A primeira manhã fria apanha-nos sempre desprevenidos. Num dia, está a comer figos aquecidos pelo sol; no seguinte, está a vestir uma camisola e a olhar para uma árvore que, de repente, parece… acabada. As folhas ficam castanho-couro nas bordas, os figos encolhem em vez de crescerem, e todo o jardim dá a sensação de estar a inspirar fundo antes do inverno.
É normalmente nessa altura que as pessoas passam pela figueira, suspiram e pensam: “Enfim, para o ano.”
Mas outubro tem uma janela silenciosa em que a figueira deixa de se apressar a crescer e começa a assentar - e é exatamente aí que pode acontecer algo mágico entre si, uma tesoura de poda e alguns ramos nus.
A estação está a fechar.
A época de propagação está a abrir.
Porque é que outubro é, secretamente, a melhor altura para cortar estacas de figueira
Aproxime-se de uma figueira a meio de outubro e sente a mudança. O crescimento frenético do verão fez uma pausa, a circulação da seiva abrandou e os ramos têm aquele toque firme e “maduro” debaixo dos dedos. Já não estão moles e verdes, mas ainda não foram endurecidos pelo inverno profundo.
Este momento intermédio é ouro.
As estacas tiradas agora têm menos probabilidade de apodrecer do que na primavera quente e húmida, e entram serenamente em dormência em vez de lutarem contra o calor e a sede. A sua figueira está calma, o solo ainda está ameno, e está a trabalhar num ar fresco e indulgente, em vez do sol impiedoso de julho.
Imagine isto: uma leitora de Leeds escreveu que cortou dez ramos de figueira num domingo cinzento do outubro passado. Espetou-os num vaso fundo encostado a uma parede virada a sul, meio convencida de que nada iria acontecer. O inverno chegou, o vaso apanhou algumas geadas, alguma chuva, e um pouco de negligência.
Em março, apareceram pequenos relevos pálidos na casca. Em abril, cinco das dez estacas já tinham lançado folhas.
Isto é uma taxa de sucesso de 50% a partir do que pareciam paus mortos deixados ao lado dos caixotes do lixo. Deu duas a vizinhos, ficou com três, e agora existe uma pequena rede de figueiras “irmãs” na sua rua, nascidas daquela tarde preguiçosa de outubro.
Há uma razão simples para as estacas de outubro funcionarem tão bem. A madeira que está a cortar é semi-lenhosa a lenhosa: o crescimento deste ano que teve tempo de amadurecer, cheio de energia armazenada, mas ainda não stressado por temperaturas geladas. Esse equilíbrio permite que a estaca aguente o inverno sem ser tão tenra que os fungos a ataquem à primeira oportunidade.
As raízes formam-se nos meses silenciosos, quase sem se ver. Enquanto está ocupado com férias e trabalho, a ponta enterrada da estaca está a inchar, a emitir primórdios de raízes, a preparar-se para acordar quando a temperatura do solo subir.
Sejamos honestos: ninguém vai verificar as estacas todos os dias. A beleza das estacas de figueira em outubro é precisamente não ter de o fazer.
Como fazer estacas de figueira em outubro, passo a passo
Comece pela madeira certa. Procure o crescimento deste ano: casca lisa, firme, com a espessura de um lápis, sem pontas verdes e moles nem zonas enrugadas. Corte segmentos com cerca de 15–20 cm, cada um com 3–4 nós (aqueles pequenos “caroços” onde antes estiveram folhas e figos).
Use tesouras de poda limpas e afiadas e corte logo abaixo de um nó na base, e logo acima de um nó no topo. Incline ligeiramente o corte de cima para que a chuva não fique ali parada, caso esteja a enraizar no exterior.
Retire quaisquer folhas que ainda restem. Quer paus nus, não raminhos meio vestidos que perdem água por cada cicatriz de folha.
Muitos jardineiros complicam demasiado esta parte e depois desistem. Pesquisam hormonas de enraizamento, propagadores aquecidos, misturas especializadas de substrato, e de repente as estacas de figueira parecem um projeto de laboratório em vez de uma tarefa de domingo.
Aqui vai a versão tranquila. Encha um vaso alto ou um balde com uma mistura bem leve: metade composto, metade areia grossa (areão) ou perlita. Introduza cada estaca até dois terços do seu comprimento, com alguma firmeza, para que se apoiem umas nas outras. Regue uma vez, devagar, até a mistura ficar uniformemente húmida, mas não encharcada.
Depois, pare de mexer. O erro mais comum é regar em excesso durante o inverno e transformar aquele vaso esperançoso numa fábrica de bolor.
Encoste o vaso a uma parede abrigada, coloque-o num canteiro protegido (cold frame) ou numa estufa sem aquecimento. As figueiras não precisam de mimos; até apreciam algum frio, desde que as raízes não fiquem “sentadas” em gelo.
“A razão mais comum para as estacas de figueira falharem não é o frio”, diz Maria, colecionadora amadora de figueiras em Bristol. “É as pessoas afogarem-nas com amor - e com a mangueira.”
Lembre-se do que realmente conta:
- Escolha madeira-mãe saudável, sem doenças
- Use uma mistura leve e bem drenante para que a base não fique encharcada
- Identifique o vaso com a variedade e a data
- Mantenha o vaso num local fresco, luminoso e protegido de ventos fortes
- Resista à tentação de puxar e “verificar” as raízes todas as semanas
Viver com a sua futura floresta de figueiras
Há algo estranhamente comovente em ver um pau transformar-se numa árvore. Numa manhã do fim da primavera, repara num pequeno bico verde a empurrar a casca; depois outro; e, de repente, aquela estaca castanha e baça está a declarar-se viva. Lembra-se do dia frio em que a cortou, do cheiro ténue da seiva, da satisfação silenciosa de as alinhar no vaso.
Essas estacas enraizadas tornam-se mais do que plantas. Tornam-se presentes para amigos, um plano B caso a sua figueira principal seja atingida por um inverno rigoroso, uma forma de levar uma variedade querida de um jardim para o seguinte.
Todos já passámos por isso: aquele momento em que pensa que chegou “tarde” ao jardim, que tudo está a abrandar e que já perdeu a oportunidade. As estacas de figueira de outubro viram essa sensação do avesso e sussurram que os finais podem ser novos começos disfarçados.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Melhor altura | Tirar estacas de semi-lenhosa a lenhosa em outubro, quando o crescimento abrandou | Maior taxa de sucesso, menos apodrecimento, menos esforço do que tentativas na primavera |
| Método simples | Estacas de 15–20 cm, 3–4 nós, numa mistura bem drenante, num vaso alto | Técnica clara e repetível que funciona em espaços pequenos |
| Cuidados de baixa manutenção | Local fresco, luminoso e abrigado, com regas mínimas no inverno | Propagação sem stress, compatível com vidas ocupadas |
FAQ:
- Ainda posso tirar estacas de figueira se a minha árvore já perdeu todas as folhas? Sim. Desde que a madeira seja do crescimento deste ano, firme e saudável, estacas sem folhas em outubro ou no início de novembro podem enraizar bem.
- Preciso de hormona de enraizamento para estacas de figueira? Não. As figueiras enraízam com facilidade. O pó hormonal pode ajudar um pouco, mas uma boa madeira e uma mistura bem drenante são mais importantes.
- Devo manter as estacas de figueira dentro de casa durante o inverno? Não num parapeito quente. Um local fresco e protegido da geada, como uma estufa sem aquecimento, um alpendre ou encostadas a uma parede da casa, costuma ser melhor.
- Quando vou saber se as minhas estacas de figueira tiveram sucesso? Muitas vezes no início a meio da primavera. Gomos novos a inchar e folhas a surgir são bons sinais; uma resistência suave ao puxar indica que as raízes estão a formar-se.
- Quanto tempo demora uma figueira de estaca a dar fruto? Com boa luz e rega adequada, muitas figueiras frutificam em 2–3 anos a partir de uma estaca, por vezes mais cedo num jardim quente e abrigado ou num vaso grande.
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