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Hepatologista revela os seis principais sinais de alerta da doença do fígado gordo que muitos ignoram.

Médico analisa imagem de fígado num tablet, paciente sentado ao fundo em consulta.

A sala de espera estava quase cheia, naquela manhã cinzenta de terça-feira, quando a hepatologista empurrou a porta e chamou um nome que soou cansado. Um homem na casa dos quarenta levantou-se devagar, com uma mão ao lado do corpo e a outra a apertar uma garrafa de água de plástico como se fosse uma tábua de salvação. Não era o perfil que se esperaria para um problema no fígado: sem barriga visível, sem olhos amarelados, camisa de escritório cuidadosamente por dentro das calças. Parecia um colega qualquer que se encontra entre duas reuniões.

E, no entanto, o fígado dele já estava em sofrimento.

Essa é a realidade desconfortável que esta especialista repete todas as semanas: a doença do fígado gordo é traiçoeira, silenciosa e muitas vezes descoberta por acaso durante uma análise de rotina ou uma ecografia pedida “só para confirmar”.

Quando os sinais são finalmente notados, o dano pode ser mais profundo do que imaginamos.

Os seis sinais de alerta que uma especialista nunca ignora

A hepatologista com quem falei não dramatiza com facilidade. Vê centenas de fígados todos os anos no ecrã da ecografia e descreve a doença do fígado gordo como “uma epidemia moderna escondida por detrás de vidas normais”. O que mais a preocupa não são os casos raros e extremos, mas as dezenas de doentes que lhe dizem sempre a mesma coisa: “Eu não me sentia doente.”

No caderno dela, seis sinais de alerta estão sublinhados a vermelho. Não os grandes sinais óbvios que associamos à falência hepática grave, mas aqueles sinais discretos que muitos desvalorizam: cansaço persistente e sem explicação, uma sensação de peso ou desconforto do lado direito por baixo das costelas, um abdómen que parece inchar sem razão clara, olhos ou pele ligeiramente amarelados, comichão invulgar, e náuseas aleatórias ou perda de apetite.

Há uma história de uma doente que a persegue. Uma mulher de 36 anos, a trabalhar remotamente, a conciliar filhos, reuniões e emails noite dentro. Veio por “cansaço” e um desconforto vago após as refeições. Sem problema com álcool, sem sintomas dramáticos - apenas aquela sensação de estar permanentemente esgotada.

Tinha ganho alguns quilos durante a pandemia, nada de extremo. As análises mostraram enzimas hepáticas ligeiramente elevadas, inicialmente atribuídas ao stress. Uma ecografia revelou, por fim, alterações avançadas compatíveis com fígado gordo. “Eu achava que isso era coisa de quem bebia muito”, sussurrou a mulher, incrédula.

É exatamente assim que a doença se esconde: por detrás de vidas cheias, dietas “mais ou menos” e corpos com aspeto normal.

Do ponto de vista médico, a lógica é clara. O nosso fígado é como um armazém que nunca fecha, a armazenar e a gerir gorduras, açúcares, toxinas e medicamentos. Quando há demasiado açúcar e gordura a circular, quando nos sentamos mais do que nos mexemos, esse armazém vai-se enchendo silenciosamente.

O excesso de gordura infiltra-se nas células hepáticas; elas incham, inflamam e, lentamente, perdem flexibilidade. O órgão continua a funcionar, por isso você continua a vida, a pensar que é apenas a idade ou o stress. O corpo envia pequenos sinais de alarme, mas são difusos, nada espetaculares. É por isso que a doença do fígado gordo se tornou uma das principais causas de problemas hepáticos crónicos em pessoas que “parecem saudáveis” por fora.

Como ouvir o seu corpo sem entrar em pânico

A hepatologista insiste numa coisa: não tem de ficar paranoico para proteger o seu fígado. A verdadeira mudança começa com um gesto simples, repetido ao longo do tempo. Ela pede aos doentes que façam um “check-in do corpo” uma vez por semana, de preferência no mesmo dia e à mesma hora.

Sente-se em silêncio e percorra uma pequena lista interna: Como tem estado a minha energia esta semana? Sinto peso ou desconforto por baixo das costelas do lado direito após as refeições? A minha roupa ficou mais apertada na cintura sem razão clara? Tenho comichão sem explicação, sobretudo à noite? Náuseas que voltam sem ser uma virose?

Este ritual de cinco minutos, se levado a sério, pode levá-lo a procurar ajuda antes de as coisas se complicarem.

Todos já passámos por isso: aquele momento em que diz a si próprio que está “só cansado” ou “deve ser inchaço de alguma coisa que comi”. Os dias passam, o trabalho acumula-se, e marcar uma consulta por “nada de grave” parece quase ridículo. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.

O erro de muitos é esperar por um sinal dramático: dor violenta, pele claramente amarela, vómitos assustadores. No fígado gordo, a realidade é mais suave, mais difusa, mais insidiosa. Um cansaço ligeiro que dura meses. Uma barriga que se mantém inchada mesmo quando se come pouco. Uma sensação de enfartamento ao fim de duas dentadas. A chave não é autodiagnosticar-se, mas dizer ao seu médico: “Há algo que não está bem; estas pequenas coisas estão a acumular-se.”

Durante a nossa conversa, a hepatologista resumiu assim:

“O seu fígado não grita, sussurra. O problema é que esquecemos como ouvir sinais subtis numa vida barulhenta.”

Para ajudar os doentes, ela mostra-lhes uma lista simples, em forma de caixa, que podem guardar no telemóvel:

  • Cansaço invulgar e persistente com duração superior a 4–6 semanas
  • Desconforto ou sensação de peso por baixo das costelas do lado direito, sobretudo após as refeições
  • Inchaço abdominal não relacionado com o ciclo menstrual nem com uma causa digestiva evidente
  • Tom amarelado nos olhos ou na pele, mesmo que muito ligeiro
  • Comichão frequente e sem explicação, especialmente à noite ou nos membros
  • Náuseas, perda de apetite ou saciedade precoce sem razão aparente

Ela repete a cada doente: se dois ou três destes sinais persistirem, não significa catástrofe. Significa: está na altura de fazer análises e talvez uma ecografia, com calma, antes de o fígado ficar sobrecarregado.

Um órgão silencioso no centro dos nossos estilos de vida modernos

Quando sai do consultório de uma hepatologista, não leva apenas números e imagens da ecografia. Muitas vezes, sai com a sensação desconfortável de que os hábitos diários ficam escritos diretamente no tecido do seu fígado. Os snacks à frente do computador, os refrigerantes “só nos dias mais puxados”, longos períodos sentado, apneia do sono não tratada, a barriga que cresceu devagar e nunca mais desapareceu.

O que mais impressiona é descobrir que a doença do fígado gordo já afeta pessoas na casa dos trinta e até adolescentes. Não por álcool, mas pela combinação silenciosa de bebidas açucaradas, alimentos ultraprocessados e falta de movimento. Muitos chegam com peso normal ou apenas ligeiramente elevado, o que torna o diagnóstico injusto aos seus olhos.

A hepatologista insiste que a culpa não serve para nada. O que ela quer é consciência. Um fígado gordo pode melhorar - por vezes de forma espetacular - quando é detetado cedo. Ela já viu doentes reduzirem os depósitos de gordura no fígado em poucos meses ao perderem 7–10% do peso corporal, caminharem a bom ritmo 30 minutos por dia, cortarem nas bebidas açucaradas e espaçarem o álcool.

Ela lembra também que a genética tem um papel: algumas pessoas desenvolvem fígado gordo mais facilmente mesmo sem excesso de peso. Por isso, prestar atenção àqueles seis sinais de alerta não é apenas para quem “parece pouco saudável”. Diz respeito ao gestor sempre ocupado, ao pai ou mãe exausto, ao estudante a viver de bebidas energéticas, ao trabalhador por turnos que come a horas irregulares.

Por detrás das palavras calmas dela, há uma mensagem simples: o nosso fígado não é um órgão abstrato; é o caderno diário das nossas escolhas. Não julga - regista. Linha a linha, snack a snack, noite mal dormida após noite mal dormida. Algumas linhas podem ser reescritas; outras deixam cicatrizes.

Ela incentiva os doentes a falarem do tema em casa, com amigos e com colegas. A desmontar a ideia de que doença hepática só acontece a “grandes bebedores” ou a pessoas no fim da vida. A verdade é mais banal, quase comum. E é precisamente por isso que merece um lugar nas conversas do dia a dia, muito antes de o ecrã da ecografia mostrar um fígado brilhante e sobrecarregado.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Seis sinais subtis de alerta Cansaço, peso do lado direito, inchaço, tom amarelado, comichão, náuseas/perda de apetite Ajuda a detetar um possível problema de fígado gordo antes de complicações graves
Ritual de “check-in” do corpo Autoavaliação semanal de energia, digestão e sensações físicas Incentiva a procurar ajuda cedo em vez de esperar por sintomas dramáticos
Impacto do estilo de vida e reversibilidade Hábitos modernos alimentam o fígado gordo, mas mudanças precoces podem reduzir a gordura hepática Dá esperança concreta e motivação para agir agora, não “um dia”

FAQ:

  • A doença do fígado gordo pode desaparecer sozinha? Em muitos casos iniciais, a gordura no fígado pode diminuir significativamente com perda de peso, mais movimento e menos açúcar e álcool. Quanto mais cedo agir, mais reversível tende a ser.
  • É preciso ter excesso de peso para ter fígado gordo? Não. Algumas pessoas com peso normal desenvolvem fígado gordo devido à genética, à qualidade da alimentação, à gordura visceral ou a problemas metabólicos como resistência à insulina.
  • Que exames detetam a doença do fígado gordo? Os médicos começam geralmente por análises ao sangue (enzimas hepáticas) e uma ecografia abdominal. Por vezes acrescentam imagiologia especializada ou um FibroScan para medir a rigidez e a gordura hepática.
  • O fígado gordo é sempre causado pelo álcool? Não. Existem dois grandes tipos: relacionado com álcool e fígado gordo não alcoólico. A forma não alcoólica está fortemente ligada à alimentação, ao sedentarismo e à saúde metabólica.
  • Quando devo falar com um médico? Se notar cansaço persistente, inchaço abdominal, desconforto do lado direito, comichão, olhos ou pele amarelados, ou náuseas sem explicação durante várias semanas, vale a pena pedir análises e aconselhamento médico.

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