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A psicologia explica que sentir-se sobrecarregado com tarefas pequenas está ligado à saturação da carga cognitiva.

Pessoa segura caderno com post-it "Pastel", mesa com fones, relógio e plantas ao fundo.

O lava-loiça está cheio, outra vez. Três canecas, um prato, uma frigideira engordurada. Ficas ali, esponja na mão, e por alguma razão esta tarefa minúscula parece uma escalada a uma montanha de chinelos. A cabeça está a zumbir com e-mails, mensagens, as notícias que leste a meio ao almoço. A frigideira já não é só uma frigideira. É a gota de água.

Apanhas-te a pensar: “Porque é que eu sou assim? São só pratos, não é uma zona de guerra.”

Não és preguiçoso/a. Não estás “estragado/a”. Há outra coisa a acontecer no teu cérebro.

Quando tarefas “pequenas” de repente parecem gigantescas

Há dias em que responder a um e-mail parece mais difícil do que escrever uma tese inteira, como antigamente. Abres a caixa de entrada, vês três mensagens por ler, e o peito aperta. O teu cérebro sussurra baixinho: “Agora não. Depois.” Então mudas para o scroll, ou andas de um lado para o outro, ou ficas a olhar para o frigorífico sem razão nenhuma.

No papel, são microtarefas. No corpo, sentem-se pesadas, pegajosas, estranhamente ameaçadoras. A diferença entre “Isto devia ser fácil” e “Isto parece impossível” pode desorientar. Essa diferença tem um nome: saturação da carga cognitiva.

Imagina a Maya, 34 anos, gestora de projectos, dois filhos, um cão já velho. O dia dela é um fluxo de pedidos pequenos: “Podes rever isto?” “Não te esqueças da consulta do dentista.” “Acabou o leite.” Ela arrasa numa apresentação de estratégia de duas horas… e depois bloqueia completamente à frente de um formulário online que demoraria cinco minutos a preencher.

Clica nele, fica a olhar, fecha o separador. Tenta outra vez uma hora depois. Igual. À hora de deitar, o formulário continua por fazer, e ela está a chamar-se “inútil” no escuro. De fora, aquele formulário não é nada. Dentro da cabeça dela, a RAM mental já está nos 99%. Mais uma tarefa, mesmo pequena, simplesmente não cabe.

A carga cognitiva é o esforço mental total que o teu cérebro está a usar num dado momento. Cada ponta solta, cada pensamento por acabar, cada notificação tira uma pequena dentada dessa capacidade. Quando chegas à saturação, o sistema faz uma coisa sorrateira: começa a assinalar até tarefas pequenas como ameaças.

O teu córtex pré-frontal, a parte que planeia e organiza, está exausto. Por isso o cérebro emocional pega no volante - e ele detesta fricção. É por isso que acabas a evitar aquele e-mail, aquela chamada, as três canecas sujas. Não é a tarefa que é grande; é o teu cérebro que já está cheio.

Como aliviar um cérebro saturado na vida real

Um método simples para baixar a carga cognitiva é o que os psicólogos chamam de “descarga externa do cérebro”. Pega num caderno ou numa nota em branco no telemóvel. Escreve absolutamente tudo o que está a rodopiar na tua cabeça: a chamada que andas a evitar, a roupa que ainda não dobraste, o barulho estranho que o carro fez esta manhã. Não organizes; só lista.

Depois escolhe uma tarefa tão pequena que quase parece parva. “Meter a roupa no cesto.” “Abrir aquele e-mail sem responder ainda.” Faz só isso, e pára. Esta microvitória diz ao teu sistema nervoso: “Não estamos presos. Conseguimos agir.” É um botão de reset escondido.

Muita gente tenta forçar-se a sair do estado de sobrecarga à base de brutalidade. Conheces a voz interior: “Vai lá, faz isso, toda a gente consegue, o que é que se passa contigo?” Essa voz não reduz a carga cognitiva - acrescenta vergonha por cima. Com o tempo, o teu cérebro começa a associar tarefas pequenas a falhanço antes sequer de começares.

Uma estratégia mais gentil é baixar a fasquia de propósito. Encolhe as tarefas até parecerem quase embaraçosamente fáceis. Em vez de “limpar a cozinha”, tenta “deitar fora o lixo em cima do balcão”. Em vez de “organizar as finanças”, tenta “abrir a app do banco e olhar para o saldo”. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas nos dias em que fazes, o teu cérebro aprende que passos pequenos são seguros, não perigosos.

Às vezes, a coisa mais corajosa que fazes o dia inteiro é responder a uma mensagem que tens evitado há uma semana. Esse acto minúsculo é o teu cérebro a escolher envolvimento em vez de paralisia.

Agora, transforma estes pequenos actos numa caixa simples e visual de opções que o teu cérebro cansado possa escolher:

  • Cria uma lista de “tarefas de 2 minutos”: acções tão rápidas que as fazes sem pensar.
  • Mantém-na num lugar visível: porta do frigorífico, secretária, ecrã principal do telemóvel.
  • Quando te sentires bloqueado/a, não penses. Escolhe apenas um item da lista.
  • Celebra mentalmente a seguir a cada uma, mesmo que pareça ridículo.
  • Actualiza a lista semanalmente para se manter fresca e realista.

Viver com um cérebro cheio num mundo barulhento

Vivemos numa época em que a mente pode ficar saturada antes do pequeno-almoço, só com notificações e preocupações de fundo. Não admira que uma simples chamada telefónica possa parecer escalar uma parede lisa, sem apoios. Reconhecer isto não esvazia magicamente o lava-loiça, mas tira uma coisa muito pesada: a ideia de que estás a “falhar na vida” porque tarefas pequenas parecem enormes.

Começas a ver o padrão. A hora do dia em que o teu cérebro se desliga. Os tipos de tarefas que disparam sempre a evitamento. A forma como os ombros ficam tensos mesmo antes de ires “só um bocadinho” às redes sociais. Essa consciência é silenciosamente radical.

A partir daí, podes experimentar. Talvez o teu cérebro aguente tarefas administrativas apenas de manhã - então é nessa altura que respondes a mensagens. Talvez deixes de fingir que consegues fazer multitasking de nove coisas e aceites que três é o teu limite real. Talvez peças ao teu parceiro/a ou a um amigo/a para partilhar ou trocar certas tarefas quando a tua RAM mental está cheia.

Não tens de resolver tudo. Só tens de reparar no que te drena e aparar um pouco dessa carga onde for possível. Uma permissão de cada vez. Uma tarefa minúscula e possível de cada vez. O teu valor não se mede pelo tamanho da lista de tarefas que consegues aguentar.

Há um alívio silencioso em dar nome ao que se passa: saturação da carga cognitiva. Dá forma a esse nevoeiro mental invisível contra o qual tens lutado sozinho/a. Explica porque consegues lidar com uma crise no trabalho mas desmoronas por causa de um tinteiro de impressora avariado.

Quando passas a ver o teu cérebro como um sistema com limites - e não como um inimigo teimoso - a história muda. Podes desenhar os teus dias com mais gentileza, mais margem, mais tarefas pequenas que parecem seguras em vez de sufocantes. Podes decidir que, quando estás a olhar para a loiça, talvez o próximo passo certo não seja “esforça-te mais”, mas “o que é que já está a encher a minha cabeça?”

O lava-loiça vai acabar por ficar limpo. O e-mail vai acabar por ser respondido. A diferença é que o farás a partir de um lugar de compreensão, e não de auto-culpa. E isso muda tudo, mesmo que mais ninguém repare.

Ponto-chave Detalhe Valor para o/a leitor/a
Reconhecer a saturação da carga cognitiva Ver a sobrecarga com tarefas pequenas como sinal de excesso de capacidade mental, não de preguiça Reduz a culpa e a auto-crítica
Usar descargas externas do cérebro Escrever cada ponta solta e escolher uma acção minúscula e concreta Dá uma forma simples de recomeçar quando se está bloqueado/a
Encolher tarefas e criar mini-rituais Transformar grandes tarefas em passos minúsculos e manter uma lista de “tarefas de 2 minutos” Torna o dia-a-dia mais leve e mais gerível

FAQ:

  • Porque é que me sinto exausto/a com tarefas simples? A saturação da carga cognitiva significa que os teus recursos mentais já foram consumidos por stress, preocupações e estimulação constante; por isso, até pequenas tarefas parecem pesadas.
  • Isto é o mesmo que ser preguiçoso/a ou desmotivado/a? Não. Preguiça é um rótulo moral; o que estás a viver é uma resposta normal do cérebro à sobrecarga, comum em pessoas stressadas ou em burnout.
  • A saturação da carga cognitiva pode ser sinal de PHDA (TDAH) ou ansiedade? Sim, é comum na PHDA, ansiedade e depressão, mas também pode surgir em pessoas sem nada disto quando a vida fica demasiado cheia.
  • O que ajuda no momento em que fico bloqueado/a? Pára, respira devagar durante 60 segundos, faz uma descarga rápida do cérebro e depois escolhe uma tarefa que demore dois minutos ou menos, mesmo que pareça “demasiado pequena”.
  • Quando devo considerar procurar ajuda profissional? Se tarefas pequenas parecerem esmagadoras na maioria dos dias durante várias semanas e isso afectar o trabalho, as relações ou o sono, falar com um/a terapeuta ou médico/a pode trazer clareza e apoio.

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