A primeira vez que te apercebes de que as tuas ancas estão mesmo rígidas raramente acontece num estúdio de ioga. Normalmente acontece num sítio brutalmente honesto - como tentar levantar-te do chão enquanto brincas com uma criança, ou mexer-te na cadeira do escritório pela 30.ª vez numa hora porque a zona lombar está a resmungar. Sentes-te estranhamente preso dentro do teu próprio corpo, como se a tua bacia se tivesse transformado numa dobradiça teimosa que se recusa a abrir.
Dizes a ti próprio que vais alongar “mais tarde”. O mais tarde não chega. A rigidez torna-se silenciosamente normal, até ao dia em que tentas passar por cima de um muro baixo, ou sentar-te de pernas cruzadas numa manta de piquenique, e as tuas ancas devolvem-te uma mensagem muito clara: não.
E se 14 posturas simples de ioga pudessem começar a mudar essa história?
Porque é que as tuas ancas parecem mais velhas do que tu
Passa um dia a reparar com que frequência as tuas ancas realmente se mexem. Não só aquele nível “andar até ao frigorífico”, mas movimento a sério: flexões profundas, rotações, mudanças laterais. Para muitos adultos, a resposta é: quase nunca. Vamos da cadeira, para o banco do carro, para o sofá. As nossas ancas vivem num ângulo de 90 graus como se fosse a sua morada permanente.
E depois esperamos que entrem em ação quando corremos, agachamos, dançamos, ou dormimos numa cama diferente nas férias. Não admira que se queixem. Os músculos à volta da articulação - flexores da anca, glúteos, rotadores profundos - contraem-se para proteger aquilo que não se mexe. Quanto mais apertados ficam, mais “fechadas” as ancas se sentem. É um ciclo que vai encolhendo a tua amplitude de movimento sem que te apercebas.
Pergunta a qualquer professor de ioga sobre ancas rígidas e vais ver sempre a mesma cena: uma aula inteira de pessoas a congelar quando chega a hora da postura da Pomba. Alguns ficam cinco centímetros acima do tapete, a fazer caretas. Outros dobram-se à frente e, de repente, sentem uma onda de emoção que não conseguem explicar. Há dados por trás disto também. Fisioterapeutas referem que problemas de mobilidade da anca estão entre os fatores mais comuns por detrás de dores lombares e lesões em corrida.
Um pequeno estudo de 2020 com adultos com trabalhos sedentários concluiu que apenas oito semanas de alongamentos focados na anca melhoraram tanto a velocidade de marcha como o equilíbrio. Isto não é apenas “sentir-se melhor”; é o teu movimento do dia a dia a mudar. Ancas rígidas não são só sobre flexibilidade. São sobre função.
Aqui vai a verdade simples: as tuas ancas não ficam apenas rígidas; também ficam com medo. Quando o corpo não confia numa amplitude de movimento, bloqueia-a com tensão. Por isso é que forçar alongamentos raramente resulta. O ioga oferece algo diferente: formas apoiadas de explorar espaço novo, com a respiração como um sinal interno de segurança. Ancas mais abertas significam menos tensão na coluna, mais potência na passada, e uma forma mais enraizada de estar de pé e sentado no mundo. Ou seja, mobilidade não é só tocar nos dedos dos pés. É sobre como vives dentro do teu corpo.
14 posturas de ioga que abrem suavemente as ancas
Começa pelos heróis silenciosos: lunge baixo (Anjaneyasana) e lunge do corredor. A partir de uma posição ajoelhada, avança o pé direito, com o joelho alinhado por cima do tornozelo, e desliza o joelho esquerdo para trás até sentires um alongamento na parte da frente da anca. Mãos em blocos ou no chão, peito suave. Respira para a dobra onde a coxa encontra a bacia.
Trabalha cada lado durante 5–10 respirações lentas. Depois experimenta o lunge do corredor com o joelho de trás levantado, calcanhar a empurrar para trás, para ativar tanto os flexores da anca como os isquiotibiais. Não estás a perseguir a espargata. Estás a dizer às tuas ancas, com gentileza, que podem voltar a estender-se, depois de anos encolhidas em “forma de cadeira”.
A seguir, traz os clássicos: Pomba, Lagarto, Borboleta e Figura Quatro deitado. Estas posturas trabalham o lado de fora das ancas e os rotadores profundos que ficam como uma faixa apertada à volta da articulação. Todos já passámos por isso: aquele momento em que desces para a Pomba e o corpo diz “Nem pensar.” Então colocas uma almofada debaixo da anca, recuas um pouco, e ficas. Isso também é ioga.
No Lagarto, coloca o pé por fora da mão num lunge baixo, baixa o joelho de trás se quiseres e deixa as ancas afundarem um pouco. Na Borboleta, senta-te com as solas dos pés juntas, joelhos a cair para fora, coluna comprida. Deixa a gravidade, e não o ego, fazer o trabalho. Sejamos honestos: ninguém faz isto todos os dias. Mas mesmo duas vezes por semana, as coisas começam a mudar.
Os estabilizadores são tão importantes como os alongadores. Junta Postura da Ponte, agachamento Deusa e um Guerreiro II suave para criares força onde estás a abrir espaço. A Ponte - deitado de costas, joelhos fletidos, pés à largura das ancas, elevando as ancas - acorda os glúteos que sustentam uma extensão saudável da anca. A Deusa, com os pés bem afastados e as pontas viradas para fora, trabalha adutores e rotadores externos enquanto desces para um meio-agachamento.
Força em novas amplitudes de movimento é onde a tua mobilidade recém-descoberta realmente se fixa. Sem isso, limitas-te a “cair” em alongamentos profundos e voltas à rigidez no dia seguinte. Estas 14 posturas, distribuídas ao longo da semana, funcionam como um kit de ferramentas: algumas abrem, outras estabilizam, e todas ensinam às tuas ancas que voltar a mexer-se é seguro.
Como praticar para que as tuas ancas mudem mesmo
Há um método simples que funciona muito melhor do que sessões heroicas de alongamentos uma vez por mês: sessões curtas, consistentes e ligeiramente desconfortáveis. Pensa em 15–20 minutos, três a cinco vezes por semana. Começa deitado com Figura Quatro, passa para a Borboleta sentado, depois vai para o chão com Pomba e Lagarto. Termina de pé com Guerreiro II e Deusa.
Fica em cada postura 5–8 respirações, com o rosto relaxado e a expiração estável. Se estiveres a apertar a mandíbula ou a prender a respiração, foste longe demais. Sai 10–20%. O teu sistema nervoso está mais atento à tua respiração do que à tua ambição. Quando a respiração é suave, as ancas têm mais probabilidade de “soltar”.
Um dos erros mais comuns é “perseguir o limite” - cair na versão mais profunda da postura que consegues aguentar. O problema é que o corpo lê isso como ameaça, não como terapia. Outro grande erro: comparar as tuas ancas com a pessoa ao lado, ou com uma versão de Pomba do Instagram. A tua estrutura óssea, o historial de lesões e o teu dia até agora influenciam a forma como a postura vai parecer.
Sê gentil contigo no tapete. Se sentar de pernas cruzadas te parece trabalho, eleva as ancas sobre uma manta dobrada. Se o joelho se queixar na Pomba, experimenta a Figura Quatro deitado. O ego vai puxar pela performance. As tuas ancas vão responder à paciência.
“Mobilidade não é ser super flexível”, disse-me uma professora de ioga com muitos anos de experiência. “É ter escolhas. Consegues baixar-te ao chão e voltar a levantar-te sem pensar nisso? Consegues sentar-te confortavelmente no chão com amigos? Isso é liberdade a sério.”
- Começa com posturas deitado se as tuas ancas estiverem muito “bloqueadas”.
- Usa adereços: almofadas, blocos, toalhas dobradas debaixo dos joelhos ou das ancas.
- Mantém cada postura pelo menos 30 segundos, focando-te em expirações lentas.
- Alterna alongamento (Pomba, Lagarto) com fortalecimento (Ponte, Deusa).
- Acompanha o progresso notando o dia a dia: escadas, levantar-te, sentar-te no chão.
Deixa as tuas ancas reescreverem a forma como te moves ao longo do dia
Algumas mudanças são subtis. Estás numa reunião e reparas que as costas já não te “picam”. Sobes escadas e sentes os glúteos a fazer o trabalho, não a zona lombar. Cruzas as pernas num café sem mudares três vezes para encontrar a posição “menos má”. Outras mudanças parecem maiores: dizes que sim a uma caminhada, a uma aula de dança, a brincar no chão com uma criança, porque confias mais no teu corpo.
A mobilidade raramente é dramática de um dia para o outro, mas acumula-se silenciosamente. Um punhado de posturas, repetidas com alguma consistência e um pouco de curiosidade, pode transformar ancas enferrujadas em algo mais próximo de articulações “vivas” outra vez. Começas a reparar como ficas na fila, como te sentas no autocarro, como sais da cama. As posturas não ficam no tapete. Escorrem para a forma como habitas a tua vida inteira.
| Ponto-chave | Detalhe | Valor para o leitor |
|---|---|---|
| Trabalhar as zonas mais tensas | Posturas como Pomba, Lagarto, Borboleta e Figura Quatro focam-se nos flexores da anca e nos rotadores profundos | Ataca diretamente a rigidez que limita caminhar, sentar e agachar |
| Construir força também | Ponte, Guerreiro II e Deusa fortalecem glúteos e estabilizadores à volta da articulação | Ajuda a que a nova flexibilidade dure e protege joelhos e zona lombar |
| Praticar com consistência | Sessões curtas e regulares com respiração calma, em vez de alongamentos raros e intensos | Produz mudanças reais e visíveis na mobilidade diária sem esgotamento |
FAQ:
- Com que frequência devo fazer posturas de ioga para abrir as ancas?
Aponta para 3–5 vezes por semana, 15–20 minutos de cada vez. As ancas respondem melhor a uma prática regular e moderada do que a uma sessão longa de poucas em poucas semanas.- Ancas rígidas podem mesmo causar dor lombar?
Sim. Quando as ancas estão rígidas, a zona lombar muitas vezes compensa mexendo-se mais do que deveria, o que pode levar a esforço, desconforto ou dor recorrente.- É normal sentir emoções durante posturas de abertura de anca?
Muitas pessoas relatam uma onda de emoção em posturas como Pomba ou Borboleta. As ancas acumulam muita tensão; quando essa tensão se liberta, podem surgir sentimentos. É normal e, em geral, passa em poucas respirações.- E se me doerem os joelhos em posturas de abertura de anca?
Recua imediatamente e ajusta. Apoia os joelhos com almofadas, reduz o ângulo, ou muda para uma versão mais suave, como a Figura Quatro deitado em vez da Pomba.- Quanto tempo até eu notar diferença na mobilidade?
Algum alívio pode surgir numa ou duas semanas, sobretudo na forma como te sentas e te levantas. Mudanças maiores na amplitude de movimento costumam aparecer após 6–8 semanas de prática consistente.
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