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Outro peixe antes ignorado está a tornar-se popular no Brasil devido à sua segurança, preço acessível e excelentes benefícios nutricionais.

Pessoa prepara dois peixes frescos numa tábua de madeira, com limão e legumes ao lado, numa cozinha iluminada pelo sol.

Todos os sábados ao amanhecer, as filas à porta do mercado do peixe em Belém costumavam formar-se em frente às espécies brilhantes e famosas: tambaqui, dourado, salmão fresco para quem o podia pagar. A banca com montes de peixes pequenos, escuros, de aspeto humilde, ficava meio vazia, com o vendedor mais a conversar do que a vender. “Isso é peixe para estudantes sem dinheiro e velhotes”, troçou um adolescente, passando pelo tabuleiro de filhote, um bagre de água doce durante muito tempo desprezado como comida de pobre - comida de gente pobre.

Hoje, essa mesma banca é a primeira a esgotar.

Os preços dispararam, escândalos de nutrição bateram nas redes sociais, e os brasileiros voltaram a olhar para o que os avós comiam sem pensar duas vezes. Nutricionistas juntaram-se ao coro, influenciadores de comida filmaram receitas, e de repente este “peixe de pobre”, antes ignorado, passou a ser protagonista nas mesas de jantar de Manaus a São Paulo.

Algo mudou silenciosamente no imaginário brasileiro.

De “peixe de pobre” a favorito de primeira página

Numa tarde abafada em Manaus, vi uma mãe de três filhos apontar para o balcão cheio de gelo e passar ao lado do salmão importado, lustroso. A mão foi direta para uma pilha de postas de filhote limpas, pálidas e firmes, com um preço quase metade do de peixes mais “nobres” ali perto. Ela riu quando lhe perguntei porquê. “Porque este dá para toda a gente e não me faz entrar em pânico na caixa”, disse, enfiando dois quilos no saco.

Durante anos, o filhote e outros bagres semelhantes foram a espinha dorsal discreta da cozinha amazónica. Nunca glamorosos, sempre presentes. Hoje estão de volta - e desta vez com um novo rótulo: escolha inteligente.

Sente-se a mudança até nos supermercados das grandes cidades. Onde antes o filhote era empurrado para um canto enevoado do congelador, agora fica sob luzes fortes com etiquetas alegres a gritar “rico em proteína” e “rico em ómega-3”. Um relatório de retalho do principal polo de peixe do Pará mostrou as vendas de cortes de bagre de água doce a subir dois dígitos num único ano, enquanto alguns favoritos tradicionais estagnaram.

Por trás dos números, as conversas também mudaram. Bloggers de comida partilham histórias de família sobre “aquele peixe barato que a avó fazia às sextas-feiras” e depois publicam vídeos caprichados de filhote grelhado com quinoa e legumes assados. O que antes carregava um leve cheiro a vergonha está a tornar-se um sinal de esperteza à mesa.

Há uma lógica simples a funcionar. Os brasileiros estão apertados pela inflação alimentar, preocupados com pesticidas e metais pesados, e cansados de ouvir que comer saudável é sinónimo de salmão caro ou atum importado. O filhote rebenta com essa narrativa. É local, muitas vezes pescado em estado selvagem, rico em proteína magra e gorduras boas, e geralmente custa menos do que espécies mais chiques.

Quando análises laboratoriais começaram a circular na televisão e no Instagram, mostrando baixos níveis de contaminantes e uma densidade nutricional impressionante, as pessoas começaram a perguntar-se por que motivo lhe viraram as costas. É o mesmo peixe. História diferente.

Como os brasileiros estão a trazer o filhote de volta à mesa

Entre numa cozinha modesta em Belém por volta da hora do almoço e é provável que veja a mesma coreografia de décadas atrás. Uma bacia no lava-loiça com peixe a repousar em limão e alho. Uma tigela pequena de colorau e cominhos. Uma panela já a aquecer, com cebolas a chiar no óleo. A diferença hoje é que o cozinheiro pode ter encontrado a receita no YouTube em vez de a aprender com uma tia.

O método é desarmantemente simples. Corte o filhote em postas grossas, tempere generosamente com sal, alho esmagado, sumo de lima e uma pitada de pimenta-preta. Deixe repousar dez, quinze minutos. Depois sele bem numa frigideira quente, dourado de cada lado, e finalize com tomate, coentros e um esguicho rápido de mais lima. Almoço para uma família de cinco, com orçamento apertado, e ainda assim sabe a abundância.

Pessoas que cresceram a ser gozada por “só haver bagre em casa” confessam que demoraram a admitir que gostavam. A pressão social é matreira. Um prato pode ser delicioso e mesmo assim parecer “errado” se toda a gente à volta lhe chama pobre. Esse estigma impediu muitos brasileiros de aprenderem o básico de como cozinhar filhote.

Agora as perguntas que inundam as caixas de entrada dos nutricionistas soam diferentes: “Posso comer isto duas vezes por semana?” “É seguro para crianças?” “Ajuda com o colesterol?” O medo mudou de ‘parecer pobre’ para ‘ficar doente e sem dinheiro’, e de repente este peixe acessível parece um aliado em vez de um embaraço.

Os especialistas em nutrição estão surpreendentemente alinhados nisto.

“Se o filhote viesse numa embalagem chique com um nome em inglês, as pessoas chamavam-lhe um superalimento”, diz uma nutricionista de São Paulo que trabalha com famílias de baixos rendimentos. “É barato, tem baixo teor de mercúrio, está cheio de proteína de alta qualidade e gordura saudável. O que mais querem?”

Nas redes sociais, médicos e coaches de dieta sublinham as mesmas coisas vezes sem conta:

  • Alto teor de proteína, que ajuda na saciedade e na manutenção muscular
  • Gorduras ómega-3 e ómega-6, que apoiam a saúde do coração e do cérebro
  • Baixos níveis de metais pesados comparado com alguns peixes do oceano
  • Versatilidade: assa, grelha, faz-se em guisados e em sopas
  • Preço amigo para famílias que tentam cozinhar mais em casa

Sejamos honestos: ninguém lê todos os rótulos nutricionais nem controla cada miligrama de mercúrio. Querem algo que pareça seguro, encha o prato e não rebente com o ordenado. O filhote, discretamente, marca as três.

Uma revolução alimentar silenciosa à vista de todos

Há uma satisfação estranha em ver um “peixe de pobre” ganhar brilho sem, na verdade, mudar nada. A espécie não ficou magicamente mais saudável ou mais trendy nos últimos cinco anos. O que mudou foi o nosso olhar. As redes sociais expuseram o fosso entre tendências de bem-estar caras e a forma como a maioria dos brasileiros realmente vive. A subida dos preços dos alimentos forçou escolhas duras na caixa. As receitas dos avós passaram a parecer sábias em vez de ultrapassadas.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que olhamos para o cesto de compras, fazemos as contas de cabeça e, em silêncio, devolvemos alguma coisa à prateleira. Para cada vez mais famílias, o filhote é a coisa que fica.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Nutrição acessível O filhote costuma custar menos do que peixes “nobres” populares, oferecendo proteína de alta qualidade e gorduras saudáveis Ajuda a esticar o orçamento alimentar sem sacrificar a saúde
Segurança e origem Muitas vezes é pescado em estado selvagem em áreas de água doce, com menor risco de metais pesados do que alguns grandes peixes oceânicos Reduz a ansiedade sobre contaminantes e exposição a longo prazo
Fácil de cozinhar Funciona bem grelhado, assado ou em guisados, com temperos simples como alho, lima e ervas Torna a cozinha caseira realista mesmo para quem anda cansado e sem tempo

FAQ:

  • O filhote é mesmo mais seguro do que outros peixes? A maioria das análises laboratoriais mostra níveis mais baixos de metais pesados do que grandes peixes predadores do oceano, que tendem a acumular mais contaminantes ao longo do tempo. A frescura e a origem continuam a importar, por isso compre em mercados de confiança.
  • O filhote tem um sabor forte a “lodo”? Quando está fresco e bem limpo, o sabor é suave e agradável. Deixar de molho por pouco tempo com lima e sal e depois enxaguar pode suavizar notas mais terrosas.
  • Posso substituir o salmão por filhote para obter ómega-3? O salmão pode ter níveis mais altos de ómega-3, mas o filhote ainda oferece quantidades úteis, além de proteína magra. Para a maioria das dietas do dia a dia, é uma troca sólida e amiga da carteira.
  • O filhote é bom para crianças e idosos? Sim, desde que as espinhas sejam removidas e as porções fiquem bem cozinhadas. A textura macia e o alto teor de proteína tornam-no fácil de mastigar e de digerir.
  • Quantas vezes por semana posso comer filhote? As recomendações atuais no Brasil costumam incentivar o consumo de peixe duas a três vezes por semana, e o filhote encaixa bem nessa rotação, sobretudo se variar temperos e métodos de confeção.

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