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Se sente que não é compreendido emocionalmente, a psicologia explica como a perceção influencia isso.

Homem sentado à mesa, segurando telemóvel, com a mão no peito; mulher em segundo plano desfocada.

Estás sentado(a) em frente a alguém de quem gostas, a tentar pôr em palavras reais aquilo que sentes.
A meio da frase, vês logo: o ligeiro revirar de olhos, o “estás a exagerar” apressado, o sorriso que diz “estás a ser dramático(a)”.
O peito aperta. O cérebro começa a reescrever a cena: “Se calhar sou demasiado sensível. Se calhar mais vale calar-me.”

A conversa continua, mas tu já não estás verdadeiramente nela.
Mudaste para um modo silencioso de sobrevivência: acenar, editar, encolher.

Por trás desse instante pequeno, está a acontecer algo mais profundo na mente.
A perceção está, discretamente, a conduzir tudo.

Quando as tuas emoções parecem invisíveis

Há um tipo particular de solidão que aparece quando falas sobre o que sentes e vais embora a pensar: “Não me perceberam mesmo nada.”
Por fora, não aconteceu nada de dramático. Não houve grande discussão, nem portas a bater. Por dentro, parece que abriste uma porta e a outra pessoa ficou no corredor, a olhar, sem entrar.

A psicologia chama a esta distância um problema de perceção.
Não só a perceção que a outra pessoa tem de ti, mas também a tua perceção dela… e de ti próprio(a).
A cena parece simples, mas já há vários filtros invisíveis a funcionar.

Imagina a Emma, 32 anos, a dizer ao parceiro: “Fiquei magoada quando cancelaste o jantar com os meus pais.”
Ele ouve: “És um mau companheiro.”
Ela queria dizer: “Precisava de ti lá, senti-me pouco importante.”

Ele defende-se, listando razões: dia longo, dor de cabeça, stress.
Ela sente-se ainda menos compreendida, porque a parte emocional da mensagem se perdeu debaixo das explicações.

Mais tarde, ela diz a uma amiga: “Ele não quer saber dos meus sentimentos.”
Do lado dele, ele está a pensar: “Não faço nada bem, eu tentei explicar.”
Duas histórias paralelas, ambas sinceras, ambas incompletas.

Os psicólogos falam aqui de “atribuição”: a forma como explicamos o que os outros fazem.
Tendemos a ligar as nossas próprias ações ao contexto (“Eu estava cansado(a)”) e as ações dos outros à personalidade (“Ele é egoísta”).
Por isso, quando alguém não reage como esperávamos, saltamos rapidamente para “Não se importam” em vez de “Talvez estejam a ver isto de forma completamente diferente.”

Isto não significa que a tua dor seja imaginada.
Significa que o mal-entendido, muitas vezes, nasce menos de más intenções e mais de interpretações emaranhadas.
A perceção molda a história muito antes das palavras.

Como abrandar a tua perceção antes que ela te magoe

Um método concreto usado em terapia chama-se “verificar a história”.
Da próxima vez que te sentires emocionalmente desvalorizado(a), pára e pergunta em silêncio a ti próprio(a): “O que é que eu estou a dizer a mim mesmo(a) que isto significa?”
Escreve como se fosse um título: “Ela não respondeu à mensagem porque…” e termina a frase.

Depois escreve pelo menos dois outros títulos possíveis.
Não “afirmações bonitas”. Apenas interpretações diferentes e plausíveis.
Este exercício pequeno alarga a tua perceção: de uma única lente dolorosa para um panorama emocional mais amplo.

Uma armadilha comum é reagir à tua própria interpretação como se fosse um facto estabelecido.
Um(a) amigo(a) esquece-se de te ligar no teu aniversário e a voz interior grita: “Eu não sou importante para eles.”
Então retrais-te um pouco, respondes de forma mais seca, deixas de partilhar tanto.

O(a) amigo(a), ao notar a distância, pensa: “Uau, ele(a) mudou,” e pode afastar-se também.
De repente, estão ambos a proteger-se de uma história que ninguém verificou claramente em voz alta.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
Mas nas poucas vezes em que fazes, o ambiente da relação pode mudar por completo.

Às vezes, a coisa mais corajosa que podes dizer numa conversa não é “Tu magoaste-me”, mas “Esta é a história que o meu cérebro está a contar sobre o que fizeste… alguma coisa disto é verdade?”

  • Pausa simples antes de reagir
    Respira três vezes devagar e dá um nome à tua emoção na cabeça: “triste”, “envergonhado(a)”, “invisível”. Isto impede o teu cérebro de saltar diretamente para o ataque ou para o fecho total.
  • Pergunta curiosa
    Pergunta à outra pessoa: “Quando disseste/fizeste isso, o que é que te estava a passar pela cabeça?” Depois ouve sem preparares o contra-argumento.
  • Assume a tua perceção
    Usa frases como “Estou a notar que estou a interpretar isto como…” em vez de “Tu fizeste-me sentir…”. Isto mantém a porta aberta, em vez de a fechar com culpa.

Viver com o facto de que ninguém sente exatamente o que tu sentes

Há aqui uma realidade um pouco brutal, mas libertadora: ninguém alguma vez vai sentir a tua experiência por dentro, da forma como tu a sentes.
Isso não é um fracasso do amor; é apenas a forma como funcionam sistemas nervosos separados.
O verdadeiro objetivo não é “ser perfeitamente compreendido(a)”, é “sentir-me seguro(a) o suficiente para continuar a clarificar.”

Quando deixas de esperar pela pessoa mítica que “vai perceber sem eu explicar”, a pressão baixa.
Podes começar a tratar a compreensão como um projeto partilhado, em vez de um teste que as pessoas ou passam ou falham.
Alguns dias, esse projeto vai parecer desajeitado. Noutros, vai ser um alívio puro.

Nessas trocas comuns, ligeiramente confusas, em que dizes: “Não, não é bem isso, deixa-me tentar outra vez,” a perceção deixa de ser uma prisão e passa a ser uma ponte.
E, de forma estranha, podes perceber que sentir-te plenamente compreendido(a) começa com a coragem de compreender melhor a tua própria lente primeiro.

Ponto-chave Detalhe Valor para o(a) leitor(a)
A perceção filtra a emoção Interpretamos comportamentos através das nossas próprias histórias, não através de factos puros Ajuda-te a questionar “Não se importam” antes de isso endurecer em certeza
Método “verificar a história” Escrever a primeira interpretação dolorosa e depois criar alternativas Dá distância emocional imediata e opções em momentos tensos
Projeto partilhado de compreensão Ver conversas como exploração conjunta, não como teste de passar/falhar Reduz ressentimento e convida a diálogos mais calmos e honestos

FAQ:

  • Porque é que me sinto incompreendido(a) até por pessoas que me amam?
    Porque o amor não apaga os filtros de perceção. As pessoas veem-te através da sua história, crenças e gatilhos emocionais, tal como tu as vês através dos teus.
  • Sentir-me incompreendido(a) é sinal de que a minha relação é tóxica?
    Não necessariamente. Torna-se preocupante quando és consistentemente desvalorizado(a), gozado(a) ou “punido(a)” por expressares emoções, em vez de seres gentilmente questionado(a) ou acolhido(a).
  • Como posso expressar sentimentos sem parecer “demasiado sensível”?
    Foca-te em descrever a tua experiência interna, não os defeitos do outro: “Quando isto acontece, eu sinto…” e aquilo a que te faz lembrar, em vez de “Tu fazes sempre…” ou “Tu nunca…”.
  • E se a outra pessoa se recusar a ver a minha perspetiva?
    Não podes forçar abertura. Podes dizer com calma o que sentes, o que precisas e quais são os teus limites. A recusa repetida em dialogar é informação sobre a relação.
  • A terapia pode mesmo ajudar com a sensação de ser incompreendido(a)?
    Sim. Um(a) bom(boa) terapeuta ajuda-te a decifrar as tuas próprias perceções, a rastrear de onde vêm os padrões e a praticar novas formas de falar que convidam à compreensão em vez de a bloquearem.

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