O café estava demasiado silencioso para o gosto da Lena. Luz de fim de tarde, música baixa, aquele tipo de murmúrio suave que faz a maioria das pessoas expirar e descontrair os ombros. À sua frente, a amiga percorria o telemóvel com preguiça, perfeitamente à vontade, com um sapato meio descalçado. A Lena sorria, acenava, acompanhava a conversa, mas por dentro o estômago já se lhe encolhia em nó. Será que a amiga ia dizer alguma coisa? Mudar planos? Largar más notícias naquele sossego, como uma pedra em água parada?
Nada aconteceu. Apenas silêncio e o sibilar da máquina de café expresso.
Mesmo assim, o corpo da Lena mantinha-se em estado de alerta máximo, como um detetor de fumo que dispara sempre que alguém faz torradas.
Quando relaxar parece uma armadilha
Algumas pessoas entram num ambiente descontraído e assentam de imediato. Outras sentem a pele arrepiar-se. A sala pode estar tranquila, as pessoas calmas, as vozes suaves… e, ainda assim, debaixo da superfície há uma espécie de zumbido de pavor. Quanto mais descontraídos parecem os outros, mais a tensão sobe cá dentro.
Não tem a ver com ser “dramático” ou “negativo”. Tem a ver com esperar que o ambiente vire a qualquer segundo. O teu sistema nervoso nunca acredita totalmente que aquele silêncio é real.
Pensa naqueles jantares de família em que a regra era: aproveita o bom humor enquanto dura. Talvez o pai fizesse uma piada, a mãe se risse, as crianças relaxassem. Depois, um copo entornava, um comentário tardio, um tom mal interpretado. Em poucos segundos, a mesa inteira passava de gargalhadas leves para um silêncio gelado ou vozes levantadas.
Se cresceste a sincronizar a respiração com as tempestades emocionais dos outros, aprendeste que a calma era apenas um intervalo publicitário. Não o filme.
É assim que o teu cérebro constrói um guião interno: “Quando as pessoas estão relaxadas, algo está prestes a acontecer.” Um pequeno atraso na resposta de alguém torna-se suspeito. Um/a parceiro/a a fazer scroll em silêncio no sofá torna-se um sinal de aviso. O teu corpo, treinado por anos de mudanças bruscas de humor ou raiva imprevisível, começa a preparar-se automaticamente.
Não estás a reagir ao presente. Estás a reagir ao padrão antigo que diz: a segurança emocional nunca dura, por isso não te sintas demasiado confortável.
Ler o ambiente como uma previsão do tempo
Um gesto útil é desacelerar a tua “máquina de previsões” interior. Quando entras numa cena descontraída e sentes esse desconforto, dá-te dez segundos antes de agir ou falar. Conta literalmente na cabeça.
Depois, nomeia três factos neutros: “A sala está silenciosa. As pessoas parecem calmas. Ninguém está a franzir a testa.” Este pequeno inventário mental puxa-te para fora da história antiga e para dentro do que está, de facto, a acontecer. É uma forma de dizer ao teu corpo: “Estamos a procurar ameaças reais, não fantasmas.”
Uma armadilha comum é tentar “antecipar” a mudança emocional. Fazes piadas sem parar. Levantas um drama pequeno. Perguntas “Estás zangado/a comigo?” em loop. É uma forma de controlar a explosão fazendo-a acontecer nos teus termos. O problema é que essa estratégia mantém o teu sistema nervoso permanentemente em palco, sob luzes fortes.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias com plena consciência. Na maior parte das vezes, só reparas quando alguém pergunta porque pareces inquieto/a quando toda a gente está bem.
“Eu nem me tinha apercebido de que estava sempre à espera que o ambiente virasse, até o meu parceiro dizer: ‘Tu ages como se estivéssemos sempre prestes a receber más notícias.’”
Depois vem a culpa, a reboque. Podes dizer a ti próprio/a que és demasiado sensível ou que estás “estragado/a”. Mas o que estás a viver é, muitas vezes, um padrão de sobrevivência que em tempos te protegeu.
- Repara no primeiro sinal físico - maxilar tenso, respiração curta, mãos cerradas.
- Pausa a história - apanha o pensamento “Vem aí algo mau” antes de ganhar dimensão.
- Faz uma pergunta simples de verificação da realidade - “O que é que, exatamente, neste momento, me diz que há perigo?”
- Volta a uma ação pequena - beber um gole de água, alongar os ombros, olhar pela janela.
Aprender a confiar na calma, devagar
Há um luto estranho em aprender a relaxar quando passaste anos a esperar reviravoltas emocionais. Não estás apenas a mudar um hábito. Estás a largar uma forma de te manteres seguro/a que, em tempos, fez todo o sentido.
Algumas pessoas começam por pouco: dez minutos por dia de tempo totalmente relaxado, de propósito. Telemóvel fora, sem multitarefa, sem “farejar” tensão no ar. Apenas dizer ao corpo, com delicadeza: “Não precisa de acontecer mais nada agora.” Parece simples. Pode sentir-se como estar à beira de um precipício.
Podes reparar numa onda de tédio e, depois, ansiedade. Ou na vontade de verificar mensagens, provocar uma reação em alguém, reabrir um conflito antigo. É a velha expectativa de mudanças emocionais a puxar-te pela manga. Em vez de lutares contra isso, podes nomeá-lo: “Ah, esta é a parte de mim que espera que a cena mude.”
Esse pequeno ato de nomear cria uma fenda de espaço entre ti e o padrão. Nessa fenda, podes escolher não agitar a água só porque ela está parada.
Momentos de calma também podem parecer injustos se a tua história estiver cheia de caos. Uma parte de ti pode pensar: “Porque é que eles conseguem estar tão à vontade quando eu nunca pude?” Esse ressentimento silencioso às vezes esconde-se atrás de piadas, sarcasmo ou atividade constante. Não és uma má pessoa por sentires isso. És humano/a.
Com o tempo, partilhar esta verdade com uma ou duas pessoas de confiança pode suavizar a aresta. Dizer em voz alta: “Eu fico nervoso/a quando está tudo demasiado calmo” pode transformar um fardo privado numa compreensão partilhada. E, a partir daí, tornam-se possíveis novos tipos de fins de tarde, conversas e silêncios.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o/a leitor/a |
|---|---|---|
| O desconforto na calma é aprendido | Muitas vezes vem de humores imprevisíveis ou conflito no passado | Reduz a auto-culpa, dá contexto às reações atuais |
| O corpo reage antes da lógica | Tensão, analisar caras, conversa inquieta | Ajuda a detetar sinais precoces e a interromper o ciclo |
| A calma pode ser reeducada | Pequenos momentos deliberados de segurança e verificações da realidade | Dá formas práticas de te sentires mais à vontade em momentos de paz |
FAQ:
- Pergunta 1 Porque é que me sinto desconfortável quando toda a gente parece relaxada?
- Pergunta 2 Isto é um sinal de ansiedade ou de trauma?
- Pergunta 3 Como posso deixar de esperar mudanças emocionais o tempo todo?
- Pergunta 4 O que posso dizer ao/à meu/minha parceiro/a ou amigos para que percebam?
- Pergunta 5 Quando é que devo pensar em procurar ajuda profissional?
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