A rapariga com a sweat com capuz da universidade está a chorar baixinho no gabinete de apoio financeiro. Não é o tipo de choro de filme. É o tipo de choro de olhos vermelhos, exausto. Acabou de perceber que o seu terceiro ano vai custar mais do que o rendimento anual dos pais. O conselheiro desliza um dossier agrafado pela secretária: novas opções de empréstimo, novas assinaturas, novas taxas de juro que, no papel, parecem inofensivas. Lá fora, um grupo de visita guiada passa arrastando-se, pais a tirar fotografias a edifícios de tijolo e relvados impecáveis, guias a chilrear sobre “oportunidades ilimitadas”. Cá dentro, alguém está a assinar a entrega da sua década dos trinta.
Ninguém na visita vê essa parte.
Como o sonho do ensino superior se transformou, em silêncio, numa máquina de dívida
Entre em quase qualquer campus e a história à superfície parece perfeita. Sol no jardim central, panfletos a prometer noites de networking, residências brilhantes que parecem hotéis económicos. A marca é liberdade: quatro anos para te reinventares, para “te tornares quem és”.
Por baixo disso, há outra história a correr como uma legenda escondida. É uma história de contratos, taxas de juro e uma pressão silenciosa que começa aos 17 e não larga. A pressão para assinar, inscrever, pedir emprestado, acreditar.
Veja-se o Liam, 29 anos, que fez aquilo que toda a gente lhe disse que era sensato. Aluno de mérito, boa universidade pública, licenciatura em gestão. Os pais nunca tinham ido para a universidade, por isso, quando chegaram os folhetos, pareceram um bilhete dourado. O preço parecia irreal, como dinheiro do Monopólio. O orientador vocacional disse: “Paga isso facilmente com um bom emprego.”
Ele licenciou-se para um mercado de trabalho morno, com um salário inicial de 42.000 dólares e 88.000 dólares em empréstimos estudantis. A prestação é maior do que a renda. Adiou sair do apartamento partilhado, adiou formar família, adiou tudo. “Fiz o que me disseram”, diz ele. “Agora sinto-me estúpido por ter acreditado.”
O que mudou é simples e brutal. A universidade costumava ser cara, mas alcançável; agora é um produto financeiro embrulhado numa narrativa moral sobre sucesso. As propinas subiram muito mais depressa do que os salários. Empréstimos federais e privados, fáceis, despejaram dinheiro no sistema, e as universidades responderam com novos estádios, residências de luxo e departamentos de marketing.
O resultado: uma geração vendida a uma narrativa que soa nobre enquanto funciona como um oleoduto. Dinheiro entra, sai um diploma “prestigioso”, e décadas de reembolso ficam discretamente garantidas. A burla não é que a educação não tenha valor; a burla é a forma como esse valor foi transformado numa arma de dívida para a vida inteira.
Como as universidades vendem o sonho - e o que não dizem em voz alta
A conversa de venda costuma começar cedo. Visitas ao secundário, emails, correio brilhante com estudantes diversos, a rir, a ler em relvados que ninguém realmente usa. A mensagem é implacável: a universidade não é negociável se queres uma boa vida. É apresentada menos como escolha e mais como obrigação moral.
Há um método simples por trás disso. Falar de “paixão”, “encaixe”, “comunidade no campus”. Carregar nos botões emocionais. Manter o assunto do dinheiro abstrato e empurrado para a frente no processo, enterrado em “pacotes de apoio financeiro” e PDFs de várias páginas que nenhum adolescente percebe de verdade.
Depois vem a revelação do “pacote de apoio”, o momento que devia trazer clareza mas, quase sempre, traz nevoeiro. Famílias sentam-se à mesa da cozinha, a semicerrar os olhos para números: bolsas, subsídios, empréstimos tudo misturado como se fosse o mesmo tipo de ajuda. A universidade destaca a “prestação mensal média” após a licenciatura, um número que parte do princípio de que o recém-licenciado entra diretamente num emprego sólido.
Ninguém fala do licenciado que passa seis meses a fazer entregas. Ninguém menciona os estágios não remunerados que, em silêncio, assumem que os pais conseguem suportar as despesas. Assinas na mesma, porque a história à tua volta diz que não assinar é pior. Ir embora parece admitir que já falhaste.
No papel, tudo parece racional. A educação aumenta o potencial de rendimento, por isso pedir empréstimo “é investir no teu futuro”. O problema é que este slogan arrumadinho ignora as probabilidades reais. Nem todos os cursos levam a um emprego com um salário que acompanhe a dívida. Nem todos os estudantes acabam. Nem todas as indústrias são estáveis.
Sejamos honestos: ninguém lê realmente esses contratos de empréstimo linha a linha antes do dia de acolhimento. Não se percebe bem o que os juros fazem ao longo de 20 anos. Não se compreende como as prestações vão pesar quando, mais tarde, a creche, as despesas médicas e a renda colidirem. Esse mal-entendido não é um acidente. Mantém a máquina a funcionar.
Dívida, depressão e a fatura emocional silenciosa
Há uma coreografia silenciosa de como isto se transforma em consequências para a saúde mental. Muitas vezes começa depois de as fotografias da graduação perderem o brilho, quando o período de carência termina e o primeiro email “pagamento em reembolso” cai na caixa de entrada. Esse número já não parece abstrato. Parece uma sentença.
Uma medida útil nesta fase é brutalmente prática: escrever tudo. Taxas de juro, saldos, datas de vencimento, mínimos mensais. Ver o quadro completo numa única página pode ser aterrador, mas substitui um medo vago por algo que se consegue apontar. A dívida prospera no escuro; a clareza - mesmo dolorosa - reduz um pouco o seu poder.
O que atinge muita gente com mais força não é só o dinheiro, é a vergonha. Olhas para as redes sociais e parece que toda a gente “arrancou” como deve ser. Publicam promoções e visitas guiadas a apartamentos numa cidade nova. Tu estás a pesquisar adiamentos e a chorar em cima de uma folha de cálculo à 1 da manhã.
Essa distância entre o futuro prometido e a realidade atual alimenta a depressão. Começas a perguntar-te se foste ingénuo, se o teu curso foi estúpido, se cometeste um erro fatal aos 18 do qual nunca vais recuperar. A burla deixa de parecer sobre instituições e começa a sentir-se profundamente pessoal, como um defeito de carácter que tens de esconder.
Alguns chamam a isto uma crise de saúde mental; outros chamam-lhe o que é: sistémico. O choque emocional não é uma falha individual - é um efeito secundário previsível de vender a uma geração inteira um sonho de alta pressão e sem reembolso.
“Eu nem sinto que sou o tipo certo de pobre”, disse-me um licenciado em serviço social de 26 anos. “Sinto que comprei a minha própria prisão e agora tenho de fingir que estou grato pelas chaves.”
- Diz a burla em voz alta, nas tuas palavras. Não é choramingar; é fazer um teste de realidade.
- Separa o teu valor humano do teu saldo; um é humano, o outro é matemática.
- Fala com pelo menos uma pessoa sobre a dívida sem a disfarçar com piadas.
- Procura planos de reembolso dependentes do rendimento ou programas de perdão, mesmo que sintas que não mereces.
- Permite-te sentir raiva. É uma resposta sã a teres sido induzido em erro, não um sinal de que estás “estragado”.
O que fazemos com a verdade agora
Quando percebes como a máquina funciona, já não consegues deixar de ver. As visitas guiadas, os slogans, a suposição não dita de que pessoas de 17 anos devem comprometer-se, casualmente, com décadas de reembolso. Começas a notar as alternativas que nunca tiveram o mesmo tempo de antena: começar num community college, escolas profissionais, cursos técnicos, certificações, caminhos mais lentos, anos sabáticos que não são codificados como “falhanço”.
Para alguns, a universidade continuou a ser a escolha certa, dívida incluída. Para outros, foi um desvio absurdamente caro disfarçado de destino. O objetivo não é queimar todos os diplomas; é parar de fingir que o sistema atual é outra coisa que não predatória para uma enorme fatia dos estudantes.
Todos já estivemos ali: o momento em que percebes que os conselhos “de adulto” em que confiaste podem ter sido moldados mais por cultura, marketing e mitos antigos do que pela tua vida real. A pergunta que paira sobre esta geração não é só “vale a pena ir para a universidade?”
A verdadeira pergunta é: quem define o que “vale” quando a fatura chega em dólares, anos e pânico silencioso às 3 da manhã?
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| A universidade é comercializada como uma obrigação moral | As universidades vendem um sonho emocional enquanto minimizam o impacto de longo prazo dos empréstimos | Ajuda-te a ver a mensagem com clareza e a questioná-la sem culpa |
| Dívida e depressão estão estruturalmente ligadas | Saldos elevados, perspetivas de emprego incertas e vergonha alimentam dificuldades de saúde mental | Reenquadra o teu stress como um resultado sistémico, não como fraqueza pessoal |
| Há alternativas e estratégias para lidar | Passos práticos: mapear a dívida, explorar planos, nomear a burla, procurar apoio | Dá-te alavancas concretas para agir, em vez de só te sentires preso |
FAQ:
- A universidade é sempre uma burla, ou só às vezes? A universidade em si não é automaticamente uma burla; o problema é o preço e a narrativa agressiva de venda que ignora risco, resultados e caminhos mais baratos. Para algumas carreiras, o diploma é essencial, mas o modelo atual cobra preços de luxo por resultados imprevisíveis.
- Como posso saber se um curso compensa financeiramente? Procura o salário médio inicial na tua área, estima um rendimento conservador e compara com a tua dívida total projetada. Se os teus empréstimos totais excederem em muito o teu salário esperado do primeiro ano, o risco é elevado e talvez queiras opções mais baratas ou mais lentas.
- E se eu já estiver atolado em dívida estudantil? Não estás condenado. Lista cada empréstimo, verifica elegibilidade para reembolso dependente do rendimento, perdão por serviço público ou programas a nível estadual. Depois constrói um plano realista em torno da tua vida real, não de uma versão imaginária de “adulto perfeito”.
- Saltarem a universidade é uma má ideia no mercado de trabalho atual? Não necessariamente. Algumas profissões técnicas, funções em tecnologia e carreiras criativas dependem mais de competências, portfólios e certificações. A má ideia é tratar a universidade como o único caminho respeitável, independentemente do custo ou do encaixe pessoal.
- Como falo disto com familiares mais novos sem os assustar? Partilha os teus números e experiências reais com calma e pergunta-lhes que tipo de vida querem, não apenas que escola querem. Incentiva-os a comparar opções, começar em instituições de menor custo ou entrar mais tarde, em vez de correr para empréstimos massivos aos 18.
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