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A psicologia explica porque quem cresceu nas décadas de 60 e 70 desenvolveu sete forças psicológicas, hoje vistas mais como trauma do que resiliência.

Idosa segura foto antiga, sentada numa sala com um homem ao fundo. Há um copo e um caderno na mesa.

A sala fica em silêncio quando alguém nascido em 1963 diz: «Bem, quando eu era miúdo, pegávamos nas bicicletas e desaparecíamos até ao jantar.»
Vê-se os rostos de pessoas nascidas depois de 1990 a oscilarem entre fascínio e um ligeiro horror. Sem telemóvel, sem capacetes, sem GPS, sem pais a acompanhar cada passo. Apenas uma regra vaga: estar em casa antes de escurecer.

Quem cresceu nos anos 60 e 70 traz esta mistura estranha de dureza e ternura. Aprenderam a levantar-se depressa, engolir os sentimentos e seguir em frente. Hoje, um terapeuta poderia escrever «ferida de vinculação» ou «negligência emocional» numa ficha onde, nessa altura, as pessoas diziam apenas: «É a vida.»

A reviravolta é desconcertante.
O que hoje alguns chamam trauma, outrora passava por treino.

As sete “forças” que os anos 60 e 70 instalaram silenciosamente

Percorra as redes sociais e encontrará millennials e Gen Z a dissecarem a infância com vocabulário psicológico. Depois fala com alguém criado por um veterano da Segunda Guerra Mundial ou por uma mãe que fazia dois trabalhos em 1974, e a resposta é um encolher de ombros: «Nós aguentávamos.»

Esse aguentar não era aleatório. Forjou sete traços recorrentes: hiper-independência, entorpecimento emocional, tolerância ao conflito, lealdade a qualquer custo, responsabilidade estoica, necessidade de agradar e uma estranha capacidade de «simplesmente seguir em frente».

Isto, antes, parecia ouro no trabalho e nas famílias.
Agora, é cada vez mais assinalado como estratégias de sobrevivência num clima emocional mais duro.

Imagine uma criança de 10 anos em 1971. Vai sozinha para a escola. Se se esquece do almoço, passa fome ou troca com um colega. Se sofre bullying, o professor pode dizer: «Responde» ou «Ignora-os». Em casa, os pais estão cansados, stressados, talvez a fumar compulsivamente na cozinha, a ver as notícias da noite sobre o Vietname ou greves locais.

Os psicólogos chamam hoje a isto «autonomia precoce com subapoio emocional».
Na altura, chamava-se apenas crescer. A criança aprende a não incomodar os adultos, a não chorar demasiado e a não esperar que alguém venha resgatá-la do tédio ou do desconforto.

Do ponto de vista clínico, esse ambiente ativa sistemas de stress cedo e muitas vezes. O sistema nervoso da criança adapta-se desvalorizando necessidades emocionais e desenvolvendo em excesso a autossuficiência. É assim que nasce a hiper-independência.

O que chefias nos anos 90 elogiavam como «iniciativa» muitas vezes vinha de nunca ter sido permitido apoiar-se em ninguém. O mesmo acontece com a responsabilidade estoica: pais a dizerem a uma criança de nove anos «Agora és o homem da casa» transferem encargos de adulto para um cérebro infantil ainda em construção.

A psicologia não nega a força que daí pode nascer.
Apenas aponta o custo escondido por dentro.

Da resiliência ao trauma: como a narrativa se inverte nos consultórios

Pergunte a um terapeuta o que ouve de adultos que foram crianças nos anos 60 e 70 e o padrão repete-se.
«Estou bem, a minha infância foi normal. Os meus pais trabalhavam muito. Fizeram o melhor que podiam.» E depois, duas sessões mais tarde, aparecem lágrimas quando descrevem nunca terem sido abraçados, terem vivido aterrorizados com a raiva do pai, ou terem ouvido «pára de choramingar» quando estavam genuinamente com medo.

Um método concreto que muitos psicólogos usam com esta geração é simples: perguntam «Dirias as mesmas coisas ao teu eu de 8 anos?» É aí que a armadura racha. O adulto reconhece de repente que aquilo a que chamou dureza era, muitas vezes, uma criança em modo de sobrevivência.

Veja-se a Maria, nascida em 1968. Orgulha-se de nunca faltar por doença, nunca pedir ajuda, ficar até tarde no trabalho, dizer que sim sempre que a família precisa. No papel, é uma heroína. Por dentro, está exausta, ressentida e silenciosamente deprimida.
A terapeuta mapeia as sete “forças” dela: aguenta conflitos, não se desfaz com críticas, é leal para lá do razoável, põe todos os outros em primeiro lugar.

Depois vem uma pergunta pequena e cortante: «Quando é que aprendeste pela primeira vez que as tuas necessidades não importavam?»
A Maria lembra-se de ter 7 anos, a fazer o jantar enquanto a mãe estava deitada no escuro e o pai trabalhava de noite.

A psicologia reenquadra traços como os da Maria como adaptações protetoras. A necessidade de agradar é muitas vezes a melhor aposta de uma criança para manter adultos instáveis calmos. O entorpecimento emocional é um escudo quando há gritos, álcool, ou uma tristeza profunda e não dita em casa.

A linguagem atual do trauma não serve para julgar os pais dessa época; muitos passaram por guerra, crise económica ou convulsão social. Realça como as crianças absorveram esse stress no sistema nervoso. As mesmas sete forças que lhes permitiram ter sucesso na carreira podem sabotar intimidade, parentalidade e até saúde física décadas depois.

Sejamos honestos: ninguém faz esta auditoria emocional todos os dias.
A maioria sente apenas um peso difuso e chama-lhe «envelhecer».

O que fazer quando a tua “força” é, na verdade, uma cicatriz que ganhou músculo

Há um exercício prático que muitos psicólogos sugerem a pessoas criadas nos anos 60 e 70.
Escolha uma das suas supostas forças e escreva-a no topo de uma página: «Nunca dependo de ninguém», ou «Fico sempre calmo em crise», ou «Aguento muita crítica». Depois, por baixo, responda a três perguntas:

  • Quando é que eu precisei disto pela primeira vez?
  • Como é que isto me serve agora?
  • Onde é que isto, silenciosamente, me magoa?

Isto abranda o orgulho automático e deixa entrar nuance. Começa a perceber que a tua famosa cabeça fria em conflito pode ser dissociação de baixo grau, e não apenas «ser o racional».

Um erro comum é passar de um extremo ao outro. Algumas pessoas leem sobre trauma e, de repente, classificam toda a infância como catastrófica, cortando qualquer apreço pelo que correu bem. Outras agarram-se com ferocidade à história antiga: «Eu fiquei bem, deixem-se de dramatismos.»

Ambas as posições bloqueiam a cura. O terreno fértil está no meio. Pode honrar a garra que o teu eu mais novo desenvolveu e admitir que nenhuma criança deveria ter tido de ser tão forte. Não estás a trair os teus pais por dizeres toda a verdade da tua experiência.

A autocompaixão aqui não é fofinha. É reparação estrutural numa casa batida pelo tempo durante décadas.

A psicóloga Lindsay Gibson descreve muitos pais dos anos 60 e 70 como «adultos emocionalmente imaturos a fazer o melhor que podiam num mundo que não falava a linguagem dos sentimentos».
Os filhos adaptaram-se brilhantemente. A fatura dessa brilhante adaptação simplesmente chega mais tarde na vida.

  • Hiper-independência
    Experimente uma pequena dependência por semana: pedir boleia, admitir que está cansado, deixar outra pessoa decidir o jantar. Repare na ansiedade que sobe, sem se envergonhar por isso.
  • Entorpecimento emocional
    Faça um “check-in” diário de 5 minutos e nomeie três sensações no corpo. Isto reabre suavemente canais que tiveram de fechar para sobreviver.
  • Tolerância ao conflito
    Em vez de se gabar de que «aguenta tudo», pergunte: que conflitos me drenam e já não valem a pena suportar?
  • Lealdade a qualquer custo
    Identifique onde a lealdade virou auto-traição: trabalhos que já ultrapassou, relações mantidas por culpa, não por amor.
  • Responsabilidade estoica e necessidade de agradar
    Experimente pequenas desilusões: diga que não uma vez por semana e observe como o mundo não se desmorona.

Viver com as duas histórias ao mesmo tempo

Há uma revolução silenciosa a acontecer às mesas de família. Filhos adultos nos seus 50 e 60 anos começam a dizer: «Sabes, eu tinha muito medo naquela altura», a pais que ficam chocados ou confusos. Ou esses pais já partiram, e a conversa acontece com irmãos, amigos, ou no consultório de um terapeuta.

A lente psicológica de 2026 não apaga o contexto dos anos 60 e 70. As cidades eram mais duras, a saúde mental raramente era discutida, muitos pais estavam emocionalmente congelados pelas suas próprias infâncias, muitas mães presas entre liberdades novas e expectativas antigas. As sete forças forjadas nessa época continuam úteis em crises, no trabalho, no ativismo, no cuidado de outros.

A mudança é que já não romantizamos a resistência constante. Reparamos quando a resiliência se transforma em auto-anulação. Podemos admirar a criança que ia sozinha para a escola e, ao mesmo tempo, perguntar porque é que nenhum adulto caminhava ao lado dela às vezes.

Curar, para muitos dessa geração, significa permitir ambas as verdades.
Sim, és forte. Sim, também foste ferido. Uma coisa não anula a outra.

Quando as pessoas começam a contar estas histórias mais completas, acontece outra coisa: as gerações mais novas escutam de forma diferente. Deixam de ver os pais como alienígenas emocionalmente distantes e começam a reconhecer estratégias de sobrevivência no contexto. Alguns dirão: «Achei que não te importavas.» Outros ouvirão: «Eu estava a fazer o melhor que podia com ferramentas que ninguém me ensinou.»

Esse espaço entre o que foi pretendido e o que foi sentido é onde a reparação pode crescer.
E é aí que essas sete forças finalmente podem respirar, sem ter de provar nada.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Sete forças como adaptações Traços como hiper-independência, estoicismo e necessidade de agradar começaram muitas vezes como estratégias de sobrevivência na infância Ajuda a reenquadrar “personalidade” como algo aprendido, não como algo imutável
Trauma e resiliência podem coexistir As mesmas experiências que construíram dureza também deixaram cicatrizes emocionais Dá permissão para honrar garra e dor sem invalidar nenhuma
Pequenas experiências práticas Passos suaves como pedir ajuda, dizer não, ou notar sensações corporais Oferece formas concretas de começar a curar sem mudanças avassaladoras

FAQ:

  • Pergunta 1 Como sei se a minha “força” é, na verdade, uma resposta ao trauma?
    Olhe para o custo. Se um traço parece compulsivo, o deixa esgotado, ou prejudica relações, provavelmente começou como proteção e não como escolha livre.
  • Pergunta 2 Posso apreciar os meus pais e, ainda assim, nomear a minha infância como traumática?
    Sim. Pode reconhecer o esforço e o contexto deles e, ao mesmo tempo, admitir que algumas necessidades suas ficaram por atender e deixaram marcas.
  • Pergunta 3 É tarde demais para mudar se estou nos meus 50, 60 ou 70 anos?
    Não. O cérebro mantém plasticidade. A mudança pode ser mais lenta, mas mesmo pequenos ajustes emocionais podem transformar a forma como se relaciona consigo e com os outros.
  • Pergunta 4 Que tipo de terapia ajuda com este padrão geracional?
    Abordagens centradas na vinculação, trabalho com a criança interior, ou terapia informada pelo trauma (como EMDR ou terapias somáticas) tendem a encaixar bem com este historial.
  • Pergunta 5 Como posso falar sobre isto com os meus próprios filhos adultos?
    Comece pela sua história, não pelo comportamento deles. Partilhe o que viveu e o que está a aprender agora, e convide a curiosidade em vez da defensiva.

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