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A psicologia indica que pais obcecados com a felicidade dos filhos podem criar adultos incapazes de lidar com o desconforto ou pensar nos outros, o que revolta especialistas e famílias.

Mulher e criança na cozinha, com tablet, copo de leite e prato de panquecas. Criança aparenta estar preocupada.

Numa terça-feira à noite, numa cozinha bem iluminada algures nos subúrbios, um miúdo de 9 anos rebenta em lágrimas porque a bateria do tablet se esgota aos 12% em vez de aos 15%. A mãe corre para ele, a pedir desculpa, a prometer gelado, um filme, qualquer coisa para “melhorar”. Os trabalhos de casa que ele devia terminar em silêncio desaparecem, engolidos por uma onda de conforto e distração.

O pai observa, tenso. Lembra-se de ir a pé para a escola à chuva, de juntar dinheiro para comprar uma única banda desenhada, de ouvir “não” mais vezes do que “sim”. Hoje, dizer “não” parece quase violento. A família só quer paz, sorrisos, harmonia.

O rapaz deixa de chorar. Dez minutos depois, está aos berros porque o gelado não é do sabor certo.

Há algo nessa cena que parece estranhamente familiar. E, ao mesmo tempo, inquietante.

Quando a felicidade se torna uma religião doméstica

Em muitas casas, a felicidade das crianças tornou-se o principal princípio organizador. Os pais agendam, filtram, ajustam e amaciam cada dia para evitar frustração, tédio ou desilusão. Um mau humor é tratado como um incêndio a apagar, não como um estado do tempo que é preciso atravessar.

Há amor por trás disto, e muitas vezes também muita culpa. Dias de trabalho longos, economias instáveis, notícias assustadoras - os pais querem construir uma pequena ilha de alegria. Ainda assim, os psicólogos começam a alertar que esta parentalidade da felicidade a todo o custo pode estar a ter o efeito contrário, em silêncio.

As crianças aprendem que qualquer desconforto é anormal. Intolerável. Culpa de outra pessoa.

Uma orientadora escolar em Londres descreve os seus novos “clientes habituais”: jovens de 15 anos que colapsam por causa de um B+, de um autocarro atrasado, de uma festa do pijama adiada. Não são frágeis no sentido dramático. Conseguem gritar, negociar, exigir. O que lhes custa é manterem-se de pé quando a vida não se dobra de imediato às suas vontades.

Um rapaz, o melhor da turma, teve um ataque de pânico porque a sua professora preferida foi de licença de maternidade. Não estava apenas triste. Sentiu-se injustiçado, como se o mundo tivesse quebrado um pacto não dito de o manter confortável. Os pais apareceram furiosos, acusando a escola de “não se importar com o seu bem-estar emocional”.

A impressão da orientadora é dura: estas crianças foram treinadas para esperar uma vida curada, não uma vida partilhada.

Os psicólogos chamam-lhe “intolerância ao desconforto”. O cérebro nunca treina ficar com um sentimento desagradável, por isso até pequenos solavancos parecem precipícios. Quando os pais alisam constantemente o caminho, as ferramentas internas da criança - paciência, perspetiva, empatia - ficam subutilizadas e subdesenvolvidas.

Se os meus sentimentos nunca podem doer, então as necessidades dos outros começam a parecer ameaças. A vez de um irmão, o erro de um amigo, a regra de um professor - tudo pode soar pessoal. É assim que deslizamos de “quero ser feliz” para “quero que o mundo gire à volta do que eu sinto neste momento.”

O que começou como proteção transforma-se, discretamente, em permissão para o egocentrismo.

Como amar profundamente sem criar um viciado em conforto

Uma mudança prática que muitos terapeutas sugerem é dolorosamente simples: adiar o resgate por alguns minutos. Quando a criança fica chateada porque o jogo acabou, a resposta é não, ou o dia simplesmente não correu como queria, pare. Sente-se ao lado dela. Dê nome ao que ela sente.

Depois, não conserte.

Pode dizer: “Estás mesmo desiludido, estou a ver. Custa parar quando estás a divertir-te.” Depois respire. Deixe a onda passar. A mensagem não é “aguenta e cala”, é tu és forte o suficiente para sentires isto e sobreviveres. Com o tempo, esse pequeno intervalo entre emoção e reação torna-se músculo mental.

Os pais muitas vezes caem no mesmo ciclo: surge o desconforto, entra a culpa, ativa-se o modo de resgate. Especialmente para quem cresceu com pais frios ou duros, a vontade de “fazer o contrário” é intensa. Então, exageram na correção. Cada frustração parece trauma. Cada “não” soa a traição.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que a criança chora e nós nos sentimos péssimas pessoas por não resolvermos logo. Contudo, a verdade silenciosa que muitos psicólogos repetem é que a frustração, em pequenas doses, não é crueldade. É treino. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, sem falhar. Mas, de cada vez que consegue não saltar imediatamente para resolver, ensina à criança algo sobre si própria: que não é feita de vidro.

Um psicólogo infantil disse-o assim numa sessão com pais exaustos: “O vosso trabalho não é evitar todas as dores. O vosso trabalho é ser a pessoa segura a quem eles voltam depois da dor.”

  • Permita pequenas lutas seguras - Deixe-os perder o jogo de tabuleiro, esperar pela vez, poupar a sua própria mesada para algo que querem.
  • Use “e”, não “mas” - “Estás zangado, e ainda assim temos de sair do parque”, em vez de “Estás zangado, mas temos de ir.”
  • Partilhe os seus próprios limites - “Estou cansado, por isso posso ler uma história, não três.” As crianças aprendem que os outros também têm mundos interiores.
  • Normalize o tédio - Sem entretenimento instantâneo. O tédio é muitas vezes a porta para a criatividade, não um problema a apagar.
  • Celebre a recuperação, não apenas o sucesso - “Ficaste chateado e acalmaste-te” importa tanto como “Tiveste um A.”

Uma geração a aprender a sentir, não apenas a ser agradada

A indignação em torno destas conclusões é compreensível. Os pais sentem-se acusados de amar demasiado os filhos. Os profissionais sentem-se mal interpretados, como se estivessem a chamar “mimadas” às crianças, em vez de tentar decifrar um novo clima emocional. Famílias já sob pressão não querem mais um dedo apontado.

Mas há outra forma de ler esta investigação. Não como culpa, mas como espelho. Muitos adultos hoje também têm dificuldade em tolerar o desconforto - fazer scroll em vez de descansar, anestesiar em vez de sentir. As crianças estão simplesmente a crescer dentro dessa mesma cultura e a refletir-nos isso de volta.

E se a verdadeira mudança não for sobre as crianças, mas sobre a nossa tolerância coletiva para um “tempo emocional” que nem sempre está solarengo?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A obsessão pela felicidade pode sair pela culatra Remover constantemente o desconforto ensina as crianças que qualquer sentimento negativo é anormal e insuportável. Ajuda os pais a repensar o “modo de resgate” e a ver como ele molda a resiliência a longo prazo.
O desconforto constrói ferramentas internas Breves momentos de frustração ou tédio são terrenos de treino para a paciência, a empatia e o autocontrolo. Incentiva as famílias a permitirem pequenas dificuldades em vez de as temerem.
Amar não significa resolver de imediato Estar presente com os sentimentos da criança, sem os resolver imediatamente, aumenta a segurança e a independência. Oferece uma forma concreta e viável de apoiar as crianças sem alimentar o egocentrismo.

FAQ:

  • Pergunta 1 Os psicólogos estão mesmo a dizer que os pais não devem preocupar-se com a felicidade dos filhos?
    De forma nenhuma. Estão a dizer que perseguir felicidade constante pode minar um bem-estar mais profundo. O objetivo é uma criança que consiga sentir tristeza, raiva ou tédio e, ainda assim, sentir-se segura e amada.
  • Pergunta 2 Como sei se estou a “sobreproteger” emocionalmente o meu filho?
    Um sinal é sentir pânico sempre que ele fica perturbado, ou mudar frequentemente regras, planos ou limites só para travar o sofrimento naquele momento.
  • Pergunta 3 Não deixar o meu filho “lutar” um pouco não vai prejudicar a autoestima dele?
    Pequenas lutas, geríveis, geralmente fazem o contrário. Quando as crianças as ultrapassam com o seu apoio, sentem-se capazes, não frágeis.
  • Pergunta 4 E se o meu filho já parece incapaz de tolerar qualquer frustração?
    Comece com passos muito pequenos: esperas curtas, pequenos “nãos”, rotinas claras. Mantenha a calma, nomeie o que ele sente e vá aumentando lentamente o intervalo entre sentir e resolver.
  • Pergunta 5 Esta abordagem funciona com adolescentes, ou já é tarde?
    Não é tarde. Os adolescentes podem aprender a tolerar desconforto, sobretudo quando os adultos o modelam, falam com honestidade sobre os seus próprios limites e deixam de organizar tudo em torno de evitar conflitos.

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