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Sou técnico de manutenção e as pessoas ficam sempre surpreendidas quando sabem quanto ganho.

Técnico verifica painel de controlo elétrico com lista de salários na mão, usando luvas de proteção.

A enfermeira piscou os olhos duas vezes quando viu o número no formulário da minha entidade patronal. Olhou para mim e depois de novo para a linha que diz “salário anual”, como se um zero tivesse sido acrescentado por engano. Eu estava ali sentado com as minhas botas de trabalho, as mãos ainda a cheirar ligeiramente a óleo de máquina, à espera de levar a vacina da gripe depois do meu turno na fábrica.

“É… da gestão?” perguntou ela, naquele tom educado de quem não quer soar rude.

“Não”, ri-me. “Arranjo coisas. Sou técnico de manutenção.”

Ela fez aquele meio-sorriso que as pessoas fazem quando acham que estás a brincar. As pessoas não esperam que um tipo que passa o dia debaixo de tapetes rolantes e dentro de máquinas barulhentas ganhe o tipo de dinheiro que normalmente associam a fatos e computadores.

A parte engraçada é que eu já deixei de me surpreender.

Toda a gente, menos eu, ainda não.

“Espera, ganhas quanto?”

A reação é quase sempre a mesma. Alguém pergunta o que faço, eu digo “técnico de manutenção industrial”, e os olhos da pessoa passam pelas minhas botas de biqueira de aço e pelo meu hoodie manchado. A imagem mental que têm é a de um trabalho mal pago, sem saída, onde levas nas orelhas sempre que algo avaria.

Depois ouvem o número. À volta de 80.000 dólares por ano, por vezes mais com horas extra. Seguro razoável. Plano de reforma. Formação paga.

É aí que as sobrancelhas sobem. Começam as perguntas. E aparece aquele olhar estranho, meio culpado, especialmente em pessoas que estudaram anos e mesmo assim andam a lutar para pagar a renda.

Um tipo que conheci num churrasco - web designer - quase deixou cair a cerveja quando lhe mostrei o recibo de vencimento do mês anterior. Tinha acabado de explicar a carga de trabalho dele, a licenciatura, o stress de andar atrás de clientes que não querem pagar a tempo. Senti o ar mudar quando ele percebeu que o tipo que passara a manhã a substituir uma vedação de uma bomba estava, discretamente, a ganhar mais do que ele.

Ele não o disse diretamente, mas estava no silêncio.

Todos já estivemos ali: aquele momento em que de repente questionas as tuas escolhas de vida por causa de uma conversa numa festa.

As pessoas desvalorizam o trabalho de manutenção porque não o veem até algo correr mal. Na cabeça delas, é só “o tipo das reparações” que aparece magicamente quando o ar condicionado avaria ou a máquina encrava. Por trás disso, há anos de aprendizagem prática, formação em segurança, diagnóstico sob pressão e um mapa mental de sistemas que a maioria nunca repara que existe.

As empresas sabem uma coisa simples: se as máquinas param, o dinheiro para.

É por isso que um bom técnico de manutenção, em silêncio, se torna uma das pessoas mais valiosas do edifício.

Como o trabalho realmente é por dentro

Eis como o meu dia é de verdade. Pico o ponto antes do nascer do sol, consulto o registo de manutenção e leio rapidamente as notas do turno da noite. Um motor a aquecer demasiado. Um tapete transportador com um ruído estranho. Um sensor que deixou, ao acaso, de enviar sinais.

Depois vou ao chão de fábrica. Ouço. Cheiro para detetar sobreaquecimento. Pouso a mão numa caixa de engrenagens para sentir a vibração. Não é glamoroso, mas é uma mistura estranha de trabalho de detetive com destreza manual.

Às vezes estou num elevador de tesoura a mudar uma luminária. Outras vezes estou até à cintura dentro de uma máquina, coberto de gordura, a tentar libertar um rolamento preso antes que uma linha inteira de produção pare por completo.

Há uns meses tivemos um susto grande. Uma das principais linhas de produção começou a disparar paragens a meio do ciclo. Nenhum código de erro óbvio. Só paragens súbitas. Cada minuto parada estava a custar milhares. As pessoas começaram a entrar em pânico. Chefias a pairar. Operadores stressados.

Segui o rasto até um sensor de proximidade avariado que, ocasionalmente, “não via” a peça quando ela passava. Foram quase duas horas de testes, rastejar, verificar tensões, trocar componentes. Quando finalmente acertei, limpei as mãos, registei a correção e segui para a próxima.

Mais tarde alguém da gestão chamou-me de lado e disse: “Acabaste de nos poupar uma fatura de paragem de cinco dígitos.” É esse tipo de momento que, discretamente, justifica o ordenado.

A lógica por trás do salário é simples quando se percebe. Uma máquina não quer saber do teu diploma; quer saber se a consegues manter a funcionar com segurança e fiabilidade. Isso significa compreender sistemas elétricos, ler esquemas, saber lockout/tagout (bloqueio e etiquetagem) de cor e ter a coragem de dizer: “Não, isto não é seguro, vamos parar.”

Junta turnos noturnos, chamadas de emergência às 2 da manhã e a responsabilidade de não aleijar ninguém por teres atalhado caminho.

De repente, o número naquele recibo de vencimento já não parece assim tão chocante.

Como é que este tipo de salário acontece na prática

As pessoas costumam achar que tive sorte. Não tive. Fiquei curioso. O meu percurso começou com um trabalho básico de entrada: varrer o chão numa fábrica e ajudar os tipos da manutenção quando precisavam de mais um par de mãos. Eu observava mais do que olhava para o relógio.

Um deles reparou e começou a explicar coisas. O que significava aquele barulho. Porque é que aquele disjuntor disparava sempre. Como ler os símbolos nos diagramas de cablagem. Fiz um curso noturno de eletricidade industrial num colégio comunitário. Depois outro de fundamentos de PLC.

Disse “sim” aos turnos que ninguém queria. Noites, fins de semana, chamadas em feriados. É aí que vivem tanto as horas extra como a aprendizagem.

Se estás a pensar seguir este caminho, há algumas armadilhas que vejo sempre. Primeiro: as pessoas tratam isto como “apenas um trabalho”, não como um conjunto de competências. Aparecem, fazem o mínimo, nunca fazem perguntas, nunca abrem um manual a não ser que sejam obrigadas. São essas que ficam presas no degrau mais baixo durante anos.

Segundo: ou perseguem só o dinheiro, ou ignoram-no completamente. Ambos os extremos prejudicam. É preciso conhecer a remuneração praticada na tua zona, as certificações que aumentam o salário, as empresas que investem em formação em vez de queimar as pessoas.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhas, mas pedir um aumento com números na mão é melhor do que ficar em silêncio a ressentir o chefe.

“As pessoas acham que ‘trabalhador de fato macaco’ é sinónimo de ‘teso’”, disse-me um colega uma vez durante a pausa de almoço. “Não veem que um bom técnico pode ganhar mais do que muitos trabalhos de escritório - e ir para casa com a verdadeira sensação de ter arranjado algo que importava.”

  • Começa pequeno, mas começa
    Pede para acompanhar a equipa de manutenção, nem que seja uma hora por semana. Aprendes mais com uma avaria real do que com dez vídeos no YouTube.
  • Obtém um certificado prático
    Não dez, não uma pasta inteira. Um. Algo como eletricidade industrial básica, fundamentos de AVAC, ou soldadura. A partir daí, vais construindo.
  • Regista o teu impacto
    Anota o tempo de paragem que evitas, as reparações que lideras, as novas tarefas que dominas. Isso é a tua munição silenciosa quando falares de salário.
  • Escolhe o ambiente certo
    Uma oficina pequena pode ensinar-te tudo mas pagar menos. Uma fábrica grande pode pagar melhor mas prender-te a uma linha. Ambos podem funcionar, se souberes o que queres.
  • Protege o teu corpo e o teu brio
    Usa EPI, levanta bem, alonga. Só tens uma coluna e dois joelhos. Respeita o trabalho e a ti próprio ao mesmo tempo.

O que isto diz sobre trabalho, dinheiro e respeito

O choque que as pessoas têm quando ouvem o meu salário não é realmente sobre mim. É sobre a ideia que nos venderam de como devem ser os “bons empregos”. Secretária limpa, portátil, horários flexíveis, talvez uma planta num canto e tijolo à vista. Não uma caixa de ferramentas e uma etiqueta de bloqueio.

E, no entanto, o mundo funciona à base de coisas que avariam. Elevadores. Linhas de produção. Unidades de AVAC. Bombas de água. Geradores hospitalares. Por trás de cada uma dessas coisas está alguém com uma chave, um multímetro e um número na cabeça que liga um problema a uma solução.

Não estou a dizer que toda a gente devia correr para a manutenção. Algumas pessoas odiariam o barulho, a gordura, a pressão de ser quem é chamado quando tudo descamba. Mas se alguma vez te sentiste preso, mal pago e desligado do resultado do teu trabalho, este mundo é maior - e mais bem pago - do que parece por fora.

Às vezes os trabalhos mais “comuns” carregam o poder mais silencioso: o poder de entrar numa sala cheia de caras preocupadas, resolver a coisa invisível que mais ninguém entende e sair outra vez com as mãos sujas e a cabeça erguida.

Isso, para mim, vale cada olhar de surpresa.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Técnicos de manutenção podem ganhar salários fortes Funções industriais pagam frequentemente 60 mil–90 mil+ dólares com horas extra e benefícios Abre os olhos para carreiras fora dos caminhos “de escritório” tradicionais
As competências importam mais do que os títulos Competências práticas em eletricidade, mecânica e segurança determinam a remuneração Incentiva o investimento em formação prática e certificações
Há um percurso claro para entrar na área Funções de ajudante de entrada + aulas noturnas + curiosidade podem levar a salários mais altos Dá um roteiro realista para mudar ou iniciar uma carreira

FAQ:

  • Pergunta 1 Quanto ganha, na prática, um técnico de manutenção em média?
  • Pergunta 2 É preciso um curso superior para ser técnico de manutenção?
  • Pergunta 3 Qual é a parte mais difícil do trabalho no dia a dia?
  • Pergunta 4 Dá para mudar para esta carreira mais tarde na vida?
  • Pergunta 5 Que competências ou certificados ajudam a aumentar o salário mais depressa?

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