O e-mail está aberto no teu portátil, a decisão é tecnicamente “sim”, os teus amigos estão à espera da boa notícia no WhatsApp. Novo trabalho noutra cidade. Noutro país, até. Devias estar em êxtase, certo? Em vez disso, dás por ti a olhar para a parede, a fazer scroll no Instagram, sem estar propriamente triste, nem propriamente feliz, apenas… suspenso. Vais fazer café, esqueces-te que puseste a chaleira ao lume, voltas ao mesmo ciclo de pensamentos: “Eu sequer quero isto?”
Não estás em crise. A tua vida não está a desmoronar. Mas sentes-te estranhamente leve, como se alguém tivesse carregado em pausa nas tuas emoções enquanto o teu corpo continua a atravessar o dia.
Há um nome para essa zona flutuante entre estados.
A estranha sensação de estar emocionalmente “a meio”
Falamos muito sobre sentir-nos bem ou mal, stressados ou calmos, confiantes ou perdidos. A vida real raramente cabe nessas caixas arrumadas. Existe este outro estado, em que tecnicamente estás a funcionar, a fazer as tuas tarefas, a viver a tua vida, mas emocionalmente estás numa espécie de escala. Nem onde estavas, nem ainda onde vais.
Os psicólogos chamam a isto “liminaridade”, um estado de limiar. A mente sabe que a mudança já chegou ou está a chegar. O corpo continua a reagir como se nada tivesse realmente mudado. E então andas com essa subtil sensação de atraso, como se o voo da tua alma tivesse sido adiado, mas a tua mala já tivesse partido.
Pensa em alguém que acabou de terminar uma relação longa. No papel, está solteiro. Apagou as fotografias, devolveu as chaves, contou aos amigos. Cá fora, ri-se ao brunch e fala sobre novos hobbies. Por dentro, ainda passa na rua do/a ex em piloto automático, ainda espera a mensagem de boa noite que já não chega.
Já não se identifica completamente com “numa relação”. Mas a palavra “solteiro/a” soa errada na boca. A mente tenta atualizar a história; a memória emocional continua a repetir a temporada anterior. Esse atrito entre a antiga ligação e o novo estatuto é exatamente onde nasce essa sensação de suspensão.
Do ponto de vista psicológico, este estado faz todo o sentido. O cérebro está programado para previsibilidade e padrões. Qualquer transição - um novo trabalho, uma mudança de casa, luto, tornar-se pai/mãe, assumir-se, até uma mudança positiva - rebenta com esses padrões. A tua identidade antiga deixa de funcionar. A nova ainda não está estável.
Por isso, o teu sistema nervoso entra em “modo limbo”. A energia desce. A motivação fica aos pedaços. Podes sentir-te estranhamente entorpecido/a numa hora e esmagado/a na seguinte. Não é que estejas avariado/a; o teu sistema está a atualizar em segundo plano, como um download lento de software. Esse tempo de atraso é a suspensão emocional que estás a notar.
Como atravessar o limbo emocional sem te forçares
Um método prático é marcar literalmente o “entre” numa linha do tempo. Pega numa folha de papel e desenha uma linha horizontal. À esquerda, escreve o “antes”: a cidade de onde vais sair, o trabalho de que te despediste, a versão de ti que já parece desatualizada. À direita, esboça o “depois”: imagens vagas servem, algumas palavras, até cores.
Depois, no meio, escreve a data de hoje e como é, de facto, este estranho entre-lugar. Não como gostavas que fosse. Como é. “Durmo mal, preocupado/a com dinheiro, entusiasmado/a e depois culpado/a, a comer snacks esquisitos à meia-noite.” A linha do tempo dá forma ao que parece nevoeiro. O teu cérebro relaxa um pouco quando consegue ver que este limbo tem um lugar, e não é apenas um peso.
Uma armadilha comum é tentar saltar esta fase toda como se fosse um anúncio aborrecido em que podes carregar em “Saltar”. Dizes a ti mesmo/a para “ultrapassar”, atiras-te para novos projetos, novas pessoas, novas rotinas, na esperança de que a velocidade te proteja da incerteza. E depois embates em exaustão ou numa tristeza súbita e perguntas-te o que se passa contigo.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias, mas dar-te micro-momentos de honestidade ajuda. Dois minutos no duche para admitires: “Estou com medo.” Uma nota de voz para um amigo a dizer: “Sinto-me estranhamente vazio/a em relação a isto.” O limbo emocional pesa mais quando fingimos que não existe. Dar-lhe um nome, mesmo atrapalhadamente, muitas vezes amacia-o o suficiente para conseguires dormir.
Às vezes, a coisa mais corajosa que podes fazer numa estação suspensa não é avançar mais depressa, mas ficar presente tempo suficiente para ouvir o que esta pausa te está a tentar dizer.
Dá nome ao limiar
Escreve numa frase o que está a terminar e o que está a começar. Palavras claras acalmam uma mente a zumbir.Desenha uma rotina “entretanto”
Escolhe três pequenas ações repetidas - uma caminhada, uma mensagem a alguém seguro, cinco minutos a arrumar - que pertençam apenas a este tempo intermédio.Baixa o volume emocional
Em vez de perguntares “Como é que resolvo isto?”, pergunta “O que tornaria o dia de hoje 5% mais suave?” Pequenos ajustes vencem grandes reinvenções em limbo.
Viver com o meio, não apenas perseguir o depois
Este estado suspenso não é uma patologia rara reservada a eventos dramáticos. Também aparece em lugares mais silenciosos. Esperar por resultados médicos. Estar entre amizades. Já não acreditar num sonho antigo, mas ainda não ousar dizer o novo em voz alta. São estas fendas por onde uma nova identidade se infiltra, devagar, às vezes com dor, muitas vezes sem um rótulo claro.
Não tens de o romantizar. Também não tens de o combater como se fosse um inimigo. Há uma liberdade subtil que aparece quando aceitas: “Neste momento, estou entre versões de mim.” Alguns dias isso vai saber a possibilidade. Noutros, vai saber apenas a espera numa paragem de autocarro à chuva. Ambos são reais. Ambos são permitidos.
A explicação psicológica tranquiliza: a tua mente não está a falhar, está a reorganizar-se. A pergunta passa a ser menos “Como é que fujo disto?” e mais “Que tipo de pessoa estou a tornar-me enquanto espero?” Essa pergunta não tem uma resposta rápida - e talvez seja precisamente aí que a transformação se esconde.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| O limbo emocional tem um nome | A liminaridade é um estado normal de transição, não um fracasso pessoal | Reduz a autocrítica e a vergonha por “não sentir nada” |
| Marcar o entre-ajuda | Usar linhas do tempo e rótulos simples dá estrutura ao nevoeiro | Torna a experiência mais gerível e menos esmagadora |
| Pequenos rituais facilitam a passagem | Rotinas “entretanto” ancoram-te enquanto a tua identidade se atualiza | Oferece formas práticas de te sentires um pouco mais seguro/a durante a mudança |
FAQ:
- Pergunta 1 Sentir-me emocionalmente suspenso/a é um sinal de depressão?
- Pergunta 2 Quanto tempo costuma durar este estado de limbo?
- Pergunta 3 Mudanças positivas também podem desencadear esta sensação de estar “a meio”?
- Pergunta 4 E se eu me sentir preso/a e parecer que nada avança?
- Pergunta 5 Devo falar com um terapeuta sobre isto, ou passa sozinho?
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