As as tensões com Moscovo se intensificam e a guerra alastra mesmo ao lado, na Ucrânia, a Moldávia debate abertamente algo impensável há poucos anos: abandonar a sua frágil independência e reunificar-se com a vizinha Roménia.
Um país dividido entre Moscovo e Bruxelas
O mapa da Moldávia parece simples, mas a sua história está longe de o ser. O território foi deslocado, dividido e renomeado ao longo dos últimos dois séculos. Partes do que é hoje a Moldávia estiveram, após 1918, integradas no reino da Roménia como Bessarábia.
Esse capítulo terminou de forma brutal em 1940 com o Pacto Molotov–Ribbentrop. A União Soviética anexou a região e transformou-a na República Socialista Soviética Moldava. A partir daí, Moscovo tentou apagar todos os vestígios que ligavam os moldavos à Roménia.
As autoridades mudaram o alfabeto do latino para o cirílico. A fronteira ao longo do rio Prut foi hermeticamente selada. Intelectuais de língua romena foram deportados para a Sibéria. Colonos russos e ucranianos foram incentivados a instalar-se na república para diluir a maioria local. Vários historiadores falam hoje de um deliberado “genocídio cultural”.
Quando a URSS colapsou em 1991, a Moldávia recuperou a sua soberania, mas não um rumo claro. Desde então, tem estado numa posição desconfortável entre dois centros de gravidade: uma Rússia cada vez mais assertiva e uma União Europeia que já acolheu a Roménia e grande parte da Europa de Leste.
A Moldávia é uma das últimas zonas cinzentas do continente, onde tropas russas, ambições da UE e uma democracia frágil colidem.
Soldados russos continuam em solo moldavo - cerca de 1.500 - estacionados na região separatista da Transnístria, ao longo da orla oriental do país. Chisinau e as capitais ocidentais consideram essa presença ilegal. Para o Kremlin, trata-se de um ponto de apoio estratégico a apenas algumas centenas de quilómetros da cidade portuária ucraniana de Odesa.
Interferência russa e um ponto de viragem político
O debate sobre o futuro da Moldávia acentuou-se nos últimos meses, à medida que serviços de informações e autoridades locais acusavam Moscovo de orquestrar operações de influência antes das eleições legislativas de 2025.
Cerca de 350 milhões de euros - aproximadamente 2% do PIB da Moldávia - terão sido mobilizados por redes russas para influenciar o jogo político, financiar partidos pró-russos e disseminar desinformação. Para um país pequeno e pobre, esse montante é enorme.
Neste contexto, a Presidente moldava Maia Sandu assumiu deliberadamente uma agenda pró-europeia e anticorrupção. Considera que a segurança do seu país é inseparável do seu alinhamento com o Ocidente.
A união com a Roménia passa de tabu a tema de conversa
No final de janeiro, durante uma visita à Polónia, Sandu foi confrontada com uma pergunta que ainda deixa muitos moldavos desconfortáveis: se houvesse um referendo sobre a reunificação com a Roménia, como votaria?
Não hesitou. Disse que votaria “sim”.
Pela primeira vez em anos, uma presidente moldava em funções apoiou abertamente a ideia de unir-se à Roménia, ainda que apenas como posição pessoal.
A elite política romena reagiu rapidamente. O primeiro-ministro romeno Ilie Bolojan ecoou publicamente a posição de Sandu, afirmando que também apoiaria um referendo desse tipo do lado romeno. Enquadrou a reunificação como um desfecho “lógico” para a Moldávia, sobretudo desde que o país apresentou candidatura à adesão à UE em 2022.
Para Bolojan, as palavras de Sandu apenas confirmam uma orientação de longo prazo: o caminho da Moldávia para a segurança e a prosperidade passa por uma integração mais estreita com a Roménia e, por extensão, com a União Europeia.
O que a reunificação significaria na prática
Reunificar a Moldávia com a Roménia alteraria o mapa europeu e criaria um Estado com quase 23 milhões de habitantes, estendendo-se dos Cárpatos ao rio Dniestre.
- A Moldávia passaria instantaneamente a fazer parte da UE e da NATO através da Roménia.
- O contingente militar russo na Transnístria ver-se-ia perante uma fronteira da NATO.
- Regras económicas, moeda e legislação seriam alinhadas com os padrões romenos e da UE.
Uma tal decisão levantaria também questões difíceis: o estatuto legal da Transnístria, o futuro das minorias russófonas e o custo de integrar uma região mais pobre na economia romena.
Adesão à União Europeia: o escudo mais realista
Apesar do renovado debate sobre união política, a prioridade declarada de Sandu mantém-se clara: a adesão à UE. Descreve repetidamente a União como a melhor garantia de segurança, democracia e liberdade para os cidadãos moldavos.
Para Bruxelas, o caso da Moldávia é simultaneamente urgente e complexo. O país fez progressos nas reformas, mas continua a debater-se com corrupção, instituições fracas e interesses oligárquicos poderosos. Não foi indicada nenhuma data específica para uma eventual adesão, mas as negociações e a avaliação técnica estão em curso.
Na Moldávia, aderir à UE é muito mais popular do que fundir-se com a Roménia, sobretudo entre as gerações mais jovens.
Sondagens recentes sugerem que cerca de um terço dos moldavos apoiaria a reunificação com a Roménia. A maioria ou se opõe ou permanece indecisa. Décadas de narrativas soviéticas e russas continuam a moldar as opiniões dos eleitores mais velhos, que receiam perder a sua identidade distinta (como a percecionam) ou provocar o Kremlin.
A adesão à UE, pelo contrário, reúne apoio de cerca de 60% da população. Na Roménia, a opinião inverte-se: mais de metade dos inquiridos, cerca de 56%, diz que acolheria uma futura união com a Moldávia.
Uma perda estratégica para Moscovo, em qualquer caso
Quer a Moldávia opte apenas pela integração europeia, quer por uma união plena com a Roménia, a influência russa diminuiria. Uma ancoragem ocidental bem-sucedida da Moldávia aumentaria a pressão sobre Moscovo para, eventualmente, retirar as suas tropas da Transnístria.
A perda desse posto avançado privaria o Kremlin de uma base avançada na ala oriental da NATO e da UE e complicaria quaisquer planos para ameaçar Odesa a partir do oeste. Para estrategas russos habituados a ver a Moldávia como parte do “estrangeiro próximo”, isto representaria um sério revés geopolítico.
Como uma fusão poderia acontecer
Políticos de ambos os lados insistem que nada acontecerá sem consentimento popular. Qualquer fusão provavelmente exigiria:
- Um referendo na Moldávia
- Uma votação paralela ou aprovação parlamentar na Roménia
- Consulta com parceiros da UE e membros da NATO
- Uma solução negociada, ou pelo menos um enquadramento, relativamente à Transnístria
Alguns analistas imaginam um cenário intermédio: a Moldávia acelera as conversações com a UE, aprofunda a cooperação com a Roménia em infraestruturas, educação e defesa, e só considera uma união política plena se a Rússia intensificar ainda mais as tensões ou ameaçar diretamente o território moldavo.
Conceitos-chave por detrás do debate
| Termo | Significado no contexto moldavo |
|---|---|
| Transnístria | Faixa separatista ao longo da fronteira oriental, controlada por uma administração pró-russa e com presença de tropas russas. |
| Unionismo | Corrente política que apoia a reunificação da Moldávia com a Roménia, com base numa língua, história e cultura partilhadas. |
| Tampão geopolítico | Estado situado entre potências rivais, usado como espaço interposto ou escudo. A Moldávia tem funcionado assim entre a Rússia e a UE. |
Para os moldavos, estes termos abstratos traduzem-se em preocupações diárias: pensões, contas de energia, direitos linguísticos e o receio de a guerra se alastrar a partir da Ucrânia. Uma fusão com a Roménia poderia trazer mais rapidamente salários ao nível da UE para alguns, mas também uma transição turbulenta para outros, sobretudo para quem está ligado ao espaço mediático russofalante.
Cenários para a próxima década
Vários caminhos realistas estão a ser discutidos em think tanks por toda a Europa. Um cenário prevê que a Moldávia adira à UE por etapas, alinhando as suas leis e mercados enquanto mantém a sua estatalidade intacta. Outro, mais dramático, envolve uma crise futura em que a Rússia tenta desestabilizar o país, levando Chisinau a procurar uma união rápida com a Roménia como guarda-chuva de segurança.
Um terceiro cenário, menos visível, é o prolongamento da ambiguidade: progressos lentos com a UE, interferência russa contínua e uma sociedade moldava cada vez mais polarizada entre campos pró-ocidentais e pró-russos. Esse caminho comporta riscos evidentes de agitação interna e reformas congeladas.
A escolha que a Moldávia enfrenta não é apenas sobre mapas e bandeiras, mas sobre qual conjunto de riscos o seu povo está disposto a aceitar.
Por agora, a ideia de que dois Estados europeus possam fundir-se em resposta à pressão russa já não é pura fantasia. Tornou-se parte de uma conversa estratégica muito real que está a moldar o futuro da Europa de Leste.
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