Os cientistas descobriram que, durante a gravidez, uma mãe transmite ao filho muito mais do que genes e nutrientes. Células vivas inteiras atravessam a placenta e instalam-se nos tecidos do bebé, onde podem persistir durante décadas. Estas células maternas comportam-se como hóspedes de longa duração: são toleradas pelo sistema imunitário, interagem com os órgãos e podem, possivelmente, inclinar a balança entre doença e reparação.
A gravidez deixa uma impressão digital celular
O fenómeno tem um nome: microquimerismo materno. Desde a década de 1960, os investigadores conseguem detetar pequenas populações de células da mãe no corpo do filho, anos após o nascimento. O efeito também ocorre no sentido inverso. Durante a gravidez, células do feto migram igualmente para o corpo da mãe e podem aí permanecer durante grande parte da sua vida.
Estas células viajantes são poucas. As estimativas sugerem cerca de uma célula materna por cada milhão de células na criança. Ainda assim, aparecem em locais surpreendentes: fígado, coração, pele, pulmões, sangue e até tecido cerebral.
As células maternas são raras, mas integram-se profundamente na arquitetura do corpo, influenciando silenciosamente a forma como os tecidos cicatrizam e como o sistema imunitário se comporta.
Alguns estudos sugerem que estas células podem ajudar a remendar tecidos danificados, funcionando um pouco como equipas de reparação de emergência. Outros associam-nas a doenças autoimunes, em que o sistema imunitário ataca por engano o corpo que deveria proteger. As mesmas células que podem ajudar a curar também podem desencadear inflamação crónica em determinadas condições.
Como é que células estranhas passam despercebidas
Do ponto de vista da imunologia, o microquimerismo materno é intrigante. O sistema imunitário é treinado para identificar e destruir tudo o que pareça estranho. Em teoria, células com o ADN da sua mãe deveriam ser alvos.
No entanto, na maioria das vezes, não são atacadas. Em vez disso, são toleradas - por vezes para toda a vida. Trabalhos recentes em ratinhos, incluindo investigação publicada na revista Immunity, ajudam a explicar porquê.
Os “professores” do sistema imunitário do recém-nascido
Os cientistas concentraram-se num grupo específico de células imunitárias maternas identificadas por dois marcadores de superfície: LysM e CD11c. Estas células têm origem na medula óssea materna e assemelham-se a células mieloides ou dendríticas - sentinelas que, normalmente, alertam o sistema imunitário para o perigo.
Durante a gravidez, algumas destas células passam para o feto. Uma vez lá, comportam-se menos como alarmes e mais como professoras.
As células maternas LysM⁺ CD11c⁺ ajudam a “educar” o sistema imunitário do bebé, instruindo-o de que as células maternas não são inimigas, mas residentes toleradas.
Fazem-no ao aumentar um tipo especial de célula imunitária: as células T reguladoras, frequentemente chamadas Tregs. As Tregs são as guardiãs da paz do sistema imunitário. Sinalizam contenção quando o organismo é tentado a atacar algo que deveria tolerar, como micróbios intestinais, proteínas alimentares… ou, neste caso, células maternas.
Quando os investigadores removeram seletivamente as células maternas LysM⁺ CD11c⁺ em experiências, o equilíbrio colapsou. As células T reguladoras diminuíram e o sistema imunitário da descendência começou a tratar as células maternas como invasoras. O resultado: inflamação e rejeição.
Isto sugere que a tolerância não é um acidente passivo, mas um processo ativo de aprendizagem. O corpo é treinado cedo para conviver com estas células estranhas, e um pequeno grupo de células especializadas mantém essa paz.
Uma fronteira difusa entre “próprio” e “não próprio”
Estas descobertas desafiam uma das ideias centrais da biologia: a separação rígida entre o próprio e o não próprio. Na realidade, cada pessoa é um mosaico. Para além das suas próprias células, existem células da sua mãe e, por vezes, de irmãos mais velhos; e, nas mulheres que estiveram grávidas, células de gravidezes anteriores.
- Próprio: células que transportam o seu próprio ADN.
- Microquimerismo materno: células da sua mãe que permanecem no seu corpo.
- Microquimerismo fetal: células dos seus filhos que persistem em si.
- Outras fontes: células raras de transfusões de sangue ou transplantes de órgãos.
O facto de apenas um subconjunto de células maternas parecer gerir a tolerância levanta outra questão: o que estarão a fazer as restantes? Podem ter funções distintas na reparação de tecidos, na regulação imunitária ou até na função cerebral. A investigação ainda está numa fase inicial.
O que as células maternas podem significar para a doença
Foram encontradas células maternas em tecidos afetados por doenças inflamatórias crónicas, determinadas condições neurológicas e alguns cancros. Isso levanta dois cenários possíveis - que não são mutuamente exclusivos.
Ajudantes ou causadoras de problemas?
Num cenário, as células maternas podem agravar a doença. O seu perfil genético estranho poderia desencadear reações imunitárias persistentes, alimentando doenças autoimunes como lúpus, doença da tiroide ou esclerodermia em pessoas geneticamente suscetíveis.
Noutro cenário, podem fazer parte da tentativa de reparação do organismo. Por vezes, as células maternas adotam características de células específicas do tecido, como células do coração ou do fígado. Podem deslocar-se para áreas danificadas e contribuir para a reconstrução.
As mesmas células maternas que protegem e reparam num contexto podem alimentar inflamação crónica noutro, dependendo da genética e do ambiente.
Este potencial duplo é a razão pela qual os cientistas são cautelosos. Remover simplesmente estas células pode perturbar processos benéficos, enquanto ignorar o seu impacto pode deixar mecanismos-chave de doença por explicar.
Da biologia da gravidez às terapias do futuro
Compreender como o sistema imunitário fetal aprende a aceitar células maternas tem implicações práticas muito para além da gravidez.
Lições para transplantes e terapias imunitárias
Transplantes de órgãos e de medula óssea enfrentam o mesmo problema básico: o corpo tem de tolerar células estranhas sem desligar completamente as suas defesas. A forma como as células maternas LysM⁺ CD11c⁺ promovem células T reguladoras pode inspirar novas estratégias:
- Conceber fármacos que imitem estas células maternas para aumentar a tolerância a órgãos transplantados.
- Usar terapias celulares direcionadas para reforçar células T reguladoras em doentes propensos à rejeição.
- Aperfeiçoar tratamentos para doenças autoimunes, ajustando cuidadosamente o sistema de tolerância.
Os investigadores estão também a analisar como o momento influencia os resultados. O início da vida parece ser uma janela crítica em que o sistema imunitário é mais flexível e mais recetivo a ser “ensinado” sobre o que tolerar. Isto pode ajudar a explicar por que razão infeções na infância, alterações do microbioma e exposições precoces deixam marcas duradouras no risco de doença.
Termos-chave que vale a pena esclarecer
Alguma da linguagem usada nesta investigação pode parecer densa, por isso algumas definições ajudam:
| Termo | O que significa |
|---|---|
| Microquimerismo | Presença de um pequeno número de células num corpo que provêm de um indivíduo geneticamente diferente. |
| Microquimerismo materno | Células da mãe que atravessam para o feto e aí permanecem a longo prazo. |
| Células T reguladoras (Tregs) | Células imunitárias que acalmam reações excessivas e ajudam a prevenir autoimunidade. |
| Células dendríticas / mieloides | Sentinelas imunitárias que normalmente detetam ameaças e orientam outras células imunitárias. |
Pensar nestas células maternas como uma “herança celular” pode tornar o conceito mais fácil de compreender. Para além dos seus genes, recebe uma pequena mas ativa população de células da sua mãe, que participa na educação imunitária e, possivelmente, na manutenção dos tecidos.
Imaginar cenários da vida real
Considere dois irmãos, ambos portadores de células maternas. Um herda variantes genéticas que favorecem células T reguladoras fortes e bem controladas. Essa pessoa pode beneficiar mais das células maternas de reparação e ter menor probabilidade de desenvolver autoimunidade. O outro irmão, com uma combinação genética diferente, pode ser mais propenso a inflamação crónica. Nele, as mesmas células maternas poderiam desencadear ataques imunitários às articulações, à pele ou às glândulas.
Outro cenário: um doente de transplante no futuro. Antes de um transplante renal, os médicos poderão um dia testar quão bem o sistema imunitário da pessoa tolerou células maternas no início da vida. Esse padrão de tolerância poderia orientar o grau de agressividade no uso de imunossupressores, ou até sugerir terapias celulares personalizadas com base no modelo do microquimerismo materno.
Tudo isto mostra que a presença da sua mãe no seu corpo não é apenas emocional ou genética. Ao nível celular, fragmentos do seu equipamento imunitário e tecidular permanecem consigo, moldando silenciosamente a forma como o seu corpo reage a lesões, infeções e doença durante anos.
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