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Cabelo fino ou pouca paciência: método polémico para cobrir cabelos brancos promete juventude, mas divide especialistas e dermatologistas.

Pessoa aplica sérum no couro cabeludo de uma mulher em ambiente de spa, com plantas ao fundo.

Na manhã de uma terça-feira, num salão parisiense apinhado, uma mulher na casa dos cinquenta percorre o TikTok enquanto a colorista mistura a tinta de sempre. O polegar pára num vídeo: uma influenciadora de cabelo grisalho a massajar uma pasta acastanhada nas raízes, a rir-se: “Sem químicos, sem arrependimentos, dez anos mais nova.” Os comentários estão em brasa. Uns gritam milagre. Outros avisam perigo. A mulher inclina a cabeça. Tem o cabelo fino e uma paciência ainda mais fina para sessões de coloração de três horas. Mas a palavra “natural” apanha-a de imediato. Hena e máscaras de ervas em vez de vapores de amoníaco? Parece quase bom demais para ser verdade.
Ela levanta os olhos para o espelho, as raízes a brilharem sob o néon.
Algures dentro dela, uma voz sussurra: e se esta for a última coloração que fazes?

Quando o “natural” promete juventude num frasco

O método controverso de que toda a gente fala em surdina é enganadoramente simples: cobrir os brancos que vão aparecendo com pós de origem vegetal, óleos e misturas caseiras que afirmam tingir o cabelo sem o danificar. Hena, índigo, amla, café, chá preto, óleo de alecrim, um toque de vinagre de sidra “para brilho” - as receitas parecem o saque de uma despensa do Pinterest. Nas redes sociais, os vídeos de antes-e-depois são hipnóticos. As raízes brancas desaparecem. O cabelo parece mais espesso, mais brilhante, mais jovem. A hashtag “naturalgraycoverage” mostra couros cabeludos transformados em tempo real.
Entre a inflação, a ansiedade com a saúde e o cansaço das tintas químicas, esta promessa DIY de cabelo jovem sem efeitos secundários soa ao milagre que muitos esperavam.
Há apenas um problema: os especialistas não concordam, de todo.

Em Berlim, a dermatologista Dra. Lea W., que trata doentes com problemas crónicos do couro cabeludo, diz ter visto uma onda de “desastres naturais” entrar no consultório. Lembra-se de uma designer gráfica de 32 anos, orgulhosa do seu estilo de vida ecológico, que trocou a coloração de salão por uma combinação de hena e índigo da moda comprada online. A primeira sessão correu bem. A segunda, misturada “extra forte” para cobrir mais depressa, deixou-lhe placas vermelhas e inflamadas atrás das orelhas e ao longo da linha do cabelo.
Do outro lado do oceano, em Nova Iorque, uma tricologista relata o oposto: clientes que abandonaram as tintas clássicas em favor de misturas de ervas cuidadosamente testadas e viram menos quebra e menos queda. Dois mundos, duas realidades, ambos rotulados “natural”.
A mesma palavra. Consequências muito diferentes.

Então o que se passa realmente por baixo desta espuma colorida por plantas? O cabelo branco não é apenas um problema de cor; é um problema estrutural. À medida que a produção de melanina diminui, o cabelo tende a ficar mais seco, mais poroso e muitas vezes mais fino. Isso muda a forma como qualquer pigmento - sintético ou botânico - se fixa na fibra. Corantes vegetais como a hena funcionam ao revestir e ligar-se à camada externa do fio. Em cabelo espesso, escuro e não tratado, esse revestimento pode reforçar e proteger. Em cabelo frágil, muito processado ou extremamente fino, a acumulação pode pesar os fios, alterar a textura e, por vezes, causar quebra.
E depois há o elefante na sala: produtos “naturais” raramente são apenas plantas. Sais metálicos, conservantes, óleos essenciais em doses elevadas entram discretamente em caixas “herbais” - e é aí que os dermatologistas começam a levantar a sobrancelha.

O método que divide médicos… e seduz couros cabeludos exaustos

O famoso protocolo de cobertura de brancos que gera mais debate parece um ritual. Passo um: clarificar o cabelo com um champô suave, depois secar com toalha até ficar apenas húmido. Passo dois: preparar uma pasta com hena ou cásia para tons quentes, ou uma mistura de hena e índigo para uma cobertura mais escura. Alguns acrescentam café ou chá preto para mais profundidade; outros, uma colher de chá de óleo para “alimentar” a fibra. A pasta é aplicada secção a secção nas raízes, envolvida em película aderente e uma toalha, e deixada a atuar entre uma e quatro horas.
Depois, a pasta é enxaguada - sem champô, apenas água fria - seguida de um enxaguamento final com vinagre ou uma infusão de ervas. A promessa é uma cortina de cabelo com aspeto naturalmente pigmentado, com os brancos camuflados em vez de apagados de forma chapada.
Em vídeo, parece quase autocuidado.

Depois chegam os atalhos e os acidentes. As pessoas compram a primeira “hena natural” que encontram na Amazon, com uma foto suspeitamente néon na embalagem. Saltam o teste de alergia porque “estão com pressa”. Deixam a pasta atuar durante a noite “para mais intensidade” e vão dormir com uma touca de banho, acordando com o couro cabeludo a arder, suado. Ou aplicam tintas vegetais diretamente em cabelo já descolorado, alisado ou quimicamente esticado, criando reações de cor imprevisíveis e uma textura tipo palha.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que a impaciência vence a prudência e uma rotina de beleza vira uma pequena experiência científica no lavatório da casa de banho.
O clip do TikTok nunca mostra a parte em que estás a enxaguar durante 45 minutos, a pensar se o teu cabelo vai sobreviver.

Do ponto de vista médico, a divisão entre especialistas tem menos a ver com plantas e mais com contexto. Dermatologistas fortemente contra este método apontam riscos reais e documentados: dermatite de contacto alérgica por lawsone (o pigmento da hena), irritação por óleos essenciais e contaminação com sais metálicos que podem reagir mal com tratamentos posteriores em salão. Tricologistas mais favoráveis insistem em condições controladas: pós puros, testados em laboratório, tempos de exposição curtos e testes de contacto rigorosos.
Uma dermatologista de Paris resumiu-me assim:

“As pessoas ouvem ‘natural’ e pensam ‘inofensivo’. Para alguns couros cabeludos, a tinta química regular é, na verdade, mais segura porque é padronizada e previsível. Com misturas de plantas compradas online, nem sempre se sabe o que se está a pôr na pele.”

Dentro dos círculos profissionais, o debate gira em torno de três perguntas recorrentes:

  • O que é que realmente está na embalagem?
  • Com que tipo de cabelo e couro cabeludo estamos a lidar?
  • Quem supervisiona o processo, se é que alguém o faz?

Tira-se o marketing, e fica uma tensão simples: o desejo de juventude versus os limites da biologia.

Entre vaidade, segurança e o direito de manter os brancos

Para quem ainda se sente tentado a experimentar este método, o ponto de partida não é o pó; é o couro cabeludo. Qualquer pessoa com historial de eczema, psoríase, alergias a tinta ou cabelo extremamente fino e quebradiço entra numa categoria de risco mais elevada. O primeiro passo inegociável é um verdadeiro teste de contacto: uma pequena quantidade de pasta já preparada atrás da orelha ou na dobra do cotovelo, deixada durante 48 horas - não 5 minutos. Depois, se correr bem, uma primeira aplicação numa madeixa pequena e discreta, não na cabeça inteira.
Os relatos de utilizadores cautelosos soam diferentes: tempos de pose mais curtos, sem calor agressivo, e semanas entre sessões em vez de “pânico das raízes” a cada dez dias. O objetivo muda de “apagar brancos” para “suavizar o contraste”.
Só essa mudança mental altera tudo.

Onde a maioria das pessoas fica presa é na mentalidade do tudo-ou-nada. Passam de tintas mensais em salão para uma armadura vegetal DIY completa, à espera de cobertura instantânea e uniforme da raiz às pontas. A realidade é mais confusa. Os pigmentos vegetais são translúcidos; misturam-se, não repintam. Em brancos muito claros, o primeiro resultado pode ser um efeito quente, dourado, tipo madeixas, em vez de uma correspondência perfeita com a cor original. Em cabelo extremamente fino, adicionar camada após camada de revestimento pode deixar os fios rijos ou secos.
Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias.
As rotinas mais saudáveis são muitas vezes as menos “instagramáveis”: combinar métodos, espaçar aplicações, aceitar alguns brancos visíveis nas têmporas.

Entre os campos pró e contra, uma verdade reaparece: o que funciona para um couro cabeludo pode, silenciosamente, arruinar outro. Uma tricologista de Londres disse-me, meio divertidamente, meio preocupada:

“Metade da minha semana é passada a acalmar doentes que acham que fizeram algo terrível ao cabelo. Na maioria das vezes, o cabelo recupera. O problema é o pânico e a sensação de falhanço quando o ‘natural’ não os transforma outra vez num jovem de 25 anos.”

Por baixo da conversa técnica, as perguntas mais profundas são emocionais:

  • Quanto tempo e energia estás disposto(a) a trocar por cabelo “mais jovem”?
  • Estás a perseguir cobertura ou controlo - a sensação de que o envelhecimento não te vai apanhar desprevenido(a)?
  • Consegues aceitar uma fase de transição visível, em que os brancos se misturam com tons vegetais e não parecem um anúncio de champô?

Algumas pessoas atravessam esse túnel e saem orgulhosamente prateadas, mantendo apenas um brilho herbal suave para dar luminosidade. Outras decidem que preferem ficar duas horas no salão do que mexer pasta na cozinha. Não há superioridade moral em nenhuma escolha - apenas formas diferentes de negociar com o espelho.

O verdadeiro escândalo talvez não esteja no teu couro cabeludo

Basta percorrer o corredor de uma farmácia e as promessas saltam: “Cobertura 100% natural”, “Sem químicos”, “Seguro para couros cabeludos sensíveis”. Lês as letras pequenas e a história fica mais turva. Esse método controverso de cobertura de brancos, meio DIY, meio milagre de marketing, está num cruzamento de regulamentação vaga, embalagens espertas e inseguranças muito reais sobre envelhecer. O que divide médicos e dermatologistas não são apenas os pós vegetais em si; é o fosso entre a promessa brilhante e a realidade desarrumada nas casas de banho das pessoas.
No fim, a pergunta pode ser menos “Este método é bom ou mau?” e mais: “O que estás disposto(a) a arriscar - tempo, dinheiro, conforto, um pouco de saúde - pela ilusão de um cabelo que não muda?”
Talvez a verdadeira revolução chegue no dia em que aparecer com brancos visíveis deixe de ser um ato rebelde e passe a ser apenas uma opção entre outras.
Até lá, o debate continua, retoque de raízes após retoque de raízes.

Ponto-chave Detalhe Valor para o leitor
Saber o que “natural” realmente significa Corantes vegetais podem ser misturados com sais metálicos e óleos essenciais fortes Ajuda a evitar produtos que irritam o couro cabeludo ou danificam o cabelo a longo prazo
Adaptar ao tipo de cabelo e de couro cabeludo Cabelo fino, grisalho ou previamente descolorado reage de forma diferente a pigmentos de revestimento Reduz o risco de quebra, secura ou resultados de cor estranhos
Dar prioridade a testes de contacto e uso gradual Testes cutâneos de 48 horas e aplicações parciais antes da cobertura total Permite experimentar em segurança sem apostar “a cabeça inteira”

FAQ:

  • Pergunta 1 A cobertura de brancos com plantas é realmente mais segura do que a tinta clássica?
  • Pergunta 2 A hena ou os corantes herbais podem fazer o meu cabelo cair?
  • Pergunta 3 E se eu já tiver coloração de salão ou descoloração no cabelo?
  • Pergunta 4 Quanto tempo dura, na prática, a cobertura de brancos “natural”?
  • Pergunta 5 É melhor assumir os brancos do que continuar a tentar escondê-los?

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