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Banda de rock lendária anuncia fim de carreira após 50 anos, marcando o fim de uma era para “o êxito que todos conhecem”.

Mão a enrolar cabo junto a amplificador com texto "the amps go silent", folhas de papel e auriculares no chão.

A novidade caiu numa terça-feira chuvosa, daquele tipo de tarde cinzenta em que as canções antigas parecem soar mais alto. Um único post nas redes sociais da banda. Uma foto simples a preto e branco. Três linhas de texto. E, de repente, 50 anos de barulho, suor e luzes de estádio encolheram para um quadrado no ecrã do teu telemóvel.

Nos comentários, os fãs publicaram canhotos de bilhetes, tatuagens desbotadas, fotografias granuladas em que toda a gente parece impossivelmente nova. Alguns escreveram parágrafos inteiros; outros limitaram-se às mesmas quatro palavras: “Obrigado pela canção.”

Porque foi isso que esta banda se tornou, para lá dos álbuns e das digressões e dos escândalos. Tornaram-se naquele hino que toda a gente conhece, a faixa que ainda rebenta em casamentos, bares, autocarros noturnos e nas últimas danças.

Agora deixam-nos com o eco.

O dia em que os amplificadores se calaram

O comunicado de imprensa chama-lhe “uma despedida da estrada”, mas toda a gente percebe o que isto realmente é. As mãos do guitarrista já não se mexem como antes, o cantor não consegue perseguir as mesmas notas todas as noites, e os voos parecem mais longos a cada digressão. Cinquenta anos é um número bonito para parar.

Para os fãs, cai como um murro atrasado. Sabias que este dia havia de chegar e, ainda assim, quando lês as palavras “última digressão”, alguma coisa dentro de ti recua. Voltas a passar aquele êxito na cabeça, o riff tão familiar como o teu próprio nome. De repente, percebes que mediste a tua vida em concertos, refrões e cânticos de encore.

Há sempre um momento, em todos os festivais, em que as primeiras notas daquela canção se espalham e sentes fisicamente a disposição da multidão mudar. Aconteceu em 1979, em clubes pequenos e suados. Aconteceu em 1998, em estádios de futebol. Aconteceu no verão passado, quando alguns miúdos a cantar em coro nem sequer tinham nascido quando a faixa entrou pela primeira vez nas tabelas.

Um fã em Berlim guarda as setlists de cada concerto a que assistiu, cuidadosamente alisadas e coladas na parede do quarto. Outra, em São Paulo, diz que aprendeu inglês a cantar as letras para uma escova de cabelo. Um DJ em Londres jura que, sempre que a pista está a morrer, põe “o êxito que toda a gente conhece” e vê as pessoas a correr de volta da zona de fumadores.

Porque é que uma canção sobrevive à moda, aos géneros, até à própria banda que a escreveu? Parte é ofício: um riff suficientemente simples para trautear, um refrão que podes gritar mal, palavras suficientemente vagas para caberem em todos os desgostos e todas as vitórias. Parte é timing: lançada numa década faminta de rebeldia, repetida em todas as cenas de filme que precisavam de uma faísca.

Mas há também algo mais turvo. Uma espécie de memória muscular cultural. A canção infiltra-se em noites de karaoke, visitas de estudo, viagens de autocarro com copos a mais, programas de talentos na TV. Faz banda sonora de primeiros beijos e de últimos adeuses sem pedir licença. Quando a banda se reforma, a canção já não lhes pertence. Pertence a toda a gente que alguma vez a pôs demasiado alta.

Como uma digressão de despedida se torna um ritual coletivo

Se já compraste bilhetes para a última digressão, sabes que isto não é apenas mais um concerto. Há pessoas a planear o outfit como se fosse o seu próprio baile de finalistas. As t-shirts antigas de digressão estão a ser tiradas de caixas, lavadas com cuidado, remendadas onde o tecido ficou fino.

Alguns fãs fazem uma verdadeira peregrinação pessoal: voltam à primeira cidade onde viram a banda, ou vão com o mesmo amigo com quem foram aos 17. Outros aparecem com os filhos, desesperados por lhes dar a sensação daquele rugido dentro de uma multidão real antes de as luzes se apagarem para sempre.

Há uma pequena coreografia comovente nestas noites que ninguém organiza oficialmente. Há sempre alguém que começa o primeiro cântico no escuro antes de a banda entrar. Alguém passa uma cerveja a um desconhecido quando um tema favorito e menos óbvio surge inesperadamente no alinhamento. Alguém chora na ponte e finge que é só por causa das máquinas de fumo.

E depois chega o momento que toda a gente sabe que vem aí. Aquele acorde inicial familiar. As luzes varrem a branco milhares de rostos. Metade da multidão levanta o telemóvel; a outra metade decide vivê-lo com o corpo inteiro. Sejamos honestos: ninguém “aproveita só o momento” sem gravar pelo menos um vídeo tremido.

Na conferência de imprensa, o vocalista tentou manter o tom leve. “Nós não estamos a morrer”, disse ele, a rir-se para o microfone. “Só vamos finalmente dormir nas nossas próprias camas.” Depois a voz falhou-lhe, uma única vez. “Essa canção deu-nos tudo. Agora queremos ouvir como soa quando a cantam sem nós.”

  • Chega cedo
    Dá-te tempo para sentires a atmosfera a crescer, em vez de entrares a correr a tempo do primeiro acorde.
  • Leva um objeto de memória
    Um canhoto de bilhete, uma t-shirt antiga, uma fotografia no telemóvel. Prende a noite à tua própria história.
  • Decide o teu ritual para a última canção
    Vais filmar, fechar os olhos, ligar a alguém, ou apenas gritar cada palavra? Escolher importa.
  • Conta com a quebra
    A tristeza pós-concerto é real. Planeia uma coisa pequena e suave para o dia seguinte.
  • Partilha a tua versão do hino
    Um post, uma mensagem, um SMS a um velho amigo. É assim que as canções sobrevivem às digressões.

Quando uma era termina, o que é que fica de facto?

Há um silêncio estranho na manhã seguinte à reforma de uma banda como esta. O mundo não mudou realmente, mas algo parece ligeiramente desfocado, como uma fotografia meia passada para a esquerda. Não há novas datas de digressão para percorrer com os olhos, nem rumores de um EP surpresa, nem uma atuação num talk show para ir caçar ao YouTube.

E, no entanto, a canção continua lá, teimosa e brilhante. Vai continuar a aparecer em playlists de supermercado, em jukeboxes de bar, no duche do teu vizinho quando ele se esquece de que a janela está aberta. A indústria segue em frente, os algoritmos baralham as cartas, mas um hino a sério continua a encontrar fendas por onde se derramar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Uma canção pode sobreviver à banda O êxito torna-se uma memória cultural partilhada, desligada dos seus criadores Ajuda-te a perceber porque é que esta reforma se sente pessoal, e não apenas como notícia
As digressões de despedida são rituais modernos Os fãs usam estes concertos para se despedirem de uma versão de si próprios Convida-te a viver o teu concerto de outra forma, com mais intenção
As tuas memórias mantêm a música viva Histórias, playlists e pequenos hábitos prolongam a vida da canção Dá-te agência sobre como este “fim de uma era” realmente se desenrola

FAQ:

  • Pergunta 1 Estão mesmo a reformar-se, ou ainda pode haver uma reunião mais tarde?
  • Pergunta 2 “O êxito que toda a gente conhece” ainda vai ser usado em filmes, anúncios e programas de TV?
  • Pergunta 3 Qual é a melhor forma de viver a digressão de despedida se eu não conseguir bilhetes?
  • Pergunta 4 Porque é que esta canção em particular é emocional mesmo para pessoas que não são fãs hardcore?
  • Pergunta 5 Como posso manter a música deles presente na minha vida depois de a banda sair do palco pela última vez?

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