para uma dentada rápida.

Os observadores de aves descrevem a mesma coisa nos seus cadernos. Em dias em que os comedouros ficam estranhamente silenciosos, a macieira-brava está em plena atividade. Uma reformada no Kent contou-me que mal viu os seus piscos em novembro. Depois, os frutos amoleceram a meio de dezembro e, de repente, “foi como abrir uma torneira de peitos vermelhos”. Vinham todos os dias até ao início de março.

O fruto torna-se uma rotina de inverno, quase como um horário pelo qual se pode acertar o relógio - ou pôr a chaleira ao lume.

Há uma lógica simples por trás desta obsessão. Os piscos são, por natureza, insetívoros, a remexer na folhada e nos canteiros quando o chão não está gelado. À medida que a temperatura desce, esses insetos desaparecem ou enterram-se mais fundo. O pisco tem de mudar para outras fontes de alimento: sementes, gordura e fruta.

As maçãs-bravas são perfeitas porque ficam penduradas alto, acima da neve e do gelo, e mantêm-se comestíveis durante meses. Os açúcares concentram-se à medida que envelhecem, por isso o fruto fica mais denso em energia precisamente quando o pisco mais precisa. Isso não é romantismo; é matemática de sobrevivência.

Uma pequena árvore pode, em silêncio, tornar-se o coração pulsante de todo um território de inverno.

Como transformar uma macieira-brava num íman para piscos

Comece pela variedade. Observadores de aves e jardineiros de vida selvagem recomendam frequentemente cultivares de fruto pequeno como ‘Golden Hornet’, ‘Red Sentinel’ ou ‘Evereste’. Esses frutos do tamanho de berlindes são mais fáceis de manusear pelos piscos do que macieiras-bravas ornamentais de fruto grande, que se abrem demasiado cedo ou caem todas de uma vez.

Plante a macieira-brava num sítio que consiga ver a partir de casa. Perto de uma janela, junto ao pátio ou no fim de um canteiro. Não está apenas a alimentar piscos; está a dar a si próprio um lugar na primeira fila. A árvore não precisa de ser enorme. Uma macieira-brava ornamental modesta num jardim pequeno ainda produz fruto suficiente para as aves visitarem todos os dias.

Dê-lhe um solo decente, alguma cobertura morta e um balde de água no primeiro verão e, depois, deixe-a, na maior parte do tempo, seguir com a vida.

É aqui que muitos de nós escorregamos. Arrumamos demais. O fruto caído é varrido, rastelado ou posto no lixo no minuto em que toca no chão. A árvore é podada com força por “arrumação”, retirando a maior parte da madeira que iria florir no ano seguinte. Aves como o pisco perdem tanto o abrigo como os petiscos.

Todos já estivemos lá: aquele momento em que percebe, de repente, que o seu jardim “perfeito” fica ótimo no Instagram, mas não deixa nada para a vida selvagem. A solução não exige abandono total. Só uma abordagem mais suave. Deixe algum fruto na relva. Pode de forma ligeira e não todos os anos. Deixe ficar alguns ramos mais enredados, sobretudo onde os piscos gostam de pousar e cantar.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, religiosamente. Mas aliviar um pouco o controlo costuma ser suficiente.

Os grupos de observação de aves falam muitas vezes das macieiras-bravas com um tipo de carinho normalmente reservado a animais de estimação ou a pubs favoritos. Um observador veterano em Yorkshire disse-me:

“Quando as maçãs-bravas amolecem, dá quase para acertar o relógio pelo pisco. Oito e um quarto, lá está ele no mesmo ramo, todas as manhãs, como se estivesse a picar o ponto.”

Também partilham as mesmas dicas práticas, passadas de mão em mão em salões comunitários e em grupos de Facebook, quase como um cartão de receita:

  • Escolha uma cultivar de macieira-brava de fruto pequeno que mantenha o fruto até ao fim do inverno.
  • Plante onde os piscos tenham cobertura por perto: sebes, arbustos ou uma vedação com trepadeiras.
  • Combine a árvore com um bebedouro para aves ou um prato raso com água fresca ali ao lado.
  • Deixe algum fruto caído no chão durante os meses mais frios.
  • Pode apenas de forma ligeira para a árvore manter muitos esporões frutíferos.

Porque é que uma pequena árvore muda a forma como o inverno se sente

Algo muda quando planta a pensar nas aves e não apenas nos canteiros e nas paletas de cor. O inverno deixa de ser uma estação morta e vazia e passa a ser uma história lenta, diária, que acompanha da janela da cozinha. Num dia de geada repara nas primeiras bicadas nas maçãs-bravas. Uma semana depois há uma hierarquia: o melro entra primeiro, o pisco entra de lado num golpe rápido, uma carriça fica por baixo à espreita de migalhas.

A árvore é a mesma, o jardim é o mesmo, mas a sua relação com ele já não é. De repente, uma manhã cinzenta ganha uma personagem. Há aquele pisco que começa a reconhecer pelo poleiro preferido ou por uma cauda um pouco mais desgrenhada. Dá por si a adiar uma chamada só para o ver mais um minuto.

Pessoas que juravam que não eram “pessoas de aves” acabam a mandar mensagens a amigos: “Ele voltou. Mesmo ramo, mesmo fruto.” A macieira-brava deixa de ser apenas uma planta e torna-se um ponto de encontro, um lugar onde você e um pássaro pequeno e teimoso concordam em partilhar os piores meses do ano.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
As maçãs-bravas alimentam os piscos quando os insetos desaparecem Os frutos amolecem após a geada e ficam pendurados acima da neve e do gelo Dá-lhe visitas fiáveis de piscos durante as semanas mais frias
As variedades de fruto pequeno funcionam melhor Cultivares como ‘Red Sentinel’ e ‘Evereste’ mantêm muitas bagas minúsculas Facilita a alimentação dos piscos e mantém o fruto por mais tempo durante o inverno
Jardinagem mais suave e menos “perfeita” ajuda Poda ligeira e deixar algum fruto caído apoia o comportamento natural Pequenas mudanças que aumentam a vida selvagem sem redesenhar o jardim inteiro

FAQ:

  • Os piscos comem as maçãs-bravas diretamente da árvore ou só o fruto caído? Ambos. Muitas vezes começam pelos frutos mais macios ainda pendurados à altura do olhar e depois passam para as maçãs-bravas caídas em dias mais amenos.
  • Posso cultivar uma macieira-brava num jardim pequeno ou num vaso? Sim. Variedades anãs e compactas podem ser cultivadas em vasos grandes ou como pequenas árvores de destaque, desde que tenham sol e rega regular.
  • As maçãs-bravas continuam a atrair piscos se eu já usar comedouros de sementes? Sem dúvida. A árvore acrescenta uma fonte natural de alimento e abrigo, dando aos piscos mais razões para ficarem no seu jardim durante todo o inverno.
  • Preciso de mais do que uma macieira-brava? Uma árvore bem escolhida costuma ser suficiente para um jardim pequeno. Várias árvores podem aumentar a oferta de fruto ao longo da estação, mas não é essencial.
  • As maçãs-bravas são seguras para animais de estimação e crianças? Os frutos são, em geral, seguros em pequenas quantidades e são muitas vezes usados para geleia, embora as sementes contenham pequenas quantidades de compostos cianogénicos, como os caroços das maçãs comuns, pelo que não devem ser consumidas em grandes quantidades.

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