Em um espaço de co-working em Berlim, uma programadora de 26 anos chamada Lina fixa o olhar em dois ecrãs. Num deles, um trecho de código impecável. No outro, uma conversa no Slack a explodir com perguntas de colegas juniores à espera da sua resposta. Ela sabe entregar funcionalidades às 2 da manhã, sabe depurar com os olhos semicerrados. Mas liderar? Acompanhar? Dizer “não” ao seu product manager? Ninguém alguma vez lhe ensinou essa parte.
À sua volta, a sala está cheia de ambição silenciosa. Engenheiros talentosos, pessoas de produto, cientistas de dados - todos a bater numa parede que não é técnica. É humana. Cultural. Emocional.
Algures entre o potencial e o desempenho, alguma coisa continua a perder-se.
Porque é que o talento bruto não chega na tecnologia de amanhã
Entre em qualquer empresa tecnológica em crescimento acelerado e vai sentir a mesma tensão. Há especialistas brilhantes por todo o lado, de engenheiros de IA a investigadores de UX, mas surpreendentemente poucos líderes a sério. Pessoas que conseguem sustentar uma visão, acalmar uma crise e, ainda assim, entregar na sexta-feira.
O mundo tech adora venerar “rockstar devs” e “engenheiros 10x”, mas os produtos que realmente mudam mercados costumam nascer de equipas com liderança forte e centrada nas pessoas. Não apenas um fundador carismático, mas líderes intermédios e emergentes que transformam caos em clareza.
A distância entre esses dois mundos é exatamente onde o futuro da liderança tecnológica vai ser decidido.
Olhe para qualquer grande inovação da última década e encontrará o mesmo padrão. Por detrás dos slides de keynote e dos vídeos polidos de produto, havia pequenas equipas lideradas por pessoas que não eram apenas inteligentes - eram de confiança. Transformaram roadmaps vagos em compromissos honestos, lidaram com incidentes nocturnos sem esgotar toda a gente e souberam quando pressionar e quando proteger.
Uma grande fintech europeia acompanhou as promoções de engenharia ao longo de cinco anos. A descoberta surpreendente: pessoas de elevado desempenho que não desenvolveram comportamentos básicos de liderança estagnaram a meio da carreira, independentemente do brilhantismo técnico. Entretanto, engenheiros ligeiramente menos “perfeitos” que aprenderam a orientar, comunicar e negociar tornaram-se quem conduzia iniciativas críticas.
O talento abriu as primeiras portas. A liderança decidiu quem ficou na sala.
Esta mudança faz sentido quando se amplia o zoom. O software tem menos a ver com façanhas heróicas de programação a solo e muito mais com complexidade coordenada. Microserviços, equipas globais, trabalho híbrido, copilotos de IA - tudo multiplica o número de conversas, não apenas o número de commits.
Por isso, o gargalo muda. Já não é só a framework ou os custos de cloud. É a capacidade de alinhar pessoas: entre fusos horários, disciplinas e agendas. Os líderes tecnológicos de amanhã não são apenas “melhores especialistas” - são tradutores, conectores e detetores de padrões.
As empresas que entendem isto estão, em silêncio, a redesenhar a forma como fazem crescer as suas pessoas. As que não entendem estão a descobrir que alto potencial, deixado sem acompanhamento, muitas vezes se transforma em frustração silenciosa.
De contribuidor a líder: a mudança prática que ninguém explica
O primeiro passo real do potencial para o desempenho é dolorosamente simples: dar aos futuros líderes arenas pequenas e seguras para liderar antes de as apostas ficarem brutais. Não um grande título, nem um departamento inteiro - uma equipa-piloto, uma migração difícil, uma revisão de incidente com impacto no cliente. Uma missão concreta com um “porquê” claro e apoio visível.
É aí que alguém como a Lina aprende os verdadeiros músculos da liderança. Dizer: “Ainda não sei, mas vou descobrir.” Conduzir uma standup curta em que ninguém desliga a câmara. Perguntar a um júnior: “Como é que tu abordarias isto?” e esperar mesmo pela resposta.
A liderança não nasce em offsites. Nasce nas manhãs de terça-feira, em contextos confusos e meio avariados.
A armadilha em que muitas empresas caem é quase cómica. Promovem o melhor engenheiro a lead e depois… desaparecem. Sem mentoria, sem coaching, apenas “Parabéns, aqui está a tua equipa, boa sorte com o roadmap.” Todos já vimos isso: aquele momento em que um colega antes feliz passa a parecer permanentemente cansado, preso entre a pressão da gestão de topo e as expectativas dos antigos pares.
Uma startup SaaS nos EUA mudou esse guião. Antes de alguém se tornar engineering manager, faziam uma experiência de três meses como “acting lead”. A pessoa conduzia rituais, geria ciclos de feedback e participava em chamadas de planeamento - mas com permissão explícita para falhar e com um líder sénior a acompanhar de perto. Alguns adoraram e assumiram plenamente a função. Outros perceberam que preferiam um percurso técnico profundo e mantiveram-se como IC, sem qualquer estigma.
Essa experiência simples reduziu a rotatividade na gestão quase para metade.
Sejamos honestos: ninguém faz isto de forma perfeita todos os dias. A maioria das organizações fala de desenvolvimento de liderança como se fosse um currículo arrumado que se completa com checkboxes. A realidade é mais confusa. O tech lead que cancela one-on-ones durante três semanas “porque o lançamento está perto”. O product manager que nunca recebe coaching a sério, apenas mais tickets no Jira.
A mudança mais profunda é cultural. Uma verdadeira pipeline de liderança trata coaching, feedback e reflexão como trabalho normal, não como um projeto paralelo para quando o sprint está leve. Isso significa bloquear tempo no calendário para mentoria, recompensar quem desbloqueia outras pessoas e promover com base em como alguém eleva a equipa - não apenas em como fala em reviews de arquitetura.
Desempenho à escala é apenas potencial, multiplicado por estruturas saudáveis.
Mentalidades e rituais que constroem líderes tecnológicos em silêncio
Uma das formas mais fiáveis de desenvolver os líderes tecnológicos de amanhã é, surpreendentemente, pouco tecnológica: reflexão estruturada. Não do género vago “como te sentes?”, mas perguntas curtas e incisivas que transformam experiências em aprendizagem reutilizável. Depois de qualquer ciclo intenso - um release, uma falha, uma mudança de rumo - sente os futuros líderes durante 20 minutos e passe por três perguntas:
- “O que é que fizeste pessoalmente que ajudou?”
- “O que é que gostavas de ter feito de forma diferente?”
- “O que precisa de mudar no sistema, não nas pessoas?”
Repita este ritmo durante seis meses e as pessoas começam a ver padrões. Notam onde entram em pânico, onde evitam conflito, onde brilham numa crise. Essa autoconsciência é o verdadeiro upgrade.
O maior erro é transformar liderança num traço místico de personalidade. Ouvimos isso nos corredores o tempo todo: “Ela é natural” ou “Ele não tem perfil de líder.” Esse tipo de conversa congela as pessoas antes mesmo de tentarem. Liderança em tecnologia tem muito mais a ver com comportamentos aprendidos do que com carisma inato.
Outro erro frequente é promover demasiado depressa, sem expectativas claras. Um novo engineering manager torna-se, de repente, um sénior glorificado, preso em code reviews e a apagar fogos, sem tempo para contratar, orientar ou pensar estrategicamente. A culpa é real: sentem que estão a falhar com toda a gente ao mesmo tempo.
Por isso, o gesto humano é abrandar a promoção, clarificar o papel e dizer em voz alta: “Estás a aprender um ofício diferente agora.”
“Os líderes tecnológicos não são a pessoa mais barulhenta na sala. Normalmente são quem assume responsabilidade quando as coisas correm mal e, em silêncio, distribui o mérito quando correm bem”, disse-me um CTO veterano durante uma chamada a altas horas.
- Clarifique o que “boa liderança” significa no seu contexto: comportamentos que quer ver, não buzzwords vagas.
- Crie laboratórios de liderança de baixo risco: pequenas equipas, spikes ou projetos de descoberta liderados por talento emergente.
- Junte líderes aspirantes a um patrocinador sénior, não apenas a um manager, para abrir portas e dar feedback honesto.
- Recompense coaching, documentação e ajuda entre equipas nas avaliações de desempenho, não só o volume de output.
- Proteja tempo para pensar: pelo menos algumas horas por semana em que líderes não estão em reuniões nem a depurar.
Para além dos títulos: imaginar a próxima geração de liderança tecnológica
Se avançarmos cinco ou dez anos, a descrição de funções de “líder tecnológico” provavelmente será muito diferente. A IA tratará de mais código de baixo nível e de coordenação rotineira. O trabalho remoto será normal, não um benefício. A verdadeira vantagem estará com líderes que consigam combinar julgamento técnico apurado com inteligência emocional e consciência ética. Pessoas capazes de dizer: “Só porque conseguimos lançar isto, não significa que devamos” - e serem levadas a sério.
Esse futuro começa sem glamour. Com um sénior que decide ensinar em vez de guardar conhecimento. Com um responsável de produto que protege os fins de semana da equipa durante crunch. Com um fundador que investe em coaching de gestão antes da Série B, e não depois da terceira vaga de burnout.
A pipeline para os líderes tecnológicos de amanhã não vive num slide deck. Vive nestas pequenas escolhas repetíveis.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Desenvolver líderes através de missões reais | Use pequenos projetos do mundo real como arenas seguras para praticar competências de liderança | Dá-lhe uma forma concreta de testar e expandir a sua liderança sem arriscar toda a sua carreira |
| Tratar a liderança como um ofício que se aprende | Substitua conversa vaga sobre “talento” por comportamentos claros, coaching e rituais de reflexão | Ajuda a ver exatamente no que trabalhar a seguir, em vez de duvidar da sua personalidade |
| Recompensar a forma como as pessoas elevam os outros | Incluir mentoria, colaboração e melhorias de sistema nos critérios de desempenho | Alinha o seu crescimento com impacto de longo prazo, não apenas com output pessoal de curto prazo |
FAQ:
- Pergunta 1 Como sei se estou pronto(a) para uma função de liderança em tecnologia? Raramente se está 100% pronto(a). Bons sinais: gosta de desbloquear outras pessoas, preocupa-se com o “porquê” e as pessoas já o(a) procuram para orientação - não apenas para code reviews.
- Pergunta 2 Posso ser líder tecnológico e manter-me como contribuidor individual? Sim. Muitas empresas têm hoje percursos de staff e principal em que lidera por influência, direção técnica e mentoria, sem reports diretos.
- Pergunta 3 Qual é um hábito que desenvolve rapidamente competências de liderança? Faça debriefs curtos após trabalho intenso: pergunte o que funcionou, o que não funcionou e o que vai mudar da próxima vez. Registe por escrito e partilhe.
- Pergunta 4 E se a minha empresa não apoiar desenvolvimento de liderança? Comece pequeno: oriente um júnior, lidere uma brown-bag talk ou proponha um mini-projeto de melhoria. Constrói músculos de liderança mesmo em ambientes imperfeitos.
- Pergunta 5 A liderança não é só para extrovertidos? Não. Líderes calmos e ponderados são muitas vezes os mais confiáveis em tecnologia. Ouvir em profundidade, pensar com clareza e comunicar com honestidade contam muito mais do que ser barulhento(a).
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