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Durante décadas, uma mina de ouro de 70 mil milhões de euros esteve à vista, mas só a China soube realmente como explorá-la.

Técnico retira circuito imprimido de solução líquida numa bancada, com partículas douradas ao lado, simbolizando reciclagem.

Os investigadores na China afirmam ter identificado um método mais seguro e económico para recuperar metais preciosos retidos no lixo eletrónico, convertendo um problema de resíduos numa fonte importante de matérias‑primas.

Uma corrida ao ouro escondida à vista de todos

O seu primeiro smartphone, um tablet antigo, um portátil esquecido no sótão: quase todos guardam pequenas quantidades de ouro (e também paládio), sobretudo em conectores e em revestimentos de componentes. Em cada aparelho é pouco; em conjunto, estes “microvestígios” somam uma mina urbana maior do que muitas explorações tradicionais.

O volume global de lixo eletrónico continua a aumentar. Projeções da ONU apontam para cerca de 82 milhões de toneladas/ano em 2030. Parte desse total são placas de circuito (PCBs), processadores e motherboards - exatamente onde se concentram os metais de maior valor.

A “mina” não está debaixo da terra; está espalhada por casas, armazéns e parques de sucata nas cidades.

O desafio sempre foi capturar esse valor sem deixar um rasto de poluição e risco para as pessoas.

Porque é que ninguém usava realmente esta mina de forma adequada

A recuperação tradicional de ouro em eletrónica costuma depender de química agressiva (incluindo lixiviação com cianeto) ou de fundição a temperaturas muito elevadas. Ambas as vias funcionam, mas podem ser dispendiosas, intensivas em energia e perigosas se não forem rigorosamente controladas.

Na prática, isso criou um paradoxo: sabia‑se que as placas tinham valor, mas muita sucata continuava a ir parar a aterros ou a circuitos informais. Em cadeias informais, a queima de cabos e banhos ácidos improvisados ainda expõem pessoas a fumos e efluentes tóxicos por margens muito pequenas.

Há ainda um fator frequentemente subestimado: o custo não é apenas “dissolver o metal”. Recolha, triagem, desmontagem (remoção de baterias, ecrãs, condensadores) e preparação do material representam, muitas vezes, a maior fatia da complexidade e da despesa.

Um truque químico inteligente que faz o ouro dissolver-se “sozinho”

Um efeito dominó na superfície do metal

O processo foi desenvolvido por uma equipa do Guangzhou Institute of Energy Conversion (Academia Chinesa de Ciências), em colaboração com a South China University of Technology. Em vez de fornos ou ácidos fortes, recorre a uma solução aquosa com dois sais comuns: peroximonossulfato de potássio e cloreto de potássio.

A peça central da ideia: quando a solução toca no ouro ou no paládio da placa, o próprio metal funciona como catalisador e inicia reações à superfície. Geram-se oxidantes altamente reativos (como oxigénio singleto e ácido hipocloroso), que libertam átomos do metal e os mantêm estáveis em solução ao ligarem-se a iões cloreto.

Na prática, o metal “colabora” na sua própria dissolução, criando uma solução recuperável sem o perfil típico do cianeto.

Nota importante: “mais suave” não é sinónimo de inofensivo. Oxidantes e espécies cloradas requerem controlo industrial (ventilação, materiais resistentes à corrosão, efluentes em circuito fechado).

De chips usados a quase todo o ouro

Em ensaios com processadores usados e placas de circuito impresso, o método recuperou cerca de 98,2% do ouro em 20 minutos, à temperatura ambiente. No caso do paládio, a recuperação atingiu aproximadamente 93,4%.

Os autores referem que, em média, 10 kg de placas produzem ~1,4 g de ouro. Estimam um custo total de ~65 € para tratar esses 10 kg, o que equivale a ~1 350 € por onça troy (1 onça troy ≈ 31,1 g) de ouro recuperado - abaixo de preços recentes do ouro (que oscilam e podem mudar rapidamente).

Dois pontos de atenção ao interpretar estes valores:

  • Em laboratório, o material de entrada costuma estar melhor preparado (menos mistura, menos contaminantes); no mundo real, a variabilidade das placas pode reduzir rendimento e aumentar tempos.
  • A “conta final” numa unidade industrial inclui recolha, logística, mão de obra e tratamento de resíduos, não apenas os reagentes.

Mais barato, mais limpo e pensado para escalar

Reduzir a fatura energética e química

Além de recuperar muito metal, o processo distingue-se pelo que evita: temperaturas elevadas e reagentes mais perigosos e dispendiosos. A equipa estima cerca de menos ~62% de energia face a métodos industriais típicos e uma redução superior a 90% na despesa com reagentes quando comparado com abordagens baseadas em cianeto.

Menos energia tende a traduzir-se em menor custo operacional e menor pegada carbónica. Menos reagentes “pesados” pode facilitar licenciamento ambiental e diminuir passivos de contaminação - desde que a gestão de efluentes seja rigorosa.

Depois da lixiviação, o ouro dissolvido é recuperado por técnicas padrão de redução/purificação, obtendo-se metal de elevada pureza.

Um processo que pode sair do laboratório

Os investigadores defendem que isto pode tornar-se uma linha industrial compacta: sem fornos gigantes e sem catalisadores raros. Em teoria, pode ser instalado perto de centros de recolha e triagem, reduzindo o transporte de sucata e mantendo mais valor a nível local.

Ainda assim, a escalabilidade depende de algo menos “sexy” do que a química: uma cadeia estável de DEEE bem separado (placas, fontes, periféricos) e um pré-tratamento consistente. Sem isso, o processo pode tornar-se caro, lento e imprevisível.

Como se chega a 70 mil milhões de euros por ano a partir de telemóveis antigos

Fazer as contas à “mina” invisível

A equipa (com base em dados da ONU) apresenta um cálculo de ordem de grandeza:

  • Lixo eletrónico global projetado para 2030: ~82 milhões de toneladas/ano
  • Percentagem de placas de circuito: ~5% em média (3%–7%)
  • Placas potencialmente tratáveis: ~4,1 milhões de toneladas
  • Teor médio: ~140 g de ouro por tonelada de placas
  • Ouro teórico: ~574 toneladas/ano
  • Com 98,2% de recuperação: ~564 toneladas/ano

Uma tonelada de ouro corresponde a ~32 150,7 onças troy. Multiplicando ~564 toneladas, obtém-se ~18,1 milhões de onças. Com preços acima de ~3 800 €/onça, o valor anual do ouro recuperado aproxima-se de 70 mil milhões de euros (assumindo recolha e processamento em escala e com eficiência semelhante).

Este “valor de manchete” não inclui outros metais relevantes nas placas (paládio, prata, cobre), que podem aumentar substancialmente o total - mas também exigem etapas adicionais de separação e refinação.

O que isto pode significar para a mineração, a geopolítica e as famílias

Pressão sobre a mineração tradicional de ouro

Se técnicas deste tipo forem adotadas, podem aliviar parte da pressão sobre a mineração primária, sobretudo em operações com maiores impactos ambientais e sociais. A reciclagem não substitui a mineração (a procura e as aplicações variam), mas pode adiar novas explorações e ajudar a estabilizar o abastecimento em alguns mercados.

Para países com pouco ouro “no solo”, mas elevado consumo de eletrónica, o “stock” de equipamentos em fim de vida passa a ser um recurso estratégico - desde que exista recolha eficaz.

Novos intervenientes no jogo dos metais

A China já é forte no processamento de materiais críticos; uma reciclagem eficiente de metais preciosos pode reforçar essa vantagem. Ao mesmo tempo, a abordagem química descrita não é, à partida, exclusiva: quem conseguir recolher, separar e tratar DEEE em escala pode licenciar processos ou desenvolver variantes.

Isto pode influenciar políticas públicas: retomas em lojas, pontos de recolha acessíveis e sistemas de depósito deixam de ser apenas medidas “ambientais” e passam a ser instrumentos industriais.

O que isto significa para os seus eletrónicos antigos

Para uma família, o ouro por telemóvel continua a ser muito pouco (muitas vezes, cêntimos). Não compensa “fazer em casa” - além de ilegal e perigoso, pode libertar fumos e resíduos tóxicos.

O que faz diferença é encaminhar corretamente:

  • Em Portugal, entregue DEEE em pontos de recolha/eco-centros, programas de retoma ou operadores autorizados (muitas lojas aceitam pequenos equipamentos).
  • Retire baterias soltas quando possível (risco de incêndio em armazenamento e transporte) e apague dados antes de entregar equipamentos.

Quanto melhor for a recolha e a triagem, mais matéria‑prima limpa chega a processos avançados - e maior a probabilidade de o valor ficar no país/região, em vez de se perder em aterro ou em circuitos informais.

Conceitos-chave que vale a pena destrinçar

O que significa, na prática, “lixiviação autocatalítica”

“Lixiviação” é dissolver um metal a partir de um sólido. “Autocatalítica” significa que o próprio metal acelera a reação.

Aqui, ouro e paládio promovem a formação de oxidantes reativos exatamente onde estão (na superfície). A reação tende a ser eficiente enquanto existir metal exposto e abranda quando o metal disponível diminui, o que ajuda a operar à temperatura ambiente e a reduzir excessos de reagentes.

Riscos, limites e próximos passos

Mesmo um método mais “verde” tem limites:

  • Escalar exige gestão rigorosa de soluções oxidantes e cloradas, controlo de corrosão e tratamento de efluentes (idealmente em circuito fechado).
  • O processo é mais adequado a frações ricas (placas, certos componentes). Plásticos, misturas sujas e materiais com retardantes de chama continuam a exigir outras rotas de reciclagem.
  • A recolha e o pré-tratamento são decisivos: sem triagem e desmontagem, o rendimento diminui e a segurança piora.

Há também um impacto social: em muitas regiões, a reciclagem informal sustenta famílias. A transição para reciclagem industrial precisa de criar alternativas mais seguras (emprego formal, formação, fiscalização), para não trocar poluição por exclusão.

Ainda assim, a direção é clara: um fluxo de resíduos que cresce todos os anos pode transformar-se numa fonte estável de metais valiosos. A “mina” já existe; o desafio é explorá-la sem empurrar o problema para outro lugar.

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