De linhas costeiras a oleodutos transfronteiriços, vastas áreas continuam a escapar às malhas das ferramentas tradicionais de vigilância aérea e de patrulhamento.
Com regras europeias mais exigentes e orçamentos mais apertados, a Thales aposta que uma nova classe de drones de longo alcance pode fechar estas lacunas - e tornar escaláveis operações que, até aqui, eram caras, complexas ou pontuais. O sistema chama-se UAS100 e tem certificação prevista para 2025.
Um batedor silencioso concebido para longas distâncias
A Thales descreve o UAS100 menos como “drone de demonstração” e mais como plataforma de trabalho: um UAS de asa fixa, com propulsão híbrida, pensado para missões longas e repetíveis - centenas de quilómetros por saída.
Ao contrário de quadricópteros (ótimos para proximidade), o UAS100 aponta a operações BVLOS (beyond visual line of sight), em que o piloto já não tem contacto visual direto com a aeronave. É aqui que entram as exigências difíceis: comunicações robustas, navegação fiável e procedimentos automáticos de segurança.
Foi concebido para duração, distância e repetibilidade - não para acrobacias ou filmagens de perto.
O perfil encaixa em tarefas “lineares” e de grande área: vigilância costeira, monitorização de fronteiras, inspeção de linhas elétricas e condutas, apoio policial em zonas extensas, observação ambiental e busca e salvamento quando a persistência é mais valiosa do que a velocidade. Em Portugal, isto traduz-se bem em costa extensa, áreas florestais e infraestruturas distribuídas (rede elétrica, ferrovia, adutoras e gasodutos).
Do legado aeronáutico à tomada de decisão autónoma
A autonomia como o verdadeiro gargalo
Em longo alcance, a limitação não é só energia. É autonomia “operacional”: o que o drone faz quando o mundo real não segue o plano.
Quanto mais longe voa, mais provável é enfrentar vento e meteorologia inesperados, zonas com cobertura de comunicações irregular, interferência GNSS ou restrições temporárias de espaço aéreo. Para reguladores, as perguntas críticas são simples e implacáveis: o que acontece num lost link? Como evita áreas proibidas? Como reduz risco para pessoas no solo?
A Thales puxa pela experiência em aviônica certificada: gestão de voo e navegação derivadas da aviação tripulada, adaptadas ao não tripulado e à automatização.
O que conta é comportamento previsível, rastreável e explicável - mesmo sem mãos nos comandos.
Na prática, isso costuma implicar (e é aqui que muitas operações BVLOS “emperram”):
- Procedimentos de contingência pré-definidos: manter órbita segura, regressar à base, desviar para corredor alternativo ou aterrar num ponto de recuperação previsto (consoante limiares e cenário).
- Geocercas e gestão de rotas para respeitar zonas restritas e limitações temporárias (por exemplo, perto de aeródromos, heliportos, incêndios ou operações de emergência).
- Resiliência de navegação (mitigação de interferência/spoofing) e verificação contínua de integridade, porque “perder” a referência de posição é um risco operacional, não um detalhe técnico.
Uma estação de controlo pensada para um único operador
Em terra, a estação de controlo foi desenhada para um único supervisor, com uma interface que junta estado do voo, meteorologia, espaço aéreo e dados da carga útil. A ideia é reduzir trabalho manual: o operador supervisiona e intervém em exceções, em vez de pilotar “ao stick”.
As verificações pré-voo (conflitos de espaço aéreo, restrições e lógica da missão) são automatizadas. Em operações reais, isto é decisivo para consistência - e para auditorias pós-voo quando há incidentes ou inspeções.
Os dados dos sensores são enviados e guardados em cloud privada e segura, ponto relevante para clientes com informação sensível. Em Portugal/UE, este tema também cruza RGPD: recolha de imagem/telemetria deve ter base legal, retenção definida e controlos de acesso (especialmente em usos policiais ou sobre zonas habitadas).
Um livro de regras europeu estruturado, não um faroeste regulatório
Na Europa, a fase “cada um faz como pode” acabou. O quadro EASA (em vigor desde 2020, com transições concluídas nos anos seguintes) estruturou operações por categorias e risco. BVLOS com alcance e impacto elevados tende a cair na categoria “específica” (com avaliação SORA) e, em casos mais exigentes, pode aproximar-se da categoria “certificada”.
A avaliação já não olha apenas para o drone: cobre o sistema completo - aeronave, ligação de comando e controlo, estação de solo, manutenção, formação, procedimentos e mitigação de risco. Em Portugal, isto traduz-se, tipicamente, em articulação com a ANAC e, quando aplicável, coordenação de espaço aéreo/condicionamentos operacionais com entidades relevantes.
Quanto maior o alcance e a proximidade de espaço aéreo sensível, mais “avião” tem de ser o processo - em documentação, segurança e disciplina operacional.
Para a Thales, isto pode ser vantagem: a fasquia alta favorece quem já vive de certificação, safety cases e ciclos longos de engenharia - e torna mais difícil competir só com rapidez e protótipos.
Dentro do UAS100: alcance, configuração e missões-alvo
Duas envergaduras para diferentes cenários
O UAS100 é apresentado como família. Há uma versão já testada com 3,3 m de envergadura e uma variante maior de 6,7 m em preparação. Ambas mantêm a lógica de propulsão híbrida e foco em eficiência.
O alcance operacional anunciado é 200 a 600 km, dependendo da configuração e do perfil de missão. Na prática, o “alcance útil” costuma ser condicionado por: vento (particularmente relevante na fachada atlântica), reservas de segurança, enlaces de comunicações e disponibilidade de pontos de recuperação.
| Caraterística-chave do UAS100 | Descrição |
|---|---|
| Tipo de drone | Asa fixa com propulsão híbrida |
| Envergadura | 3,3 m (testes de voo) / 6,7 m (variante maior) |
| Alcance operacional | 200–600 km, conforme a versão e a missão |
| Conceito de autonomia | Automatização pré-definida com supervisão por um único operador |
| Navegação | Reforçada contra interferência e ambientes eletromagnéticos complexos |
| Estação de solo | Supervisão em tempo real por um operador treinado |
| Tratamento de dados | Armazenamento numa cloud privada e segura |
| Utilizações principais | Vigilância costeira e de fronteiras, aplicação da lei, inspeção de infraestruturas lineares |
| Calendário | Testes de voo em curso, certificação completa prevista para o final de 2025 |
Um trade-off pouco “glamouroso” mas real: híbrido tende a melhorar autonomia, mas também pode aumentar complexidade (manutenção, logística de combustível, gestão térmica e ruído). É muitas vezes aí que o custo total de operação se decide.
Casos de utilização concretos em terra e no mar
A Thales posiciona o UAS100 como ferramenta operacional para guardas costeiras, forças de segurança, energia e operadores de infraestruturas.
- Vigilância costeira (embarcações suspeitas, plumas de poluição).
- Monitorização de fronteiras em zonas remotas.
- Inspeção de ativos lineares (linhas de energia, condutas, ferrovia).
- Apoio a busca e salvamento com cobertura persistente.
Em muitas destas missões, o objetivo é reduzir horas de meios tripulados e aumentar frequência de inspeção. Ainda assim, há limites: asas fixas exigem planeamento de lançamento/recuperação e corredores de operação; e BVLOS em ambiente misto (pessoas, estradas, proximidade de aeródromos) pode exigir mitigação adicional e restringir rotas.
O valor está na continuidade: detetar uma anomalia, segui-la no tempo e entregar dados acionáveis rapidamente.
Um mercado em rápido crescimento com concorrência de peso
De ensaios de nicho à escala industrial
O longo alcance é uma fatia pequena em volume, mas grande em valor. Há previsões de crescimento forte: receitas de inspeção e monitorização por drones podem subir de 15,2 mil milhões de dólares (2025) para 61,5 mil milhões (2035).
Os motores são claros: infraestruturas envelhecidas, metas de descarbonização, falta de mão-de-obra e exigências de reporte/monitorização mais rigorosas. Também cresce o interesse em drones para tarefas “chatas mas críticas” - inspeções repetitivas, pós-tempestade, pós-incêndio, verificação de ativos.
O endurecimento regulatório empurra o setor para documentação e certificação - o que tende a favorecer empresas com histórico em processos aeronáuticos formais.
Rivais pela Europa e além
A Thales entra num ecossistema já povoado, com abordagens diferentes (VTOL embarcado, mapeamento, MALE ligeiro).
| Empresa / sistema | Tipo | Segmento principal | Foco em alcance / autonomia | Utilizações típicas |
|---|---|---|---|---|
| Thales – UAS100 | Asa fixa, propulsão híbrida | Inspeção e vigilância de longo alcance | 200–600 km | Segurança costeira e de fronteiras, inspeção de infraestruturas |
| TEKEVER – AR5 | Asa fixa MALE ligeira | Vigilância marítima e missões longas | Autonomia otimizada para patrulha | Busca e salvamento, patrulha marítima |
| Schiebel – CAMCOPTER S-100 | VTOL, estilo helicóptero | Operações embarcadas e costeiras | Até ~200 km | Vigilância costeira, segurança civil, operações offshore |
| Quantum Systems – gama Trinity | Asa fixa eVTOL | Cartografia de grandes áreas | Até cerca de 90 min | Levantamentos, cartografia, topografia |
| Wingtra – WingtraOne Gen II | Asa fixa VTOL | Cartografia profissional | Até cerca de 1 hora | Construção, mineração, levantamentos de infraestruturas |
| Delair – UX11 | Asa fixa | Cartografia e recolha de dados | Desempenho varia por variante | Cartografia e inspeção de áreas extensas |
O UAS100 tenta posicionar-se na faixa superior de alcance e automatização, próximo de sistemas MALE ligeiros, mas com foco civil e de duplo uso - onde o sucesso depende tanto de certificação e operação como de desempenho.
O que BVLOS e SORA significam na prática
Dois termos explicam a “dificuldade escondida”:
- BVLOS: voos fora da linha de vista. Permitem escala, mas exigem comunicações robustas, mitigação de risco no solo e, muitas vezes, capacidades de detect-and-avoid e geofencing.
- SORA: método usado na UE para avaliar risco e definir salvaguardas (técnicas e organizacionais) antes de aprovar uma operação na categoria específica.
Na prática, uma inspeção de 400 km de linhas elétricas não é “só programar a rota”: é mapear densidade populacional, cruzamentos com estradas, zonas de aproximação a aeródromos, alternativas de emergência e limites meteorológicos - e depois provar que a automação, treino e procedimentos cobrem esses riscos de forma verificável.
Benefícios, riscos e cenários do mundo real
Benefícios reais: menos horas de meios tripulados, menos exposição de equipas a zonas perigosas e dados consistentes (comparáveis semana a semana) para deteção de anomalias - inclusive com apoio de algoritmos, desde que haja qualidade e repetibilidade de captura.
Riscos reais: interferência/spoofing nas comunicações e navegação, erros de software em decisões automáticas, e cibersegurança/controlo de acesso quando os dados vão para cloud. Um erro raro mas crítico em BVLOS tende a ser tratado como problema de sistema, não “azar”.
O teste não é o desempenho em condições ideais; é como o sistema degrada com falhas e ainda assim termina em segurança.
Um cenário plausível é uso partilhado: um operador de infraestruturas contrata um prestador para inspeções regulares, enquanto uma entidade costeira usa a mesma plataforma em épocas específicas. Reutilizar estação de solo, procedimentos e cadeia de dados ajuda a baixar custo por missão - desde que não se comprometam requisitos de segurança e conformidade.
Se a Thales alcançar certificação completa até 2025, como prevê, o UAS100 pode tornar-se um bom indicador de como a Europa está a industrializar BVLOS: com autonomia suficiente para escalar, mas com padrões e auditorabilidade ao nível da aviação.
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