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A regra dos 19°C acabou; veja o que os especialistas recomendam agora para o aquecimento.

Mão ajusta termostato digital numa sala aconchegante com luz quente e cama ao fundo, mostrando 20°C e 45% de humidade.

A regra dos 19°C é de outros tempos

Os 19°C tornaram-se populares mais por razões de poupança do que por “ciência do conforto”: ganharam tração nas crises do petróleo dos anos 1970, numa altura em que se queria conter consumos em casas mal isoladas, com muitas infiltrações e sistemas de aquecimento pouco eficientes.

Hoje, o contexto é diferente (ainda que nem todas as casas em Portugal estejam bem preparadas): janelas duplas, isolamento em coberturas, bombas de calor, piso radiante e controlo digital. E, acima de tudo, mudaram os hábitos: mais tempo em casa, mais trabalho sedentário e mais divisões com funções distintas.

Uma única temperatura “ideal” deixou de fazer sentido quando conforto e perdas de calor variam tanto de divisão para divisão.

Insistir cegamente nos 19°C pode ter um efeito perverso: desconforto na sala (onde se está mais parado) e, depois, “remendos” pouco eficientes - aquecedores elétricos portáteis, radiadores tapados por estendais, ou janelas abertas para “aliviar” uma zona que sobreaqueceu enquanto outras permaneceram frias.

Porque é que os 20°C estão a tornar-se a nova referência

Em muitas recomendações europeias sobre energia e conforto, 20°C nas zonas de estar surge como uma referência mais realista do que 19°C - não como regra absoluta.

A 20°C, a maioria das pessoas sente-se mais confortável em atividades sedentárias (ler, ver TV, usar portátil). Um grau parece pouco, mas quando se está imóvel durante horas, muita gente nota a diferença.

O valor no termóstato não explica tudo. Há dois fatores que influenciam muito a sensação térmica:

  • Correntes de ar: infiltrações fazem 19–20°C parecer “cortante”.
  • Humidade: em geral, uma humidade relativa na ordem dos 40–60% é mais confortável; ar demasiado seco pode aumentar a sensação de frio, e ar húmido favorece condensação.

Para muitas famílias, 20°C na sala equilibra melhor conforto, saúde e controlo de consumo - desde que o resto da casa não seja aquecido sem necessidade.

Há também a “saúde” do edifício: manter a casa demasiado fria durante longos períodos aumenta o risco de condensação (sobretudo em vidros, cantos e paredes frias). Condensação repetida cria condições para bolor, comum atrás de móveis encostados a paredes exteriores e em zonas com pouca circulação de ar. Uma temperatura um pouco mais estável, mais ventilação e menos humidade acumulada ajudam a reduzir esse risco.

O fim de uma só temperatura para toda a casa

Em vez de procurar “a” temperatura certa para a casa inteira, faz mais sentido gerir por divisão e por horários: aquecer bem onde se vive, menos onde se passa, e apenas quando é necessário.

Temperaturas recomendadas por divisão

Divisão Intervalo recomendado Principal benefício
Sala / escritório em casa 20°C Conforto para atividades sedentárias
Quartos 16–18°C Melhor qualidade do sono
Casa de banho Cerca de 22°C quando em uso Menos choque térmico ao tomar banho
Entradas e corredores Cerca de 17°C Limita perdas de calor, poupando energia

A lógica é simples: salas e open spaces (sala/cozinha) costumam concentrar mais horas acordadas e mais tempo parado - faz sentido apontar para 20°C aí. Nos quartos, ar mais fresco tende a favorecer o sono; muitas pessoas descansam melhor abaixo de 19°C, desde que a cama esteja bem equipada (edredão adequado) e não haja humidade.

A casa de banho é a exceção: 22°C apenas durante a utilização reduz o choque ao sair do duche, mas aquecer esse espaço o dia inteiro raramente compensa.

Pense na casa como microclimas: conforto onde precisa, poupança onde não precisa.

Regra prática útil: se uma divisão está sempre “fria” mesmo com aquecimento, muitas vezes o problema é infiltração de ar, falta de isolamento local ou radiadores mal dimensionados/obstruídos, e não “falta de graus”.

Como a tecnologia de aquecimento inteligente muda as regras

A estratégia por divisões tornou-se viável porque o controlo evoluiu. Antes, um termóstato num corredor “mandava” em tudo. Hoje, com termóstatos programáveis e válvulas termostáticas (muitas já inteligentes), é possível ajustar por zona e por hora.

  • Termóstatos digitais permitem definir horários (ex.: sala só ao fim da tarde).
  • Válvulas termostáticas ajudam a não aquecer quartos vazios.
  • Apps e contadores revelam padrões de consumo e picos.

Alguns fabricantes apontam poupanças até ~15% com boa programação, mas isso varia muito com o tipo de casa e os hábitos. E a conta não é linear: como regra de bolso, +1°C pode aumentar o consumo em cerca de 6–10%, mas o efeito real depende do isolamento, do sistema e do clima.

Um detalhe frequentemente ignorado: “poupar” aquecendo pouco e depois compensar com um aquecedor portátil pode sair caro. Um aquecedor elétrico de 2 kW ligado 3 horas consome 6 kWh numa noite - e isso sente-se depressa na fatura.

Em resumo: uma casa ligeiramente mais quente na divisão certa, com bom controlo, pode custar menos do que uma casa mais fria gerida em modo “tudo ou nada”.

Equilibrar faturas de energia, conforto e metas climáticas

Adotar 20°C como referência na sala não significa transformar a casa numa sauna. É evitar extremos: nem frio persistente (com riscos e remendos caros), nem 22–23°C constantes em toda a casa.

Ajustes que costumam resultar sem complicar:

  • Baixar à noite nas zonas de estar e manter quartos frescos, sem “gelar” a casa.
  • Reduzir em divisões sem uso (fechar portas ajuda), em vez de baixar tudo.
  • Programar a casa de banho para aquecer pouco antes de ser usada.
  • Preferir estabilidade moderada a grandes oscilações (aquecimentos “aos solavancos” tendem a ser menos confortáveis).

Pequenas melhorias no “invólucro” muitas vezes valem mais do que mexer no termóstato:

  • Vedação de frestas em janelas/portas e caixas de estore.
  • Cortinas mais pesadas à noite (sem tapar radiadores).
  • Painel refletor atrás de radiadores em paredes exteriores, quando faz sentido.

Erros comuns: secar roupa em cima de radiadores (bloqueia calor para a divisão e aumenta a humidade), encostar móveis grandes a paredes frias (cria zonas propícias a bolor) e aquecer corredores “porque sim”.

O que “conforto térmico” realmente significa

Conforto térmico não é apenas “graus”. É o resultado de:

  • temperatura do ar,
  • humidade,
  • correntes de ar,
  • temperatura das superfícies (paredes/janelas),
  • roupa e nível de atividade.

Exemplo típico: junto a uma janela fria, pode sentir desconforto mesmo a 20°C porque o corpo perde calor para essa superfície. Em casas com melhor isolamento e menos infiltrações, 20°C costuma “render” mais - sente-se mais quente com o mesmo valor no termóstato.

A atividade também conta: quem cozinha ou limpa tolera menos aquecimento; quem trabalha ao portátil precisa de mais conforto (ou mais roupa). Por vezes, a solução prática é melhorar o “microclima” (ex.: vedar uma janela por onde entra ar) em vez de subir 2°C na casa inteira.

Cenários reais: como é passar de 19°C para 20°C

Num apartamento médio, aquecido sobretudo ao fim da tarde e aos fins de semana, manter 19°C em toda a casa pode traduzir-se em queixas na sala e uso frequente de aquecedor portátil à noite.

Uma abordagem mais eficaz costuma ser:

  • Sala a 20°C entre 17h e 22h (quando a casa é realmente usada).
  • Corredor a ~17°C.
  • Quartos a 16–17°C durante a noite.
  • Casa de banho a ~22°C apenas em dois períodos curtos (manhã e fim do dia).

Assim, o sistema principal trabalha um pouco mais na sala, mas menos no resto. E, se o aquecedor elétrico portátil deixar de ser necessário e se acabarem as “aberturas de janela” para compensar sobreaquecimento local, o custo total pode ficar mais baixo do que a regra simplista do “+7% por grau” faria imaginar.

O ganho vem, muitas vezes, mais de zonas + horários + menos desperdício do que do número exato (19 vs 20).

Riscos de aquecer pouco e de aquecer demais

Aquecer pouco durante semanas não é só desconforto. Em pessoas vulneráveis (idosos, bebés, doentes respiratórios), o frio persistente pode ser um risco real. E casas frias e húmidas tendem a ter mais condensação e bolor, o que agrava problemas como asma e alergias.

No extremo oposto, manter 22–23°C em toda a casa durante todo o inverno aumenta custos e emissões, sobretudo com sistemas a gás/gasóleo e em casas com perdas elevadas.

A orientação mais útil hoje é pragmática: um pouco mais quente nas zonas-chave (muitas vezes 20°C), mais fresco onde o calor é menos crítico, e controlo inteligente. A pergunta deixa de ser “Tenho de ficar nos 19°C?” e passa a ser: “Onde é que 20°C me dá conforto real - e onde posso baixar sem perder saúde nem bem-estar?”

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