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Equipas de psicologia identificam três preferências de cor associadas à baixa autoconfiança.

Mulher examina tecido bege ao lado de um espelho e um livro de amostras de cores numa mesa iluminada.

A terapeuta pediu-lhe que descrevesse a sua semana “em cores”.
Sem pensar, a Emma disparou: “Preto no trabalho, bege em casa e um bocadinho de rosa pastel quando vejo os meus amigos.” Depois riu-se, envergonhada, como se tivesse revelado demasiado. A psicóloga não se riu. Pegou num caderno e apontou, com delicadeza, algo que a Emma nunca tinha ligado: essas mesmas três tonalidades apareciam na roupa, no quarto e até nos destaques do Instagram.

Adoramos dizer “a minha cor preferida é…” como se fosse só um gosto, uma mania, nada de sério. Mas psicólogos que trabalham com autoestima continuam a notar o mesmo padrão silencioso.

Três preferências de cor recorrentes que, muitas vezes, andam de mãos dadas com uma autoconfiança frágil.

Quando as cores espelham, em silêncio, uma confiança instável

Passe uma manhã em qualquer café cheio e vai reconhecer a paleta de imediato. A pessoa curvada sobre o portátil, num hoodie preto oversized. A colega em bege permanente, a misturar-se com a parede do escritório. A amiga que se esconde atrás de pastéis suaves, sempre “querida”, nunca ousada.

Estas escolhas não são aleatórias - pelo menos, não para toda a gente. Algumas equipas de psicologia que estudam preferências de cor e autoestima voltam sempre ao mesmo trio: preto profundo, neutros “seguros” e pastéis ultra-suaves usados quase como armadura emocional.

Não gritam sofrimento. Sussurram: “Não olhes muito de perto.”

Veja-se o Lucas, 32 anos, consultor, que brinca dizendo que tem “32 T-shirts pretas iguais”. Durante anos, achou que era minimalismo. Em terapia por burnout, a psicóloga perguntou quando é que aquele uniforme preto tinha começado. Ele percebeu que começou depois de uma avaliação de desempenho brutal, em que se sentiu humilhado à frente da equipa.

Desde então, nada de cores vivas. Nada de padrões experimentais. Só preto. Fácil de combinar, impossível de notar como pessoa. Estudos sobre autoapresentação mostram que, quando a autoconfiança desce, as pessoas muitas vezes mudam para cores que reduzem a visibilidade e o risco percebido de serem julgadas.

O Lucas achava que estava a escolher simplicidade. Por baixo, estava a escolher invisibilidade.

De um ponto de vista psicológico, a cor funciona como uma atualização de estado não verbal. O preto profundo, usado todos os dias, não “emagrece apenas a silhueta”. Também envia uma mensagem subtil de retraimento e proteção.

O bege e o greige, quando dominam o guarda-roupa e o espaço de casa, podem traduzir-se em “neutralidade a qualquer custo” - uma tentativa quase desesperada de não incomodar ninguém. Mundos ultra-pastel, todos em rosa blush e azul bebé suave, por vezes refletem o desejo de ficar num registo seguro e infantil, onde as expectativas parecem mais baixas e o conflito menos provável.

Nada disto prova, por si só, baixa autoestima. No entanto, quando estas cores se repetem de forma obsessiva, os psicólogos começam a perguntar: de que é que estás a tentar não ser visto?

As três paletas “suspeitas” que os terapeutas continuam a notar

A primeira preferência recorrente é o preto monocromático usado como resposta universal. Dos pés à cabeça, dia após dia, estação após estação. Não o “all-black” estiloso de um conjunto pensado, mas o preto automático de quem não quer pensar, não quer ousar, não quer estar errado.

Os terapeutas ouvem muitas vezes as mesmas frases: “O preto esconde tudo.” “Não fico bem com cores.” “Não sei o que me assenta, por isso fico por aqui.” Por trás dessas frases, há frequentemente um medo de ser avaliado. Uma camisa branca parece um teste. Um casaco vermelho parece um risco.

O preto, neste contexto, não é drama. É esconder.

O segundo padrão é o reinado do bege, do greige e desses neutros deslavados que engolem qualquer contraste. Imagine o apartamento que parece exatamente um catálogo de mobiliário: sofá cor de areia, tapete cor de aveia, almofadas taupe, paredes branco-sujo, nada pessoal à vista.

No papel, é “calmo” e “limpo”. Na vida real, alguns psicólogos veem esta paleta aparecer em pessoas que têm pavor de tomar posição. Têm medo de ser “demais”, por isso tornam-se quase nada, visualmente. O guarda-roupa acompanha: casaco camel, malha bege, sapatos nude, dia após dia.

Uma cliente descreveu o seu aspeto de um modo que foi certeiro: “Visto-me como o fundo das fotografias dos outros.”

O terceiro conjunto é o casulo pastel: rosa pálido, azul bebé, lilás, menta, tudo em doses delicadas - mas em todo o lado. Capa do telemóvel, pijamas, cadernos, paredes do quarto. Parece suave, amoroso, “seguro”.

Não há nada de errado em gostar de pastéis. O problema começa quando não é permitida mais nenhuma intensidade. Alguns psicólogos associam isto a uma relação frágil com a idade adulta. Uma parte da pessoa não ousa plenamente ocupar o espaço adulto - com opiniões fortes, limites claros e, sim, por vezes cores marcantes. Os pastéis tornam-se então uma forma visual de permanecer “doce”, não ameaçadora, sempre agradável.

É uma forma de pedir ternura sem ter de a pedir com palavras.

Como recuperar, devagar, as suas cores (e o seu lugar)

Um método suave que alguns psicólogos sugerem é a “semana da experiência da cor”. Não deita nada fora, não reinventa o estilo. Simplesmente escolhe uma cor um pouco mais arrojada e introduz-a, todos os dias, de forma pequena e com baixo risco.

Uma caneca azul cobalto em vez da preta. Um cachecol cor ferrugem com o seu casaco bege habitual. Lençóis verde-floresta a substituir o cinzento. Um item pequeno de cada vez, nada dramático. Assim, o seu sistema nervoso aprende que acrescentar cor visível não traz, automaticamente, gozo, rejeição ou perda de controlo.

É menos sobre moda e mais sobre microexposição à visibilidade.

Há uma armadilha em que muita gente cai: tentar “arranjar” a autoestima atacando o guarda-roupa num único fim de semana brutal. Sacos enormes para doação, roupa nova em cores agressivas que não lhes parecem “eles”, uma “reinvenção” completa.

Sejamos honestos: ninguém consegue sustentar esse tipo de transformação de um dia para o outro. O choque é tão grande que, à primeira reunião stressante, voltam a correr para o hoodie preto ou para a camisola bege. Um psicólogo preferia vê-lo manter as suas calças de ganga pretas favoritas e apenas acrescentar um top ligeiramente mais vivo uma vez por semana.

Respeitar o seu próprio ritmo não é fraqueza. É a única forma de esta mudança ficar.

A psicóloga das cores Angela Wright resumiu uma vez assim: “As cores que evita dizem muitas vezes tanto sobre os seus medos como as cores que escolhe. Quando as pessoas se sentem mais seguras em si mesmas, a sua paleta alarga-se, em silêncio, por si só.”

  • Repare nos seus padrões automáticos
    Abra o armário e a galeria de fotos. Diga quais são as três cores que dominam tudo.
  • Experimente um novo tom de cada vez
    Os acessórios contam: um porta-chaves, um caderno, um par de meias - chega para começar.
  • Registe como se sente, não como fica
    Pergunte: “Esta cor mudou a forma como agi hoje?” em vez de “Fiquei bem?”
  • Peça uma opinião de confiança
    Pergunte a um amigo: “Que cor me faz parecer mais eu?” Depois fique com essa resposta.
  • Use a cor como pergunta, não como veredito
    Em vez de “O preto significa que me odeio”, experimente: “De que é que esta fase preta me poderá estar a proteger?”

Quando a sua paleta começa a contar uma história diferente

Quando começa a prestar atenção, a ligação entre cores e autoconfiança torna-se estranhamente íntima. Repara como os seus “dias de preto” coincidem com momentos de dúvida. Como escolhe o bege quando vai estar com pessoas que o intimidam. Como a sweatshirt pastel aparece sempre que tem medo de desiludir alguém e quer parecer “inofensivo”.

Isto não significa que tenha de banir estas cores. Significa que fica curioso. Começa a perguntar: “Que versão de mim é que está a escolher isto hoje?” Nessa pergunta, algo se solta. De repente, a roupa e a casa deixam de ser uma identidade estática e passam a ser um diário vivo de quão seguro se sente no mundo.

Alguns leitores reconhecer-se-ão no preto monocromático, outros no nevoeiro bege, outros na nuvem pastel. Cada uma destas preferências pode evoluir. Uma única risca de cor no punho. Uma almofada mais viva na sala. Um verniz que surpreende até a si.

Às vezes, o dia em que ousa um camisola vermelha escura é também o dia em que responde de forma diferente numa reunião, ou diz “não” com um pouco mais de clareza. E percebe que as suas cores nunca foram um detalhe trivial. Eram um espaço de ensaio para a pessoa em que se está a tornar.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Preto como proteção Preto repetido dos pés à cabeça pode sinalizar uma estratégia para se esconder e evitar julgamentos Ajuda a questionar se o “uniforme” é minimalista… ou defensivo
Bege e pastéis como autoapagamento Uso excessivo de neutros e tons ultra-suaves pode refletir medo de se destacar ou de crescer Oferece uma nova lente sobre escolhas de decoração e guarda-roupa ligadas à autoestima
Microexperiências com cor Introduzir pequenas doses geríveis de novas cores no dia a dia Dá uma forma concreta e sem pressão para esticar a confiança, com suavidade

FAQ:

  • Pergunta 1: Gostar de preto significa automaticamente que tenho baixa autoestima?
  • Resposta 1
  • Não. Gostar de preto não é um diagnóstico. Os psicólogos ficam curiosos quando o preto é a única opção em que se sente seguro, e quando a ideia de vestir outra coisa desencadeia ansiedade, vergonha ou a sensação de estar “demasiado visível”.
  • Pergunta 2: A cor pode mesmo afetar o meu humor e a minha confiança?
  • Resposta 2
  • Sim. Estudos em psicologia das cores mostram que certos tons podem influenciar o nível de ativação, a calma e a energia percebida. Mais do que isso, o significado que atribui a uma cor (“isto torna-me corajoso”, “isto esconde-me”) molda fortemente a forma como se comporta quando a usa.
  • Pergunta 3: E se eu gostar mesmo de neutros e minimalismo?
  • Resposta 3
  • É totalmente válido. A pergunta-chave é: também se sente livre para brincar, para experimentar algo mais chamativo sem pânico ou autoaversão? Uma paleta saudável pode ser maioritariamente neutra e, ainda assim, deixar espaço para experimentar quando lhe apetece.
  • Pergunta 4: Como posso começar a mudar a minha paleta sem sentir que sou um impostor?
  • Resposta 4
  • Comece com itens de baixo risco: têxteis para a casa, pequenos acessórios, roupa desportiva. Escolha uma cor que lhe desperte uma curiosidade leve e use-a em contextos onde se sente relativamente seguro, como com amigos próximos ou em casa.
  • Pergunta 5: Devo falar sobre isto com o meu terapeuta?
  • Resposta 5
  • Sim. Se as cores, a roupa ou a visibilidade têm carga emocional, pode ser uma excelente porta de entrada na terapia. Levar fotografias dos seus conjuntos ou da sua casa pode abrir conversas ricas sobre identidade, medo do julgamento e o espaço que se permite ocupar.

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