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Reformado ganha 71,5 milhões de euros na lotaria, mas perde tudo uma semana depois devido a uma app.

Idoso a consultar telemóvel e bilhete de lotaria numa mesa de madeira, com chávena e bloco de notas ao fundo.

O e-mail chegou às 6h42, mesmo entre duas mensagens de spam e uma newsletter que ele nunca lia. “Parabéns, ganhou 71 500 000 €.” Ao início, Marcel pensou que era uma burla. Reformado, já no fim dos sessenta, a viver sozinho num apartamento modesto perto de Lyon, passara anos a ignorar esse tipo de mensagem. Mas esta vinha da aplicação oficial da lotaria - a mesma que a filha lhe tinha instalado no telemóvel para ele poder “jogar sem sair à chuva”. Carregou, com as mãos a tremer. Os números coincidiam. Todos. O jackpot era dele. Assim, de repente, a vida tranquila inclinou-se para outro universo. Uma semana depois, com o mesmo pequeno gesto de uma ponta de dedo no ecrã, esse universo desapareceu.

O reformado que se tornou multimilionário durante sete dias

As primeiras horas foram um borrão. Marcel não começou a correr aos gritos. Fez café, sentou-se à pequena mesa da cozinha, com a toalha de plástico, e ficou a olhar para o ecrã da aplicação durante longos minutos. O saldo mostrava 71,5 milhões de euros. Tirou uma captura de ecrã, depois outra, como se o número pudesse, de repente, derreter. Lá fora, o bairro parecia exatamente o mesmo. Passavam autocarros, as crianças arrastavam mochilas, a padaria abria as portadas. Mas, dentro da cabeça dele, cada som parecia abafado, como se o mundo tivesse passado por um filtro.

Ligou à filha. Ela pensou que ele estava a brincar até ele lhe enviar a captura de ecrã. Riram os dois, depois choraram, depois voltaram a rir. Nesse dia, ele não comprou um carro desportivo nem um iate. Foi ao supermercado e, pela primeira vez, não olhou para os preços. Levou queijo melhor. Morangos frescos. Uma garrafa de champanhe que parecia quase indecente. Na caixa, ainda tirou o cartão bancário de sempre, aquele por onde raramente passavam mais de 1200 € por mês. Os velhos hábitos não desaparecem numa manhã.

A viragem aconteceu quando a aplicação lhe pediu para “atualizar os dados da conta para receber os prémios mais rapidamente”. Um banner simpático, as mesmas cores, o mesmo logótipo, a mesma tipografia. Carregou. Surgiu uma nova página, perfeitamente familiar, a pedir dados do documento de identificação, informações bancárias, códigos de confirmação. Tudo parecia oficial. Ao telefone com a filha, mencionou aquilo de passagem. Ela estava no trabalho, distraída, e disse: “Sim, pai, provavelmente precisam disso para a transferência, é só seguir os passos.” Ninguém reparou na diferença subtil no endereço web. Ninguém percebeu que o banner não vinha da aplicação, mas de um pop-up malicioso injetado por uma atualização falsa.

Como um único toque numa aplicação pode apagar uma fortuna

O método era dolorosamente simples. O banner falso aparecia apenas uma vez, logo depois de ele abrir a aplicação da lotaria. Os hackers contavam com uma explosão de emoção, aquele momento em que o pensamento racional é afogado pela excitação e pelo stress. A interface copiava a página oficial ao mais pequeno detalhe. Logótipo, tipo de letra, botões azuis. O reformado introduziu os dados bancários, o número do documento de identificação nacional, até os pequenos códigos recebidos por SMS. Dois minutos depois, os burlões tinham tudo o que precisavam. Ele voltou ao ecrã dos ganhos, tranquilizado. Nada parecia diferente. A armadilha fechara-se em silêncio.

Nos cinco dias seguintes, saíram três transferências de grande valor das suas contas. Não apenas o prémio da lotaria, mas também as poupanças modestas e a conta à ordem. Os burlões usaram a identificação dele para abrir contas intermediárias no estrangeiro e encaminhar os fundos por várias carteiras digitais. Para o banco, as transferências estavam “autorizadas”, porque foram validadas com os códigos que ele próprio introduzira. Para Marcel, tudo o que via era que ainda não aparecia nada como “recebido” na aplicação principal do banco. Pensou, como muita gente, que milhões demoram a chegar. Não queria parecer impaciente ou paranoico ao ligar ao operador da lotaria a cada hora.

Quando finalmente foi à agência, uma semana depois, o gestor abriu o processo e ficou imóvel. As transferências tinham sido sinalizadas como invulgares, mas os alertas tinham sido “confirmados pelo cliente” graças aos códigos 3D Secure. O dinheiro tinha desaparecido. O banco iniciou um procedimento, contactou a empresa da lotaria, registou um alerta de fraude. As respostas voltaram como golpes: a transação tinha sido, tecnicamente, autorizada; as plataformas usadas estavam no estrangeiro; o rasto já estava frio. O caso iria para tribunal, mas as perspetivas de recuperação foram descritas como “extremamente limitadas”. Marcel saiu da agência com exatamente o mesmo saldo de conta que tinha no mês anterior ao prémio. A única diferença era o conhecimento brutal daquilo que quase tivera.

Proteger-se de armadilhas digitais quando o dinheiro aparece de repente

A parte cruel desta história é que o gesto que lhe custou tudo é um que todos fazemos dezenas de vezes por dia: tocar, aceitar, continuar. Quando uma aplicação em que confiamos pede informações, raramente desconfiamos. O primeiro reflexo concreto, sobretudo após qualquer prémio financeiro ou transferência inesperada, é abrandar tudo. Feche a aplicação. Volte a abri-la. Se aparecer um banner, não carregue. Vá manualmente ao site oficial no seu navegador, escrevendo o endereço você mesmo, não através de um link. Depois confirme se a mensagem que viu realmente existe lá.

Outro reflexo essencial: pegar no telefone. Ligue para o número oficial do operador da lotaria ou do seu banco - o que está no cartão ou no site deles - nunca o que aparece num e-mail ou num pop-up. Pergunte diretamente: “Foram vocês que me pediram esta informação? Esta página é mesmo vossa?” Uns minutos de dúvida valem muito mais do que uma vida inteira de arrependimento. A vida digital anda depressa demais para os nossos instintos antigos acompanharem naturalmente. Sejamos honestos: ninguém lê todos os conselhos de segurança ao detalhe, todos os dias.

“A partir do momento em que aparece uma soma grande numa conta, a pessoa torna-se um alvo prioritário”, explica um responsável de cibersegurança contactado para esta reportagem. “Os criminosos sabem que as emoções estão ao rubro e que as pessoas clicam mais depressa e pensam menos. Eles não atacam tanto a tecnologia como o humano por trás do ecrã.”

  • Verifique qualquer mensagem sobre muito dinheiro por um segundo canal (telefone, presencialmente ou no site oficial).
  • Nunca introduza dados bancários ou de identificação através de um banner ou pop-up dentro de uma aplicação.
  • Ative alertas para transferências de grande valor e confirme-os de imediato com o seu banco.
  • Fale com alguém de confiança antes de validar qualquer passo financeiro importante.
  • Se lhe cair um “golpe de sorte”, imponha uma regra de 48 horas de “sem decisões” antes de fazer o que quer que seja online.

O que esta história diz sobre as nossas vidas, os nossos telemóveis e a sorte repentina

A história deste reformado espalha-se depressa porque toca em várias feridas ao mesmo tempo. O sonho da lotaria que muitos alimentam em silêncio. A vida tranquila que podia ter mudado. O medo de que os nossos telemóveis - esses pequenos retângulos que tratamos como extensões de nós - se voltem contra nós com um único toque. Já passámos todos por isso: aquele momento em que surge uma notificação e reagimos antes de olhar a sério. No dia a dia, isso normalmente não nos custa mais do que mais uma subscrição de spam. Quando há milhões em jogo, pode apagar um futuro inteiro numa semana.

Alguns dirão que ele devia ter sabido melhor. Outros argumentarão que os sistemas feitos para o proteger não foram desenhados para um reformado que nunca tinha feito uma transferência internacional na vida. O que fica, para lá das tecnicalidades legais, é uma sensação muito simples e desconfortável: as nossas vidas são cada vez mais decididas em ecrãs que não compreendemos totalmente. Esta história pode nunca ficar plenamente resolvida em tribunal ou no sistema bancário. Ainda assim, continua - cada vez que alguém atualiza uma aplicação, clica num banner ou recebe uma mensagem que começa por “Parabéns…”.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Verificar por um segundo canal Confirme sempre pedidos vindos de aplicações ou e-mails com o seu banco ou com o operador da lotaria, por telefone ou no site oficial Reduz o risco de cair numa interface falsa que imita a verdadeira
Desconfiar de cliques emocionais Burlões visam momentos de choque, alegria ou pânico, quando a atenção diminui Ajuda a reconhecer quando está mais vulnerável e a abrandar as decisões
Definir regras pessoais claras Atraso de 48 horas antes de agir, sem dados em pop-ups, falar primeiro com alguém Transforma o vago “tenha cuidado” em hábitos concretos e fáceis de cumprir

FAQ:

  • Um banco pode mesmo recusar reembolsar uma perda destas? Sim, se as operações tiverem sido tecnicamente “autorizadas” pelo cliente através de códigos de segurança, os bancos podem argumentar que os sistemas funcionaram como previsto. Os litígios dependem das leis nacionais e de saber se o cliente foi claramente induzido em erro.
  • O operador da lotaria é responsável quando um vencedor é alvo de hacking? Em geral, a lotaria é responsável por pagar o prémio ao vencedor legítimo, não pelo que acontece após a transferência. Ainda assim, pode colaborar com investigações e melhorar as aplicações para reduzir riscos de pop-ups falsos.
  • Como identificar um banner ou pop-up falso numa aplicação? Veja o endereço web se abrir um navegador, procure erros ortográficos e desconfie de qualquer pedido de dados bancários completos ou documentos de identificação feito diretamente a partir de um banner.
  • O que devo fazer imediatamente se suspeitar de uma burla? Contacte o número de emergência do seu banco, bloqueie os cartões, altere as passwords e denuncie a fraude às autoridades. A rapidez pode limitar os danos.
  • É mais seguro evitar por completo as aplicações de lotaria? Nenhum sistema é isento de risco, seja físico ou digital. Usar aplicações não é, por si só, o problema; a chave é usá-las com hábitos rigorosos: não clicar sob pressão, não fornecer dados via pop-ups e verificar sistematicamente qualquer pedido invulgar.

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