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Depois dos 70: não são caminhadas diárias nem ginásio semanal, este é o padrão de movimento que melhora a sua saúde.

Senhora idosa sentada numa cadeira, com os braços estendidos, numa sala iluminada com plantas e uma mesa à frente.

A sala está luminosa, mas toda a gente se move com cuidado, como se o próprio tempo tivesse abrandado. Sem passadeiras, sem música aos berros, sem ninguém a contar “mais 10 repetições!” como um sargento. Apenas um círculo de pessoas na casa dos setenta e oitenta, a transferir o peso de um pé para o outro, a alcançar uma prateleira invisível, a virar a cabeça como se estivessem a olhar por cima do ombro.

Uma mulher, cabelo prateado preso num coque solto, ri-se quando quase perde o equilíbrio e, logo a seguir, recupera com um minúsculo ajuste do tornozelo. O instrutor acena com a cabeça, discretamente satisfeito. Aquele pequeno desequilíbrio, aquela recuperação, é exatamente o objetivo.

Isto não parece um treino.

E, no entanto, quase se sente ali, em cima do tapete, os anos a serem acrescentados ao tempo de vida saudável.

O padrão de movimento que realmente prevê a sua independência futura

Toda a gente fala de passos por dia ou de sessões de ginásio por semana. Os médicos perguntam: “Caminha com regularidade?” ou “Faz exercício?” e nós acenamos, a pensar na volta ao quarteirão ou naquele cartão antigo de sócio na carteira.

Mas aquilo que realmente decide como vai viver depois dos 70 é muito mais simples - e mais traiçoeiro. É o quão bem consegue fazer transições entre posições: de sentado para de pé, do chão para a cadeira, de alcançar em baixo para alcançar em cima.

É isto que os especialistas em geriatria chamam movimento de transição. Não é glamoroso. Não dá para hashtags. E, no entanto, é o padrão silencioso que separa “independente nos 80” de “precisa de ajuda para quase tudo”.

Imagine dois idosos de 75 anos. Ambos caminham todos os dias. Mesmo número de passos, mesmo percurso, mesmo ritmo. No papel, o “nível de atividade” parece idêntico.

Agora observe-os quando deixam cair as chaves. Um agacha-se, apanha-as e levanta-se sem se apoiar numa parede. O outro fica tenso, dobra-se pela cintura, tem dificuldade, usa uma cadeira para se puxar e voltar à posição de pé.

A mesma caminhada diária; capacidade de movimento muito diferente. Os estudos sobre envelhecimento repetem a mesma história: as pessoas que conseguem mover-se confortavelmente entre posições - de baixo para cima, de deitado para sentado, de sentado para de pé - mantêm-se independentes durante mais tempo, caem menos e recuperam melhor quando a vida traz uma ida ao hospital ou uma constipação forte. Caminhar é saudável. O movimento de transição é uma antevisão do seu futuro.

Porque é que este padrão é um indicador tão forte? Porque junta, de forma discreta, equilíbrio, força, mobilidade articular e coordenação num único gesto simples. Quando se levanta de uma cadeira sem usar as mãos, as pernas, as ancas e o core estão todos a negociar com a gravidade ao mesmo tempo.

Quando consegue descer ao chão e voltar a levantar-se, o seu cérebro e o seu corpo estão a conversar com fluência: “Onde está o meu peso? Onde está o meu pé? Estou seguro aqui?” Essa conversa é o que o protege em surpresas da vida real, como escorregar num ladrilho molhado ou tropeçar num tapete do quarto.

Caminhar em linha reta num chão plano quase não testa isto. As máquinas de ginásio, com os seus trajetos fixos e assentos acolchoados, também não. O movimento de transição é a vida em 3D.

Esqueça treinos perfeitos: inclua uma rotina de “transições” no seu dia

Então como é que isto se traduz quando tem 70, 75, 82 anos e não tem grande vontade de entrar numa aula de CrossFit? Começa com uma pergunta: de quantas maneiras diferentes consegue passar entre posições comuns ao longo de um dia?

Eis um padrão simples que pode “acumular” em cima de coisas que já faz:

  • Sentar → inclinar-se para a frente → levantar-se → virar → sentar novamente.
  • Ou: de pé → meio-ajoelhado → ajoelhado → meio-ajoelhado → de pé.

O objetivo não é a velocidade nem as calorias. É o controlo. Faça isto perto de algo estável, como uma mesa ou a cama. Use as mãos se precisar e, depois, vá tentando usar um pouco menos. Ao longo das semanas, isto torna-se o seu laboratório privado, onde reaprende aquilo que o seu corpo consegue fazer - uma pequena transição de cada vez.

Uma armadilha comum depois dos 70 é pensar: “Se ainda consigo ir a pé até à loja, estou bem.” Outra é esperar por uma queda ou um susto para mudar alguma coisa. Todos já passámos por aquele momento em que agarramos o apoio do braço um pouco demasiado forte e pensamos: “Isto foi instável.” E depois desvalorizamos.

Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias sem falhar. A vida é confusa. Os netos aparecem, o joelho dói, está a chover, está cansado. A chave não é a perfeição. É reparar nos pequenos momentos em que, neste momento, “faz batota” - empurrar-se da mesa, embalar para se levantar, deixar-se cair na cadeira - e transformá-los em oportunidades de prática, em vez de sinais de declínio.

“Depois dos 80, a pergunta não é ‘Quão longe consegue ir numa passadeira?’”, diz a Dra. Lena Moreau, fisioterapeuta geriátrica. “A pergunta real é: ‘Se cair, consegue levantar-se do chão sem ficar à espera que alguém o puxe?’ É isso que o movimento de transição treina.”

  • Levante-se de uma cadeira 5 vezes devagar, com os braços cruzados, uma ou duas vezes por dia.
  • Pratique descer até ficar com um joelho no chão ao lado da cama e voltar a levantar-se, usando a cama como apoio.
  • A partir de sentado, alcance para baixo para tocar na canela e depois para cima para uma prateleira imaginária, rodando ligeiramente o tronco.
  • Uma vez por semana, se for seguro e tiver autorização do seu médico, pratique descer ao chão e voltar a levantar-se com uma cadeira robusta por perto.
  • Alterne qual a perna que lidera quando se levanta ou quando passa para meio-ajoelhado, para que um lado não “se reforme” antes do outro.

Uma nova forma de medir “aptidão” depois dos 70

Há algo estranhamente libertador em decidir que o seu tempo de vida saudável não é definido pelos passos num relógio, mas pela forma como passa, com graça, de uma “forma” para outra. Isso muda a maneira como olha para o dia. Levantar-se do sofá passa a ser treino. Alcançar tachos num armário baixo passa a ser prática.

Começa a fazer perguntas diferentes: consigo rodar sem prender a respiração? Consigo baixar-me devagar, em vez de me deixar cair? Consigo parar a meio e ainda assim sentir controlo? É um diálogo interior muito diferente de “Cheguei aos 8.000 passos?”

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Treinar transições, não apenas distância Focar em sentado‑para‑de pé, chão‑para‑de pé e alcances em direções diferentes Apoia diretamente a independência ao vestir-se, tomar banho e deslocar-se em casa
Usar a vida diária como “ginásio” Associar pequenos exercícios de movimento a hábitos como ver TV, refeições ou lavar os dentes Torna a consistência realista sem treinos formais nem inscrições
Observar “batotas” como sinais precoces de alerta Precisar das mãos para cada elevação, evitar o chão ou apressar movimentos Indica onde focar antes de quedas, perda de confiança ou hospitalizações

FAQ:

  • Pergunta 1: E se eu já caminhar 30 minutos por dia - preciso mesmo disto?
    Resposta 1: Caminhar é ótimo para o coração e para o humor, mas não treina totalmente levantar, baixar ou rodar sob carga. O movimento de transição preenche essa lacuna, para que o hábito de caminhar se traduza em resiliência no mundo real, e não apenas em resistência.
  • Pergunta 2: Tenho medo de cair quando pratico descer ao chão. O que posso fazer?
    Resposta 2: Comece mais alto. Pratique meio-ajoelhado junto de uma cama ou sofá robustos, com um joelho no chão e um pé bem assente. Use as mãos o quanto for necessário. Com o tempo, pode baixar mais o seu centro de gravidade, mantendo-se sempre numa zona onde se sinta seguro e no controlo.
  • Pergunta 3: Quantas vezes por semana devo trabalhar estas transições?
    Resposta 3: Duas ou três sessões curtas, distribuídas pela semana, já podem mudar a sua confiança. Algumas elevações lentas sentado‑para‑de pé depois do pequeno-almoço, um exercício de ajoelhar ao lado da cama à tarde. Nesta idade, a consistência vence a intensidade.
  • Pergunta 4: O treino de força com pesos não é melhor?
    Resposta 4: Os pesos podem ajudar, sobretudo para a saúde óssea, mas se treinar apenas em máquinas, perde o equilíbrio, a coordenação e o controlo multidirecional que o mantêm seguro em casa. Combinar trabalho simples de resistência com exercícios de transição dá-lhe o melhor dos dois mundos.
  • Pergunta 5: Como sei se estou a melhorar?
    Resposta 5: Repare em pequenas vitórias: levantar-se de uma cadeira mais baixa, precisar de menos apoio das mãos, sentir menos falta de ar, ou conseguir pausar a meio do movimento sem pânico. São sinais subtis, mas poderosos, de que o seu tempo de vida saudável se está, discretamente, a estender à sua frente.

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