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Uma tendência entre seniores: “Chamam-nos ‘cumulantes’, mas trabalhar após a reforma é como conseguimos viver.”

Idosa sorridente escrevendo num caderno ao lado de um saco de pão na mesa, com plantas ao fundo.

Às 6h45, o café já está a pingar na minúscula cozinha de um supermercado de subúrbio. Atrás do balcão, a mulher que coloca cuidadosamente croissants numa vitrina de plástico não é estudante. Tem 72 anos. Chama-se Denise, ex-assistente administrativa, dois netos, uma reforma pequena que não estica tanto quanto as contas. Ri-se quando os colegas lhe chamam “avó turbo”, mas quando olha para o preço da manteiga, o sorriso esmorece um pouco.

“Chamam-nos os cumulantes”, diz ela, limpando as mãos ao avental. Pessoas que “acumulam” reforma e trabalho. Os que supostamente deviam abrandar, viajar, brincar com os netos. Em vez disso, estão de volta aos turnos da madrugada, às caixas, às carrinhas de entregas.

Encolhe os ombros, olhar atento.

“Não estou a trabalhar por diversão”, diz. “Estou a trabalhar para não ir ao fundo.”

E está longe de estar sozinha.

Uma geração a quem prometeram descanso… e recebeu um segundo emprego

No papel, estão “reformados”. No terreno, vêem-se por todo o lado. Na receção de clínicas médicas, a validar bilhetes em estádios, a repor prateleiras ao fim da tarde, a dar explicações de línguas por videochamada. Têm 65, 70, por vezes 75 ou mais.

Movem-se um pouco mais devagar, mas os dias são muitas vezes mais cheios do que quando tinham um “emprego a sério”. Alguns usam o distintivo de “cumulante” com orgulho, como quem diz: ainda estou no jogo. Outros sentem-se mais como artistas de circo numa corda bamba entre a saúde, a família e a próxima fatura da eletricidade.

O que antes era raro transformou-se, discretamente, num estilo de vida.

Veja-se o André, 69 anos, ex-operário fabril no Norte de França. Após 43 anos de descontos, achou que tinha merecido o sofá e longas pescarias. Reforma: 1.320 € por mês. Renda: 780 €. As contas não batiam certo.

Hoje, três manhãs por semana, entrega encomendas para uma plataforma online. Carro pequeno, app no telemóvel, GPS em que mal confia. Começa às 5h30 e termina antes do almoço. “À tarde estou oficialmente reformado”, brinca.

No ano passado, segundo vários estudos nacionais, o número de reformados que declararam atividade remunerada aumentou acentuadamente. Por trás dessa estatística seca estão pessoas como o André, a contar moedas na caixa multibanco antes de tirar conclusões.

Porquê este aumento? Uma mistura de maior esperança de vida, subida do custo de vida e carreiras que nem sempre foram lineares ou totalmente declaradas. Muitos baby boomers tiveram interrupções, part-times, ou períodos de trabalho por conta própria que não geraram grandes reformas.

Some-se a isso rendas, alimentação e energia a disparar, e a sensação de que, cada vez que vão ao supermercado, o dinheiro encolhe. A reforma, na cabeça deles, devia ser uma pista de aterragem. Transformou-se num trampolim de volta à correria.

Há também um lado mental: necessidade de se sentirem úteis, de socializar, de estruturar os dias. A linha entre “ter de trabalhar” e “querer manter-se ativo” mistura-se muitas vezes nos seus relatos.

Como os seniores reinventam o trabalho… sem entrar em exaustão

Quem melhor se safa é quem reescreve as regras do trabalho à sua medida. Não procuram uma cópia do emprego antigo. Procuram tarefas mais leves e flexíveis: alguns dias na receção, vigilância de exames, pet sitting, explicações, apoio sazonal à beira-mar.

O primeiro passo que muitos descrevem não é enviar um CV, mas pegar numa folha em branco e escrever duas listas: “O que o meu corpo ainda aguenta” e “O que recuso completamente fazer agora”. Chega de turnos noturnos, chega de chefias tóxicas, chega de semanas de 50 horas.

Depois vem a segunda lista: “O que eu secretamente gosto.” Falar com pessoas, organizar coisas, conduzir, cozinhar, trabalhos manuais. Destas poucas palavras nascem, muitas vezes, pequenos empregos pós-reforma.

Muitos seniores admitem que cometeram um erro clássico ao início: dizer sim a tudo. Por medo. Por lealdade. Por hábito. O part-time quase virou full-time. Dois biscates sobrepuseram-se de repente, deixando-os exaustos, culpados e irritadiços com a família.

Sejamos honestos: quase ninguém lê cada linha do contrato quando vê os euros a evaporarem-se. E, no entanto, são os limites que protegem este equilíbrio precário entre sobrevivência e dignidade.

Os reformados mais lúcidos que conheci falam do tempo como outros falam do dinheiro: “Não, não posso dar-te essa manhã, preciso dela para mim.” Aprenderam a dizer não sem pedir desculpa. Não é fácil para uma geração educada a “estar grata por ter trabalho”.

A carga emocional é pesada. O orgulho e a vergonha às vezes sentam-se na mesma mesa. Alguns filhos apoiam, outros ficam secretamente zangados por ver os pais “obrigados a voltar a trabalhar”.

Uma enfermeira reformada resumiu tudo numa frase:

“Não quero que os meus netos se lembrem de mim como a avó que estava sempre a correr para o segundo turno.”

Para aguentar, muitos cumulantes inventam o seu próprio kit de sobrevivência:

  • Escolher trabalhos perto de casa para evitar grandes deslocações
  • Marcar um dia totalmente livre por semana, sem “urgências”
  • Pôr de lado um pequeno envelope de “mimo” de cada salário, nem que sejam 10 €
  • Falar abertamente com amigos da mesma idade sobre cansaço e preocupações
  • Reavaliar regularmente: “Este trabalho ainda faz sentido para mim?”

Por vezes, o ato mais radical é aceitar trabalhar menos e viver um pouco mais - mesmo que a calculadora proteste.

Entre a obrigação e a escolha, surge um novo estilo de vida sénior

Pouco a pouco, isto está a desenhar um novo panorama. Chefes de supermercado que procuram especificamente “reformados responsáveis” para turnos de fim de semana. Startups que anunciam com orgulho “embaixadores +60”. Bairros onde a clientela do café a meio da manhã se divide entre pensionistas a tempo inteiro e aqueles que consultam a agenda numa app de entregas.

Para uns, isto é chocante. Para outros, parece quase lógico: vivemos mais, trabalhamos mais. Mas a realidade é mais complexa. Por trás da palavra da moda “trabalhadores prateados” está uma verdade mais dura: trabalhar depois da reforma é, para muitos, um escudo contra o medo de cair na pobreza.

Ao mesmo tempo, este movimento está a redesenhar a imagem do que é “ser velho”. Menos cadeira de baloiço, mais passe de autocarro e crachá. Menos retirada, mais micro-compromissos espalhados pela semana.

Há também uma subtil mudança cultural. Os colegas mais novos habituam-se a ter um companheiro de 68 anos que faz a caixa melhor do que eles. As crianças crescem com avós que falam do “meu turno de terça-feira” em vez do “meu clube de bridge”.

Alguns destes seniores dizem, quase com surpresa, que voltar a trabalhar lhes devolveu uma vida social que tinham perdido. Pausas para café, piadas internas, pequenas alianças, aquele ritmo familiar de local de trabalho. E sim, também dores nas costas à noite e despertadores que preferiam atirar contra a parede.

Uma verdade simples sobressai: envelhecer passou a ser menos sobre retirar-se e mais sobre fazer malabarismos - saúde, contas, vontade e cansaço.

Por isso, quando dizem, com meio sorriso, “Chamam-nos os cumulantes”, há ali um toque de desafio. Um resto de orgulho. Um pouco de exaustão também.

Talvez um dia olhemos para trás e vejamos este período como uma estranha era de transição. O tempo em que a reforma deixou de ser claramente uma chegada e ainda não era uma nova etapa de vida, bem definida.

Por agora, a pergunta fica no ar, discretamente inquietante: se as pessoas que trabalharam a vida inteira não conseguem parar de trabalhar… o que é que isso diz sobre o mundo que estamos a construir - e aquele em que vamos envelhecer?

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
A acumulação entre reforma e trabalho está a aumentar Mais seniores misturam pensões com trabalhos flexíveis ou pequenos empregos para cobrir despesas básicas Ajuda os leitores a compreender esta realidade social e económica em rápido crescimento
Definir limites protege a saúde Escolher tarefas mais leves, dias fixos de descanso e dizer não à sobrecarga Oferece estratégias concretas para seniores e famílias evitarem o esgotamento
O trabalho ainda pode dar sentido Para além do dinheiro, muitos reformados encontram laços sociais e identidade na continuidade da atividade Convida a uma visão mais nuanceada sobre envelhecimento, trabalho e dignidade

Perguntas frequentes (FAQ)

  • É legal trabalhar enquanto se recebe uma pensão? Sim, em muitos países os reformados podem legalmente acumular pensão e trabalho remunerado, mas existem frequentemente tetos de rendimento ou regras específicas consoante o regime de pensões e a idade.
  • Trabalhar depois da reforma vai reduzir a minha pensão? Depende das regras nacionais e do tipo de pensão. Por vezes, rendimentos acima de um determinado limiar podem reduzir temporariamente as prestações, pelo que é prudente confirmar com a entidade gestora da pensão ou com um técnico antes de assinar um contrato.
  • Que tipos de trabalho são mais adequados para seniores? Turnos curtos e regulares e com baixa exigência física tendem a funcionar melhor: receção, explicações, tarefas administrativas, vigilância de exames, entregas locais, apoio em loja ou funções de apoio online.
  • Como posso evitar ser explorado enquanto trabalhador sénior? Recuse trabalho não declarado, peça contratos por escrito, clarifique horários e respeite aquilo que o seu corpo aguenta. Falar abertamente com o seu médico e a família sobre o cansaço é uma forma discreta de proteção.
  • E se eu não quiser trabalhar, mas a minha reforma não chegar? Pode explorar apoios sociais, ajuda à habitação, mediação de dívidas e redes de solidariedade antes de aceitar trabalho extra. Algumas pessoas combinam uma atividade remunerada mais leve com aconselhamento financeiro para reequilibrar o orçamento ao longo do tempo.

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