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Índia: as cobras-rei podem estar a espalhar-se acidentalmente através dos comboios.

Polícia em uniforme descobre cobra dentro de carruagem de comboio, enquanto outro segura saco grande ao lado.

O comboio sacode ao sair da estação ao amanhecer, com as janelas ainda embaciadas da noite. Na plataforma, um vendedor de chá grita por clientes, uma criança puxa o sari da mãe, um cão vadio fareja uma pilha de comida descartada. Ninguém repara no saco de serapilheira enfiado debaixo de um banco, com a corda puída meio desatada. Ninguém ouve o ténue, seco farfalhar lá dentro.

Poucas horas depois, esse mesmo comboio atravessará florestas onde as cobras-reais ainda dominam o sub-bosque.

Um pequeno animal, aterrorizado, pode estar a viajar com os passageiros.

Quando uma cobra-real entra num comboio sem bilhete

Na linha costeira de Konkan, no oeste da Índia, as carruagens oscilam entre falésias e selva. Relances de verde passam a correr pela janela: folhas de bananeira, coqueiros, o emaranhado denso dos Gates Ocidentais. Algures lá fora, as cobras-reais movem-se quase invisíveis, caçando outras serpentes, deslizando por entre a folhada que desaparece um pouco mais a cada ano.

Quando as florestas encolhem, os carris parecem estranhamente mais próximos. E os comboios também.

Agentes de vida selvagem ao longo do troço Goa–Karnataka falam, discretamente, de um novo padrão. Uma cobra-real aparece numa aldeia onde ninguém se lembra de ter visto uma antes. Um agricultor no norte de Karnataka liga ao resgatador local de serpentes por causa de uma enorme cobra de capuz no curral, apesar de a região, em tempos, ficar fora da principal área de distribuição da espécie. As pessoas sussurram histórias de “serpentes importadas” que chegam de Goa ou de Kerala.

Depois, alguém menciona os comboios. O fluxo interminável de mercadorias, as carruagens lentas de passageiros, os vagões de carga abandonados. Sempre a mover-se, sempre a transportar mais do que aquilo que consta na guia.

Herpetólogos que acompanham cobras-reais dizem que a ideia não é fantasia. Estas serpentes são famosas por nidificarem perto de atividade humana, infiltrando-se em aquedutos antigos ou tubos de drenagem, desaparecendo em montes de entulho. Uma caixa de bananas mal fechada, um saco de arroz deixado junto a uma linha de resguardo, um vagão de mercadorias infestado de ratos estacionado durante a noite junto à orla da floresta - tudo isto são convites. Uma cobra-real em caça segue a presa, não os horários dos comboios. Um passo em falso, uma fenda num painel de madeira, e a serpente dá por si trancada dentro de uma caixa de metal que se desloca lentamente. Quando as portas se abrem, está noutro distrito. Talvez noutro estado.

Como as serpentes “apanham boleia” na rede ferroviária da Índia

Fale com pessoal ferroviário fora do registo e ouvirá a mesma frase meio a brincar: “Nestes comboios, toda a gente viaja de graça - até as serpentes.” Os comboios de mercadorias são muitas vezes carregados no escuro, com trabalhadores a correr para terminar antes de chegar a composição seguinte. Os sacos são empurrados para o lugar com botas, não com luvas. As folgas entre a carga e as paredes do vagão ficam abertas como túneis prontos a usar. Ninguém tem tempo para inspecionar cada canto.

Uma cobra-real faminta a meter-se num saco de grão à procura de ratos mal se destaca como risco no meio desse caos.

Em 2023, um resgatador de serpentes no litoral de Karnataka descreveu uma chamada que lhe ficou na memória. Um chefe de estação telefonou em pânico: passageiros tinham visto uma enorme serpente a surgir de debaixo de um compartimento geral quando o comboio parou. Quando o resgatador chegou, a serpente já tinha desaparecido para um aqueduto junto à estrada. As testemunhas descreveram as mesmas características icónicas - capuz elevado, corpo castanho-oliva, aquela postura inquietante e alerta. Cobra-real.

A população reprodutora conhecida mais próxima ficava a mais de 60 quilómetros, separada por terras agrícolas e estradas movimentadas. Para conservacionistas locais, a explicação que fazia mais sentido era também a mais estranha: a serpente provavelmente percorrera essa distância sobre carris de aço, e não através da floresta.

Investigadores apontam três ingredientes simples que tornam este tipo de “relocação acidental” mais provável. Primeiro, a rede ferroviária da Índia atravessa diretamente alguns dos últimos refúgios fortes de cobras-reais, sobretudo ao longo dos Gates Ocidentais e no Nordeste. Segundo, a perda de habitat empurra as serpentes para as margens da ferrovia: bordos de mato ralo, aquedutos, taludes cheios de lixo e roedores. Terceiro, a própria carga pode ser uma ponte. Produtos embalados, materiais de construção, até pilhas de lenha armazenadas perto da floresta. Uma cobra-real entra quando o vagão está parado, a perseguir comida ou a procurar abrigo. As portas fecham. O comboio anda. O que começou como um desvio curto torna-se uma viagem pelo país.

Viver com um passageiro invisível

Para quem vive perto dos carris, um hábito silencioso pode mudar muito: parar antes de entrar em espaços escuros e apertados. Casas junto à ferrovia, arrecadações, aquedutos, pilhas de madeira de sucata - são exatamente os locais de que ratos e serpentes gostam. Uma simples passagem de lanterna, alguns segundos de barulho, até tocar levemente no chão com um pau, avisa uma serpente escondida muito antes de se aproximar. A maioria das cobras-reais, tímidas por natureza, recuará mais depressa do que consegue reagir.

Essa pequena pausa parece aborrecida nos dias seguros e inestimável no raro dia perigoso.

Muitas famílias ao longo de rotas rurais conhecem os sinais - aquele farfalhar estranho no telhado de colmo, a forma como os cães de repente ficam em silêncio, a arrecadação misteriosa onde as galinhas nunca querem poleirar. No entanto, a vergonha muitas vezes mantém as pessoas caladas. Ninguém quer ser o vizinho que “exagerou” com uma serpente que afinal era uma inofensiva cobra-rata. Todos já passámos por isso: aquele momento em que hesita em pedir ajuda porque não quer “incomodar” ninguém.

Sejamos honestos: ninguém verifica todos os cantos escuros ou montes de tralha todos os dias. É por isso que pequenos hábitos consistentes - como limpar lixo junto às paredes e vedar fendas óbvias nas portas - importam mais do que limpezas heroicas pontuais.

Alguns grupos de conservação na Índia estão a tentar reduzir o fosso do medo com uma mensagem simples: não é preciso gostar de serpentes para evitar matá-las.

“As cobras-reais não andam à procura de humanos”, diz um educador de vida selvagem em Goa que já recolocou dezenas delas de quintas e aldeias junto à linha. “Andam à procura de outras serpentes e de tranquilidade. Encolhemos o mundo delas e depois entramos em pânico quando aparecem no que sobra.”

  • Contacte redes locais de resgate de serpentes em vez de tentar manuseá-las.
  • Pergunte ao pessoal ferroviário da sua zona se existe um protocolo para avistamentos de vida selvagem perto dos carris.
  • Mantenha as crianças afastadas de aquedutos, tubos de drenagem e vagões abandonados usados como arrecadação.
  • Reduza fatores que atraem roedores - grão espalhado, lixo aberto, ração animal deixada durante a noite.
  • Apoie comunidades que acolhem centros de resgate ou workshops de sensibilização com gestos simples: divulgar, ceder espaço, partilhar contactos.

O que acontece quando o rei das serpentes segue os nossos carris

Há uma ironia estranha na ideia de que a serpente venenosa mais icónica da Índia pode estar a expandir - ou pelo menos a deslocar - a sua presença graças aos nossos comboios. A mesma teia de aço que transporta trabalhadores migrantes, comitivas de casamento e candidatos a exames pode também estar a levar um predador de 4 metros nas sombras de um vagão de mercadorias. É uma imagem inquietante, mas também reveladora.

Se um animal tão furtivo como a cobra-real pode acabar numa viagem ferroviária involuntária, o que mais estará a mover-se connosco sem que reparemos? Sementes presas em sacos. Rãs em depósitos de água. Lagartos agarrados aos cantos de caixotes. As redes humanas tornaram-se redes ecológicas, quer alguém o tenha planeado, quer não.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Passageiros ocultos nos comboios Cobras-reais e outra vida selvagem podem entrar em áreas de carga ou de armazenamento junto aos carris e ser transportadas para longe dos seus habitats de origem. Ajuda os leitores a compreender por que razão as serpentes às vezes aparecem em locais “inesperados” perto de linhas férreas.
Hábitos diários simples Usar uma lanterna, reduzir a desordem e vigiar cantos escuros perto dos carris reduz o risco de encontros surpresa. Dá formas práticas de se sentir mais seguro sem recorrer a matar serpentes.
Resposta comunitária Redes locais de resgate, sensibilização ferroviária e protocolos partilhados transformam o medo em ação coordenada. Mostra que os leitores podem fazer parte da solução com passos pequenos e realistas.

FAQ:

  • Uma cobra-real consegue mesmo viajar longas distâncias de comboio? Sim, por acidente. Uma serpente que entra num vagão enquanto caça ou procura abrigo pode ficar trancada e ser transportada dezenas ou mesmo centenas de quilómetros antes de encontrar forma de sair.
  • Os passageiros correm um risco sério se houver uma cobra-real a bordo? Encontros diretos são raros. Estas serpentes evitam humanos e tendem a esconder-se em partes escuras e mais tranquilas dos comboios ou da carga, mas qualquer avistamento suspeito deve ser comunicado de imediato ao pessoal.
  • Porque é que as cobras-reais estariam perto dos carris? As linhas férreas muitas vezes atravessam ou delimitam os seus habitats naturais, e as margens atraem roedores e serpentes mais pequenas, o que puxa as cobras-reais para mais perto.
  • O que devo fazer se vir uma serpente grande perto de uma estação ou de um vagão? Mantenha distância, avise os outros com calma e informe responsáveis ferroviários ou equipas locais de vida selvagem/resgate de serpentes, em vez de tentar lidar com ela.
  • As cobras-reais são protegidas na Índia? Sim. Estão protegidas ao abrigo da Wildlife (Protection) Act e matá-las ou capturá-las sem autorização é ilegal e pode levar a penalizações.

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