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Segundo a psicologia, o que revela sobre si o facto de empurrar a cadeira para a mesa após a refeição?

Duas mãos a posicionar uma pequena mesa de madeira sobre um prato vazio numa cafetaria.

Este pequeno ritual, quase invisível, tende a passar despercebido. Ainda assim, os psicólogos dizem que pode refletir silenciosamente a forma como o seu cérebro está “programado”, o que orienta o seu comportamento e até como lida com o stress e com objetivos a longo prazo.

A mensagem escondida por detrás de um gesto simples

À primeira vista, encostar a cadeira depois de se levantar da mesa parece apenas boa educação. Talvez os seus pais lhe tenham ensinado a fazê-lo. Talvez seja algo esperado no seu local de trabalho. Mesmo assim, para muitas pessoas, este gesto é tão automático que mal dão por ele.

Os psicólogos defendem que estes pequenos hábitos revelam, muitas vezes, traços de personalidade mais profundos. Quando coloca a cadeira sistematicamente no sítio, a alinha com cuidado, ou até encosta a cadeira de outras pessoas, isso pode ter menos a ver com etiqueta e mais com a forma como a sua mente organiza o mundo.

Arrumar a cadeira com regularidade tende a sinalizar uma personalidade assente em estrutura, responsabilidade e atenção aos outros.

Na investigação sobre personalidade, há um traço que se destaca em particular: a conscienciosidade.

Conscienciosidade: o traço por detrás da cadeira arrumada

A conscienciosidade é um dos cinco grandes traços do conhecido modelo de personalidade “Big Five”. Os outros quatro são a abertura à experiência, a extroversão, a amabilidade e o neuroticismo (por vezes traduzido como instabilidade emocional).

Todas as pessoas têm os cinco traços, mas em níveis diferentes. O seu perfil resulta da combinação única e da intensidade de cada dimensão. Quem, instintivamente, encosta a cadeira costuma ter pontuações elevadas em conscienciosidade.

O que as pessoas conscienciosas tendem a fazer

Segundo os investigadores, uma pessoa com elevada conscienciosidade costuma apresentar:

  • um forte sentido de responsabilidade perante os outros
  • respeito por regras, normas e espaços partilhados
  • organização cuidada do seu ambiente
  • planeamento e foco em objetivos a longo prazo
  • tendência para concluir o que começa

Gestos como endireitar uma cadeira, apanhar um lenço que caiu no chão ou ajudar um empregado a tirar pratos têm um denominador comum: preferência por ordem, respeito e previsibilidade.

Encostar a cadeira é, muitas vezes, um micro-ato de responsabilidade: “Deixo este espaço como o encontrei, ou ligeiramente melhor.”

Da mesa do restaurante aos objetivos de vida

Este traço de personalidade não fica à beira da mesa. A conscienciosidade influencia a forma como alguém faz escolhas, reage à tentação e persegue metas a longo prazo.

Investigação destacada em revistas de psicologia sugere que pessoas conscienciosas têm mais probabilidade de:

  • ponderar prós e contras antes de agir
  • adiar a gratificação em troca de benefícios futuros
  • manter rotinas, planos de estudo ou horários de treino
  • definir objetivos realistas e acompanhar o progresso

A mesma mentalidade que leva alguém a encostar a cadeira com cuidado pode surgir na gestão da carreira, das finanças ou da saúde. A ordem à mesa pode espelhar a ordem na agenda, na caixa de correio eletrónico e no orçamento.

Autocontrolo e propensão para o risco

Pessoas conscienciosas tendem a ser melhores na autorregulação, isto é, conseguem gerir impulsos e emoções com mais controlo. Raramente agem ao sabor do primeiro impulso que lhes ocorre.

Uma conscienciosidade mais elevada está associada a menores taxas de comportamentos de risco, como consumo excessivo de álcool ou tabagismo.

Isto não significa que uma pessoa organizada nunca festeje ou nunca erre. Significa, antes, que costuma pensar nas consequências antes de ir longe demais. A voz interior tende a dizer: “Isto é mesmo uma boa ideia para o meu eu do futuro?”

No trabalho: o perfil da “cadeira arrumada” no escritório

Estudos realizados nos Estados Unidos e noutros países concluíram que a conscienciosidade é um forte preditor do comportamento no trabalho. Pessoas com pontuações elevadas neste traço são muitas vezes vistas como “apostas seguras” em contextos profissionais.

Aspeto do trabalho Como uma pessoa conscienciosa costuma agir
Assiduidade Geralmente pontual, raramente falha prazos ou reuniões
Organização Mantém ficheiros, e-mails e tarefas arrumados e fáceis de acompanhar
Fiabilidade Cumpre o que promete e prepara-se com rigor
Autodisciplina Mantém o foco numa tarefa apesar das distrações

O pequeno sinal de uma cadeira encostada surge muitas vezes nas mesmas pessoas que arrumam salas de reunião, atualizam documentos partilhados de forma correta ou deixam notas claras para os colegas.

O lado menos positivo: quando a organização se torna uma prisão

Este traço traz benefícios, mas também tensões. Pessoas muito conscienciosas têm frequentemente dificuldade em ser flexíveis. Podem achar stressantes os imprevistos e ter dificuldade em largar o controlo.

No dia a dia, isto pode manifestar-se como:

  • dificuldade em relaxar quando os planos mudam à última hora
  • tendência para refazer o trabalho dos outros “como deve ser”, em vez de delegar
  • desconforto em ambientes desorganizados ou barulhentos
  • forte impulso para corrigir pequenos detalhes que outros ignoram

Quando a conscienciosidade é extremamente elevada, o perfeccionismo pode tornar-se exaustivo, tanto para a pessoa como para quem a rodeia.

Esperar que tudo fique perfeitamente alinhado, incluindo as cadeiras, pode atrasar decisões e aumentar a ansiedade. A procura de ordem, que antes reduzia o stress, começa a gerá-lo.

Ler o gesto sem o sobreinterpretar

Há um detalhe importante: um único ato não define uma personalidade inteira. Alguém pode encostar a cadeira simplesmente por hábito ou por normas culturais. Outra pessoa pode esquecer a cadeira, mas ainda assim revelar elevada conscienciosidade no trabalho ou na gestão do dinheiro.

Os psicólogos encaram estes microcomportamentos como indícios, não como sentenças. Tornam-se significativos quando fazem parte de um padrão: empilha os pratos, encosta as cadeiras, ajusta os talheres, envia e-mails a tempo, paga contas antecipadamente e planeia férias com meses de antecedência.

Cenários do quotidiano que revelam o traço

Imagine algumas situações comuns:

  • Num café, uma pessoa deixa a mesa caótica. Outra faz uma pausa, junta os guardanapos, endireita a cadeira e sorri ao empregado.
  • No escritório, um colega é sempre o último a sair da sala de reuniões, garantindo que as cadeiras ficam alinhadas e que o projetor é desligado.
  • Em jantares de família, um dos irmãos levanta-se automaticamente para arrumar a mesa, encosta as cadeiras e verifica a bancada da cozinha antes de se sentar novamente.

Em cada caso, o comportamento reflete não apenas educação, mas uma tendência estável para assumir responsabilidade pelos espaços comuns.

Conclusões práticas: usar a ideia sem se julgar

Saber que algo tão pequeno como encostar uma cadeira pode sugerir conscienciosidade dá-lhe uma ferramenta de auto-observação, não um rótulo para usar para sempre. Pode aplicar esta perceção de formas práticas:

  • Se raramente arruma o seu espaço, pode praticar uma pequena ação de organização por dia para reforçar o seu sentido de estrutura.
  • Se arruma tudo sempre, pode ocasionalmente deixar um detalhe não crítico imperfeito para treinar a sua tolerância à incerteza.
  • Em equipas, reparar em quem cuida naturalmente dos espaços partilhados pode ajudar a distribuir funções ligadas a logística ou coordenação.

Para quem tem curiosidade sobre a terminologia, “autorregulação” surge frequentemente nesta investigação. Significa, simplesmente, a capacidade de gerir as suas reações - da raiva ao desejo - sem ser totalmente controlado por elas. Pessoas conscienciosas tendem a pontuar alto nesta dimensão, o que ajuda a explicar por que razão os seus hábitos diários parecem calmos e organizados.

Da próxima vez que se levantar de uma mesa, talvez se apanhe no próprio gesto. Vai embora sem pensar, encosta a cadeira com precisão quase militar, ou faz algo pelo meio? Esse pequeno movimento não o define, mas pode iniciar uma conversa honesta consigo próprio sobre como lida com a ordem, a responsabilidade e os pequenos rastos que deixa para trás.

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